Ritmo e harmonia dos cassules abrem a festa

Envie este artigo por email

Ritmo e harmonia. São as melhores palavras para descrever o desfile carnavalesco da classe infantil, o primeiro a abrir a edição competitiva do Carnaval de Luanda. Vindos de vários distritos da capital, os “cassules” mostraram que o legado da “festa do povo” está assegurado. Apesar das inúmeras dificuldades financeiras, alegadas pela maioria dos dirigentes dos grupos, o empenho destes ficou visível para quem foi a Marginal da Praia do Bispo ver o desfile.

 

Fotografia: DOMBELE BERNARDO | edições novembro

Este ano o carnaval infantil foi aberto pelos Cassules do Fogo Negro. Provenientes do Talatona, o grupo, que tem no semba o seu ritmo, decidiu chamar atenção do público à importância de ajudar a construir um novo país. Com a canção, “Vamos pintar a nova Angola”, o grupo “fez-se” a pista da Marginal pronto para conquistar os lugares cimeiros. A ovação recebida após a sua passagem foi um sinal de um bom desfile.
O segundo grupo a passar, 15 minutos depois, foi os Cassules dos Petrolíferos. Procedentesdo distrito do NgolaKiluanje, o grupo usou a “Gravidez precoce” como o tema da sua canção. Por ser um assunto actual e que muito aflige a comunidade adolescente, a canção, entoada sobre o ritmo semba, teve boa recepção da plateia.
Com a canção “Dia da criança africana”, os Cassules do 54 entraram na pista. Com o apoio dos natos e moradores da Maianga, de onde vieram, os “meninos” ajudaram a tornar esta edição do Carnaval numa verdadeira “festa do povo”. Durante 15 minutos, no compasso do semba, os cassules procuraram provar que foram à Marginal da Praia do Bispo para vencer.
Originários de um dos grandes do Carnaval do KilambaKiaxi, os Cassules do Café de Angola foram o quarto grupo a desfilar na Marginal da Praia do Bispo. Com a canção “Wejiakiuenda”, o grupo que também faz do semba a sua bandeira, provou, que com pouco ainda se pode fazer muito e apesar das dificuldades financeiras têm estado a preparar uma geração para suceder os adultos um dia.
A chamar atenção para a importância da irmandade, da ajuda entre irmãos, os cassules do 10 de Dezembro chegaram a pista. Com a canção “Queremos mais escolas”, o grupo, vindo da Samba, deu um espectáculo muito aplaudido pela plateia. Também executante do semba e uma das referências do Carnaval de Luanda, os cassules levaram à Marginal o melhor dos meses de ensaio.
Os sextos a desfilarem foram os Cassules dos Jovens da Cacimba. Com uma vestimenta muito colorida, o grupo fez, este ano, uma “Homenagem aos cantores pio dos anos 80”. Com músicas que marcaram uma geração, mas adaptadas para o ritmo do semba, o grupo explorou mais os temas que se tornaram uma referência da época. A recepção do público também foi positiva.
Os Cassules do Mundo da Ilha, grupo considerado como o grande do Carnaval de Luanda pelo número de edições conquistadas, também se fizeram a pista, desta vez para homenagear os trabalhadores angolanos, com a canção “Tulongamukuaufunu”, executada no compasso do semba. A sua alegoria fez uma distinção aos centros de formação profissionais e aos ganhos que têm proporcionado na vida da maioria das comunidades da capital.
A fugir um pouco do habitual e predominante ritmo do Carnaval de Luanda, o semba, o grupo Cassules dos Admiradores da Kazukuta do Hoji-ya-Henda levaram um pouco de diversidade à “festa”. Com a canção “Vamos limpar a nossa cidade” e o apoio da Fábrica de Sabão, o grupo foi a Marginal da Praia do Bispo lutar por um título. Provenientes do Cazenga, do distrito do Hoji-ya-Henda, os cassules mostraram que certos ritmos, como a kazukuta, ainda são parte da “festa” e conseguem encantar o público.
Para manter o ritmo, a kazukuta voltou novamente à pista, 15 minutos depois, desta feita com os Cassules do Kazukuta do Sambizanga. Com vestimentas bastante coloridas, o grupo fez um alerta social para determinadas práticas erradas desta sociedade moderna e o perigo destas à juventude, através da canção “Walanimaka me”.
“Preservação do meio ambiente” foi o tema escolhido pelos Cassules do Twafundumuka para convencer este ano o júri. A alegoria do grupo também chamou bastante atenção do público pela sua beleza. O grupo, que veio do Rangel e dança semba, conseguiu justificar os meses de preparativos e os ensaios regulares.
As barbaridades contra as crianças foi o foco dos Cassules do Sagrada Esperança, que com a canção “Socorro: crianças a pedir”, pediram maior atenção da sociedade para as atrocidades cometidas contra os menores. Vindos do Rangel, com o semba como dança, o grupo também teve uma alegoria bastante admirável.
A criança também foi o tema escolhido pelo grupo seguinte, os Cassules do Amazonas do Prenda, o 12º na ordem do desfile. Oriundos do Prenda, Maianga, os cassules chamaram atenção para a importância de se respeitar os 11 direitos da criança, em especial nesta época em que os maus tratos contra estas estão cada vez mais crescentes, com a canção “Criança: mão de obra barata”, coreografada sobre o ritmo do semba.
Os vencedores da última edição foram os próximos na ordem do desfile. Provenientes de Viana, os Viveiros do NjingaMbande fizeram uma reflexão em torno das origens e cultura angolana. Com o ritmo cabecinha, outro estilo muito aplaudido pelo público, o grupo usou a canção “Kitualetuniwoma” para reivindicar o título deste ano.
A maternidade e o papel de uma mãe na educação dos seus filhos foi o tema do penúltimo grupo, os Cassules do Juventude do KilambaKiaxi, que com a canção “Anami” e no estillosemba, procuraram mostrar a dor de quem sofre uma perda. Apesar da hora, a passagem do grupo pela pista da Marginal da Praia do Bispo foi bem recebida.
Para encerrar o desfile competitivo deste ano da Classe Infantil desfilou o grupo Cassules do Geração Sagrada. Já passavam minutos das 20h00, quando o grupo fez-se a pista para, de uma forma resumida, fazer uma “Homenagem ao Geração Sagrada (adultos)”, cuja história de participação no Carnaval de Luanda já conta com 18 anos.


