Pintura de Don Sebas Cassule, "Cri$e Versus Trabalho" no Instituto Camões

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Geração a que pertence o artista plástico Don Sebas Cassule produz, com frequência, obras de arte cujos temas transpõem os aspetos subjetivos que caracterizam o trabalho artístico, particularmente a pintura enquanto exercício de fruição, ou criação individual.

Pintura de Don Sebas Cassule, Instituto Camões, Luanda
António Gonga, Domingos Barcas, Benjamim Sabby e Fernando de Carvalho, completam a relação dos pintores que, à semelhança de Don Sebas Cassule, elegem um tema atual que pesa na sociedade, onde quase todas as pessoas se revêm, relegando a autoria dos quadros de maneira involuntária, passando os espectadores a assumir o conceito da obra.

Estes aspetos podem ser confirmados na exposição individual de Don Sebas Cassule, "Cri$e Versus Trabalho", inaugurada dia 12 de Abril, no Instituto Camões ­ Centro Cultural Português, em Luanda.

"Trabalho vs  Pão-nosso de cada dia", "Investimento vs Rumo à qualidade total", "Criatividade vs Investimento", e "Família vs Múltiplas soluções", são algumas das obras (pintura e instalação) em que Don Sebas Cassule faz críticas, dá sugestões e aplaude determinados fenómenos económicos à luz da crise financeira que o mundo atravessa nos últimos anos.

O desejo de ver os africanos, particularmente angolanos, a usufruir dos bens materiais sem que se denotem desequilíbrios sociais acentuados ­ partindo das necessidades básicas: alimentação, habitação, vestuário, saúde e segurança ­, levou o artista a conceber o quadro "Trabalho vs Pão nosso de cada dia", inspirado na Pirâmide das Necessidade de Abraham Maslow e na oração "Pai Nosso de Cada Dia", da Bíblia Sagrada, em que o pintor realça que o trabalho é também uma das necessidades básicas do homem. No quadro vê-se recortes de jornais e revistas com títulos sobre o movimento financeiro de várias atividades económicas, tendo no centro a imagem de uma criança a comer pão.

O regresso ao país dos angolanos provenientes do exterior e a crescente emigração estrangeira são referências na obra "Investimento vs Rumo à qualidade total". Com este quadro (técnica mista), Don Sebas chama a atenção para o fator qualidade, em todos os sentidos, apelando a pôr de parte as opções políticas, os credos religiosos e a descendência étnica dos regressados à terra, bem como a proveniência dos estrangeiros que escolhem Angola para trabalhar e viver.

Para ilustrar a sua preocupação com a qualidade de vida no país, a composição do quadro é de pedaços de madeira alternados com pedaços de tela na posição vertical, retratando uma barra comercial (código ou selo de controlo de qualidade), e tem no centro a figura de uma pessoa com as mãos levantadas. Don Sebas é apologista de que os angolanos devem se preocupar, em primeira instância, com a qualidade diante do fenómeno globalização. "Que venham nos ajudar a pensar, por isso também incorporei a imagem do Pensador no quadro", realçou o pintor.

Na sala da exposição tem duas instalações, a que mais prende a atenção do espectador é um carro de mão cheio de bijutarias e artigos domésticos à venda, uma típica imagem do comércio ambulante praticado na cidade de Luanda.

Com o título "Criatividade vs Investimento", o artista plástico propõe uma homenagem aos vendedores ambulantes, pela força, coragem e empenho, demonstrando que são "extremamente criativos, apesar das dificuldades enfrentadas, como sol, chuva e caos do trânsito". E mais, Don Sebas admira como os ambulantes fazem a divulgação dos seus produtos com o uso do megafone, prática que considera uma evolução na forma de trabalhar dos comerciantes de rua, muitos sem a mínima formação em gestão e marketing. "Mas vendem muito bem!", comentou.

O quadro "Família vs Múltiplas soluções" é o relembrar da importância da família em todas as sociedades, reforçando a ideia de que as sociedades são dinâmicas em função da vitalidade das famílias. Para se sair da crise, advoga o artista, tem de haver a participação de todos os estratos, incluindo crianças.

Defende ainda que o desequilíbrio económico é a causa principal da crise mundial, e que só o trabalho acelerado dos mais necessitados (dos que têm pouco) pode equilibrar a balança, ou o "baloiço" ­ uma das instalações em falta ­ na mostra que termina a 4 de Maio.

Sobre Don Sebas Cassule:
Viúvo há dois anos, Don Sebas Cassule realiza a primeira exposição individual após a morte da sua mulher, vítima de queimadura na passagem de ano. Apesar de todo o apoio familiar, dos colegas e amigos, houve um desequilíbrio muito grande que ainda hoje se ressente, tanto no campo financeiro como no criativo. "A preparação da exposição também vem de há dois anos, mas fui afetado grandemente no campo económico e no campo artístico."

Cores predominantes na exposição: laranja simboliza "criatividade", vermelho "poder".

Nasceu a 12 de Março de 1968, em Camabatela, no Kwanza-Norte. É desenhador, instalador e pintor auto didata. Membro da União Nacional de Artistas Plásticos (UNAP) e da Associação Internacional de Artes Plásticas L´Aigle de Nice. Foi laureado com vários prémios. Participou na Trienal de Luanda em 2007 e 2010, e na Bienal de Arte Contemporânea de Florença, em Itália, em 2009 e 2011, e em mais de 60 exposições coletivas no país e no estrangeiro. Realizou sete exposições individuais e tem obras em várias coleções particulares e o oficiais, em Angola e no estrangeiro.


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