Quatro actores encenam todas as mulheres

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`Amigas, Pero no Mucho ´ no Epic Sana

Quatro actores encenam todas  as mulheres
Amigas, Pero no mucho no Epic Sana.

A amizade algo elástica de quatro mulheres é posta à prova numa reunião na casa de uma delas, numa tensa tarde de sábado. O cenário é simples: um cadeirão, mesa preenchida com copos, garrafas e vasos. Mas em palco estão três casas, seguindo a mesma lógica para economizar o espaço. O resto é também encenado. Há também um piano numa das extremidades do palco, porque a trilha sonora da peça é executada ao vivo por um pianista brasileiro. São quatro actores maduros e com currículo na teledramaturgia brasileira e conhecidos do grande público angolano por essa via, que interpretam quatro mulheres com problemas comuns, não sendo assim um problema, mas sim uma fotografia encenada daquilo que é o quadro do quotidiano normal do universo feminino, conferindo assim um valor universal à peça, embora o modo de abordar a temática e o linguajar sejam típicos dos valores com os quais julgamos a sociedade brasileira apreendida nas telas e no teatro: a liberdade um tanto desavergonhada de abordar o sexo e o direito ao sexo.
Há um esforço do público para desassociar a estrutura masculina do actor da personagem feminina que desempenha, ficando a ver todo o porte físico que não faz jus ao que estamos habituados a ver nas mulheres. É o teatro e muito pode acontecer.
Débora (André Gonçalves), Fram (Lúcio Tranchesi), Olívia (Agnaldo Lopes) e Sara (Widoto Áquila) são quatro amigas unidas por uma amizade de momentos azedume, como às vezes acontece com os amigos. Em ´Amigas, Pero no Mucho´, esta empolgante escrita pelos brasileiros Célia Fortes e José Possi Neto, trazida a Angola a cargo do projecto de patente angolana ArtFina, rodada em Luanda no Hotel Epic Sana nas noites dos dias 18 e 19 de Setembro.
Assumidamente psicológica, prende-nos pela facilidade e controle que os actores têm do texto, sem dar a entender acertos e até encaixarem descuidos que são transformados em valiosos momentos de improvisação e interação com o público. A trama inicia e finda suportada com o jogo das personalidades das quatro: a irónica, divorciada e perspicaz Débora, a divorciada e ninfomaníaca Fram, a mal casada e ex-rica Olívia e a solteira, sincera e implacável Sara. O clímax aparece nas sentenças feitas pelo juízo de valor que elas tecem constantemente entre si, fazendo o texto fluir em círculo, sustentado com problemas como traição, desilusão amorosa, satisfação sexual, sensualidade, auto-estima, crise de idade, inveja e outros problemas de todas as mulheres.
Mas é a deleitosa personagem Débora que mais toma o texto e o reproduz com requintado sarcasmo, criando com algum esforço a camada cómica do texto, num quadro de crises e tensões de preocupações de classe média.

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