Renato Fialho: "Sonhar de olhos abertos"

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À primeira, dá-nos a aparente visão de uma desfragmentação anatómica em progressão interna.

Ficamos a crer que a imagem se desfaz de fora para dentro, ficando o visível gesto de voltar par si mesma. Ou de uma contorção muito suave.

Mas não é isso o fundamental. O seu surrealismo abstracto é na verdade uma linha de infinitas sugestões. O desafio do fugaz assedia-o. A imagem se movimenta numa decomposição imprecisa. Os fundos sugerem uma transição de cores ou de estados de alma.

Absorvemos apenas a sensação como início vital do quadro. O quadro inicia quando o sentimos. Pois foi assim que os da contra-lógica (surrealistas) se impuseram e nos deram uma liberdade excessiva para sonhar. A exposição “Sonhar de olhos abertos”, do artista plástico Renato Fialho, segue-os flagrantemente.

De 1 a 29 de Novembro cerca de duas dezenas de quadros que compõem a exposição ficam à disposição dos visitantes. Quem se dirigir à Upgrade Art Room, situada na Travessa dos Mercadores 18-20, Coqueiros, poderá encontrar os bem conseguidos “O último sapato”, “Cobrador”, “A espera do gás”, “Carnal”, “Cesta”, “Transbordo”.

Os quadros vêm a ser pintados de 2009 a 2013, um pouco em Angola e Portugal.

“Tem muito a ver com aquilo que os eus olhos enxergam, com as sensações com que choco no dia-a-dia. Com um real puro que posso desfazer dentro das minhas linhas”, acentua Renato Fialho.

Foi do artista que ouvimos a história de “O último sapato”, um quadro singular. Nasce de um sapato de mulher: um salto alto. A cena aconteceu em 2003, durante uma visita humanitária do artista e amigos, acabando por oferecer roupas, banda desenhada… Ao fazerem a entrega dos bens, um dos miúdos fica sem receber, visto que no saco sobraram apenas os saltos altos (de mulher). Decidido, o rapaz experimentou o sapato, o que provocou gargalhadas. Em seguida o artista fotografou-o a calçar, e durante meia década foi apenas uma fotografia de uma cena caricata.

A sua composição pictórica é um exercício do real: a Luanda do agora é posicionada no cobrador “kobele”, no candongueiro, nas senhoras à espera do gás, no carnaval; imagens de grande poder para a memória colectiva actual.

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