Salvador Ferreira a teleologia da imagem

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O Santinho um dia apareceu me lá em casa com uma pilha de fotografias, explicando-me que gostaria de descobrir que discursos e mensagens se cruzavam nos atos de fotografar e de ser fotografado.

Ana, a apresentadora do livro
Não é minha intenção transformar aqui, em dissecação formal, o livro “A Fotografia do Quotidiano” de Salvador Ferreira. Não porque a obra não o mereça ou não o justifique, mas porque nem sempre se transforma em palavras o que é para ver. Disse, um dia, a bailarina americana, pioneira da Dança Moderna Isadora Duncan que, se quisesse traduzir nas danças o que queria dizer por palavras, não dançaria mas escreveria. Este é, acima de tudo, um livro para olhar e para reinventar histórias cada vez que se folheia, por ser um trabalho que, antes de mais, nos fala aos sentidos.

“A Fotografia do Quotidiano” é um suporte único de memórias provadas por fotografias de pessoas e de outras pequenas peças que reconstroem, perante os nossos olhos curiosos de desfolhar e de tudo absorver em cada página, o olhar de um homem encantado com a possibilidade de gravar imagens para as fixar definitivamente.

Iniciado na fotografia no final dos anos 90, através da lente da sua máquina Ricoh, comprada em segunda mão no mercado dos Congolenses, com a qual fotografava “tudo”, Santinho apercebe-se, pela prática, que a fotografia, e passo a citá-lo, “é algo complexo que envolve a participação de diferentes elementos que devem estar sincronizados para que o resultado final satisfaça os nossos anseios”.

Através das imagens cuidadosamente organizadas nas folhas horizontais de um papel agradável ao toque, Santinho guia o nosso olhar, desencadeando em nós os mais diversos sentimentos e curiosidades.

Para que serve então um livro de fotografias pessoais? Porque a maioria de nós nem sempre sabe deixar-se invadir por todos os pormenores do que acontece à nossa volta.

Retomando as questões iniciais sobre a verdade e a mentira contida na fotografia, apetece-me agora dizer que este é um livro quase com vida, já que as imagens nele fixadas falam para além do que é visível, testemunhando e contando muitas histórias paralelas.

Através deste livro é-nos possível descobrir sorrisos, afetos, olhares, melancolias e até algumas vaidades, mas também a simplicidade, a esperança e os tantos acasos registados no diálogo entre Santinho e a sua câmara fotográfica.

“Nada disto foi planificado. As coisas evoluíram naturalmente até atingir este resultado”, dizes tu, Santinho.

Como coreógrafa, sujeito também o meu trabalho aos olhares do público. O que mostro é produto de uma desorganização inicial que se molda e destrói infinitas vezes no ambiente de caos inerente ao processo de criação. Depois vem o rigor dos ensaios, em que se insiste até se atingir o resultado final que queremos perfeito.

Na arte, nada se conclui por acaso. É sempre produto do amadurecimento das nossas reflexões. Mas também nada se encerra, é verdade!...

Obrigada, Santinho, por teres a coragem de partilhar com todos nós um livro de imagens pessoais, testemunhos que tornas públicos dando-lhes vida e permitindo-nos participar inventando-lhes infinito número de outras vidas.


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