"Quem Matou o Velho Kipacaça"

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Etu Lene estreia peça “Quem Matou o Velho Kipacaça”

Etu Lene estreia peça “Quem Matou o Velho Kipacaça”

O grupo de teatro Etu Lene apresentou em estreia, no decurso da segunda quinzena de Maio, na Liga Africana (LAASP), a peça “Quem Matou o Velho Kipacaça”, uma representação baseada no livro de contos “A morte do velho Kipacaça”, do escritor Boaventura Cardoso.

A peça foi produzida em Janeiro do ano em curso e é uma adaptação da encenação original de “A Morte do Velho Kipacaça” do grupo de teatro Oásis, exibida pela primeira vez em 1999 no FENACULT.

A narrativa reflete a vida, hábitos e costumes de uma povoação, algures na região Centro Sul de Angola, centrada na descoberta das causas da morte de um dos melhores caçadores da região, uma situação considerada como a causa do surgimento de várias calamidades no kimbo.

Vinte horas, as cortinas vermelhas do palco abrem-se, e o público avaliado em 130 pessoas, presente na sala da Liga Africana, soltava aplausos com a entrada dos atores para a encenação da peça. O palco inundado de luzes vermelhas e verdes apresentava uma caracterização composta por casas de adobe cobertas de capim, e montanhas a circundar a zona. Um cenário típico algures do Centro Sul de Angola.

A ansiedade no rosto do público era patente, pelo desfecho que iria resultar dessa coisa de um caçador “tungar” pacaças e elefantes. A peça começa coma dona Teté, mulher do grande caçador Kipacaça, que conta à vizinha o mau sonho que tivera, do marido que foi à caça e não voltou.

De repente, aparece Kipacaça, coma sua infalível caçadeira, e ao aperceber-se do sonho da esposa, procura acalmá-la e aos vizinhos comas suas famosas histórias de caça, contadas em jeito de humor.

Kipacaçanão se cansava de contar ao quimbu que ele era o único homem na aldeia que, ao cabo de três horas de luta, venceu mais de dez pacaças, lutou com elefantes, leões e onças, e como se não bastasse, até o cágado o homem já havia derrotado, tendo feito recurso a cabeçadas, socos, pontapés e bassulas, sem sofrer nem um único ferimento.

E, para surtir os efeitos desejados, as suas piadas faziam-se acompanhar sempre de gestos que traduziam os seus malabarismos e acrobacias. Este foi um dos momentos que convidou a plateia a aplaudir Kipacaça, devido à sua forma de interagir com o público.

Na sequência da peça, Kipacaça decide ir à caça. Na caça, ele conversa com Pupangombe, o ser invisível, venerado como sendo o protetor de caçadores da região, como qual aborda o sonho que a esposa teve.

Passados seis meses, Kipacaça não volta da caça, então o soba do bairro decide reunir com os familiares mais próximos, para saber da causa do não regresso de Kipacaça. Kapapia, o jovem que na sanzala é dado como homem preguiçoso e rabugento, era o mais chegado ao caçador. Kapapia foi o único que viu a hora e a direção que seguira o seu amigo, um detalhe que manteve em segredo durante seis meses, por temer a afronta de algumas mulheres da sanzala, elas, conhecidas como experientes e ávidas em pôr na capanga homens imprudentes em determinadas situações.

Kipacaça era o garante da sobrevivência do bairro, devido à sua misteriosa técnica de caçar.

Por isso, durante este período a região enfrentou várias calamidades: fome, seca, e várias outras doenças. De acordo coma tradição da região, uma vez que o caçador não regresse da caça, e nem o seu corpo é apresentado ao Pupangombe, considerado como o deus invisível que concedia sorte aos caçadores, constituía essa ausência a causa da praga que assolava o bairro.

Na reunião, o soba Bernardo perguntou a Kapapia sobre o paradeiro do caçador mas a casmurrice do rapaz fê-lo não escapar das garras da amiga Teté, esposa de Kipacaça, que lhe aplicou o habitual cafrique de baixo-ventre que deixou o vaidoso rapaz sem ação durante cinco minutos, valendo-lhe a intervenção do man Bernardo, o soba grande, que socorreu o indefeso salvaguardando a integridade masculina do moço.

Diante das indecisões, e instaurado o problema, os mais velhos do bairro decidiram consultar a quim bandeira Kufuca, para saber então “Quem Matou o Velho Kipacaça”.

Ela era conhecida por adotar nos seus julgamentos técnicas duvidosas como a da probabilidade e do terror. Durante o julgamento tradicional, Kufuca instaura um clima de terror e de ameaça aos intervenientes no caso e, para se saber o culpado, os envolvidos tinham de beber uma bebida chamada “Umbulungu”na língua da zona Centro Sul do país, um teste muito usado em certas regiões, em que a prova consiste nos presumíveis culpados tomarem a bebida. Em caso de falecimento, é considerado culpado.

Todos beberam, menos Kapapia. Temendo as probabilidades da quimbanda, decidiu contar que apenas tivera visto Kipacaça partir para a caça às primeiras horas da manhã. Por esta razão, Kapapia foi achado culpado das várias calamidades que assolaram a região, ao esconder informações importantes sobre a morte do Velho Kipacaça, que estaria a pôr em causa a fúria de Pupangombe, o deus que dá sorte aos caçadores.

Depois da quimbanda ter dado o veredicto final – a justiça por mãos próprias – Kapapía foi agredido brutalmente pela população, até lhe acertarem com um pau na cabeça e acontecer o infortúnio. A peça não acaba nesta cena, é bom mesmo ir às salas de teatro para sentir as emoções produzidas pelos artistas da arte de representar.

No decurso da apresentação, foi notória a interação entre os atores e o público, algo que foi motivo de muitos aplausos e risadas, causadas pelas piadas.

Produzida em Janeiro do ano em curso, a peça foi contracenada por seis actores e teve aduraçãode50 minutos.

O encenador e a história do grupo

No final, Beto Cassua, encenador do grupo, informou que decidiram readaptar a peça como título na interrogativa pela importância que representa na divulgação de valores culturais, usos e costumes do nosso povo. Embora readaptada, o artista garante que a peça é uma reprodução fiel da obra do escritor angolano Boaventura Cardoso.

Fundado a 26 de Abril de 1993, o Grupo de teatro Etu-Lene tem 10 atores, contando no seu acervo com mais de 20 peças, dentre elas “O feiticeiro e o Inteligente”, “Uiji Uijia”, “Balumuka” e “Okubele e a sogra que engoliu sapo vivo”.

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