Salvador Ferreira a teleologia da imagem

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O Santinho um dia apareceu me lá em casa com uma pilha de fotografias, explicando-me que gostaria de descobrir que discursos e mensagens se cruzavam nos atos de fotografar e de ser fotografado.

Ana, a apresentadora do livro

Começamos a especular sobre as verdades e mentiras que se adivinhavam nas fotos, sobretudo naquelas que retratam pessoas. Seria o sorriso sinal de felicidade ou apenas uma pose/máscara para a foto? Será uma expressão natural ou apenas uma produção para que o futuro perpetue a imagem que queremos que fique de nós? Será que é possível disfarçar uma dor colocando um par de óculos escuros?

Será que uma fotografia, para ser verdadeira constitui uma traição ou uma invasão ou pode ser uma aproximação consentida de alguém que tem a capacidade de, apesar de estar a ser observado, se conservar inalterável. Será isto possível?

Uma coisa é certa, as fotografias são sempre o olhar de quem as tira e de quem as vê e interpreta, independentemente dos “modelos” e das suas verdadeiras histórias.

Mas nas fotos do Santinho, as pessoas e a natureza, o desfoque e os enquadramentos mais descontraídos revelam-nos um olhar verdadeiro de sua parte. Um olhar de quem quer apanhar e guardar aquele momento preciso e não o outro momento depois da objetiva estar “no ponto” e o alvo bem enquadrado.

Aceitei o desafio pois assim também é a dança: uma linguagem para ser fruída através do olhar. E se a dança é a arte do movimento efémero, a fotografia pode ser a arte de fixar, num clique, momentos efémeros.

Mas, o que move uma pessoa como o Santinho que estudou Agricultura no Tchivinguiro, que trabalhou na área da Energia e Fontes renováveis no Ministério da Energia e Petróleos, que esteve ligado ao reforço de organizações da sociedade civil angolana na ADRA e, na DW, a programas de água e saneamento, e que possui um grau de Mestre em Planificação e Gestão, a dedicar-se à fotografia?

Este livro, “A Fotografia do Quotidiano” deu inclusivamente prioridade a um outro, “Parceria público-privada em Angola – Uma experiência sobre o micro-crédito”, publicado em 2010.

Ele próprio nos dá a resposta: “uma fotografia – diz ele – consegue colocar- nos diante de um enigma temporal, ou seja, logo que a vemos, vem à nossa mente, uma série de questões, tais como: quem é? Quando foi tirada? Onde foi tirada? Porque foi tirada? Isso porque (…) a fotografia (…) representa a vida, a memória, o reencontro, o espelho e o retrato de certos momentos”.

Mas Santinho revela ainda outras justificações: “ela [a fotografia] ilustra também, de forma poética, histórica, emocional e artística, a tentativa das pessoas registarem os acontecimentos e a trajetória das suas vidas, o que as faz lembrar o seu passado e as torna conscientes da sua origem por vezes longínqua na dimensão do tempo e do espaço.”

A preocupação em torno da representação quer de imagens, quer de sentimentos e as possibilidades da fotografia enquanto fonte de conhecimento, da história, das estórias pessoais e privadas, bem como a permanência no tempo que a fotografia proporciona são outros dos pontos com que o nosso amigo justifica, e muito bem, quanto a mim, a importância de se fotografar.Não é minha intenção transformar aqui, em dissecação formal, o livro “A Fotografia do Quotidiano” de Salvador Ferreira. Não porque a obra não o mereça ou não o justifique, mas porque nem sempre se transforma em palavras o que é para ver. Disse, um dia, a bailarina americana, pioneira da Dança Moderna Isadora Duncan que, se quisesse traduzir nas danças o que queria dizer por palavras, não dançaria mas escreveria. Este é, acima de tudo, um livro para olhar e para reinventar histórias cada vez que se folheia, por ser um trabalho que, antes de mais, nos fala aos sentidos.

“A Fotografia do Quotidiano” é um suporte único de memórias provadas por fotografias de pessoas e de outras pequenas peças que reconstroem, perante os nossos olhos curiosos de desfolhar e de tudo absorver em cada página, o olhar de um homem encantado com a possibilidade de gravar imagens para as fixar definitivamente.

Iniciado na fotografia no final dos anos 90, através da lente da sua máquina Ricoh, comprada em segunda mão no mercado dos Congolenses, com a qual fotografava “tudo”, Santinho apercebe-se, pela prática, que a fotografia, e passo a citá-lo, “é algo complexo que envolve a participação de diferentes elementos que devem estar sincronizados para que o resultado final satisfaça os nossos anseios”.

Através das imagens cuidadosamente organizadas nas folhas horizontais de um papel agradável ao toque, Santinho guia o nosso olhar, desencadeando em nós os mais diversos sentimentos e curiosidades.

Para que serve então um livro de fotografias pessoais? Porque a maioria de nós nem sempre sabe deixar-se invadir por todos os pormenores do que acontece à nossa volta.

Retomando as questões iniciais sobre a verdade e a mentira contida na fotografia, apetece-me agora dizer que este é um livro quase com vida, já que as imagens nele fixadas falam para além do que é visível, testemunhando e contando muitas histórias paralelas.

Através deste livro é-nos possível descobrir sorrisos, afetos, olhares, melancolias e até algumas vaidades, mas também a simplicidade, a esperança e os tantos acasos registados no diálogo entre Santinho e a sua câmara fotográfica.

“Nada disto foi planificado. As coisas evoluíram naturalmente até atingir este resultado”, dizes tu, Santinho.

Como coreógrafa, sujeito também o meu trabalho aos olhares do público. O que mostro é produto de uma desorganização inicial que se molda e destrói infinitas vezes no ambiente de caos inerente ao processo de criação. Depois vem o rigor dos ensaios, em que se insiste até se atingir o resultado final que queremos perfeito.

Na arte, nada se conclui por acaso. É sempre produto do amadurecimento das nossas reflexões. Mas também nada se encerra, é verdade!...

Obrigada, Santinho, por teres a coragem de partilhar com todos nós um livro de imagens pessoais, testemunhos que tornas públicos dando-lhes vida e permitindo-nos participar inventando-lhes infinito número de outras vidas.


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