OS VENCEDORES

Depois de dias de deliberação, o júri desta edição do Carnaval infantil anunciou, com base na contagem dos votos, que o vencedor em 2018 é o Cassules dos Jovens da Cacimba. O segundo classificado é o Viveiros do NjingaMbande, enquanto o terceiro e o quarto são os Cassules do Mundo da Ilha e do Amazonas do Prenda, respectivamente. O quinto lugar foi ocupado pelos Cassules do 10 de Dezembro.
Pelo feito alcançado o 1º classificado ganha um prémio no valor de 1.000.000 de kwwanzas. O segundo 700.000 kanzas. O terceiro e o quarto 500.000 e 350.000, respectivamente. Enquanto o quinto classificado arrecadou 250.000. Além do prémio por ter conquistado o segundo lugar do Carnaval, o Viveiro do NjingaMbande foi também eleito o vencedor do prémio BAI Canção, que distingue a melhor composição da “festa do povo”. A distinção, no caso,recai para o tema “Kitualetuniwoma”, da autoria do músico Baló Januário e interpretada por Marinela Januário.
O júri deste ano da classe C foi presidido pela cantora Gersi Pegado. Dividido em categorias, o júri contou ainda com Laritsa Salomé, Elisabeth Rodrigues e Pedro Dias “Pitchú” (Dança), Gerci Pegado, MayaCool e Joaquim Freitas (Canção), AminataGoubel, Elga Santos e Luísa André (Corte), Josefina Manzaila, Dom Sebas e Paulo Kussy (Painel), Augusto Van-Dúnem, Dumai e Ilda Costa (Comandante), Vemba Amândio, LukuluZola e Pedro Lino (Alegoria), Liliana Nzinga, Virgílio Santos e Inocêncio de Oliveira (Falange de Apoio).
Este ano, a Classe Infantil, ou C, do Carnaval de Luanda trouxe muitos desafios. Alguns criados pelas inúmeras dificuldades financeiras dos grupos. Muitos tiveram de “engendrar” grandes planos para poderem levar os seus grupos à Marginal da Praia do Bispo.
A falta de financiamento e de apoio por parte do empresariado local tem sido uma barreira, que para muitos “trava” grande parte dos seus planos. Este ano alguns deles, como os Cassules do Kazukuta do Hoji-ya-Henda, receberam apoios dos empresários locais, no caso a Fábrica de Sabão, uma demonstração que ainda existem instituições interessadas em participar da “festa do povo”. Porém, grupos como os Cassules do Kazukuta do Sambizanga, só conseguiram ir até a pista mostrar o seu melhor com dívidas, que no final vão depender muito das “ginásticas” do seu dirigente para serem pagas.
Muitas das vezes, defendem a maioria dos participantes, são apostas muito arriscadas como está que os levam a pensar muito numa próxima participação, uma vez que a maioria quando contrai a dívida espera ir à Marginal da Praia do Bispo para conquistar o título e assim saldar a dívida.
O apoio financeiro, que, na maioria das vezes, é também negado pelas administrações dos seus municípios e distritos, e quando recebem, contam, é insuficiente, aumentou muito este ano, devido a crise financeira.
Este problema também se reflecte, conta António João Ebo, do Kazukuta do Hoji-ya-Henda, na aquisição de um espaço próprio, adequado para os ensaios. No caso dos “seus cassules”, este ano, os preparativos foram feitos num espaço adjacente ao mercado do Asa Branca. Porém, espera reunir condições para voltar a “treinar” no campo da Encibe, com melhores condições para as crianças. Uma boa coreografia, explica, requer um espaço condigno, onde se possa ficar horas a praticar. “E é um dos pontos chaves na avaliação do júri.”

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos