Síndroma do vinagre corrói cinema angolano

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Em 1986, José Mena Abrantes, escritor, dramaturgo e crítico de cinema, publicou um ensaio intitulado “Cinema Angolano: um Passado a Merecer Melhor Futuro”.

JOSÉ LUÍS MENDONÇA

Em 1986, José Mena Abrantes, escritor, dramaturgo e crítico de cinema, publicou um ensaio intitulado “Cinema Angolano: um Passado a Merecer Melhor Futuro”. O título original havia suscitado a discordância do então director do Instituto Angolano de Cinema, Bito Pacheco, que sugeriu a mudança, pois Mena Abrantes tinha-o alinhavado como “Cinema Angolano: um Passado Sem Futuro”.
Decorridos 32 anos sobre esse episódio, cumpre-se, à letra, o vaticínio de Mena Abrantes. Hoje, até mesmo esse passado é uma manta de retalhos das películas produzidas nos primeiros ciclos do cinema independente, um tempo de devotada paixão à causa da revolução e ao resgate da Cultura nacional, que lavaria à tela filmes como Nelisita, de Ruy Duarte de Carvalho. Manta de retalhos pois que tais películas sofrem o fenómeno do síndroma do vinagre, um processo de encolhimento do celulóide e sua deterioração irreversível, por fala de conservação adequada.
Esta deprimente constatação veio a público no passado dia 4 de Outubro, no painel de debate sobre “Cinema e a Memória Colectiva”, direccionado para a conservação da memória cinematográfica angolana, uma iniciativa do Banco Económico em parceria com a This Is Not A White Cube, que já vai na II Edição do Ciclo de Cinema Messu, a celebrar “A Geração da Utopia – Os Cinemas das Independências”com a curadoria de Maria do Carmo Piçarra. A sessão intelectual foi seguida da exibição do filme Nelisita.
Na mesa do debate sentaram-se o próprio Mena Abrantes, Domingos Magalhães, director de uma Cinemateca nominal, o realizador Mário Bastos (Fradique), sob moderação de Jorge António, também cineasta.
Sob o olhar atento de um público restringido a alguns cinéfilos, jornalistas e outros cidadãos sedentos de conhecimento, o director da Cinemateca revelou dois factos que constituem a cajadada letal no pescoço fílmico do cinema angolano:
1. O síndrome do vinagre, desdobrado em dois aspectos:
a) (físico) – a deterioração química do acervo fílmico devida à limitada protecção das películas;
b) (indução metafórica) – a omissão ou inacção das autoridades culturais, pois, como disse Tatiana Levin no seu artigo “Dos Filmes dos Pioneiros aos Realizadores da Poeira", “não há no cinema angolano contemporâneo um movimento institucionalizado capaz de dar fôlego a uma produção consistente”.
2. A extinção da Cinemateca, em 2017, através de um simples e-mail endereçado ao seu director, Domingos Magalhães, que nela ingressou em 1978 e à qual devotou o melhor da sua juventude.
Esta constatação levou o jovem realizador Fradique a afirmar que o cinema angolano se encontra hoje em dia, no patamar de “um presente sem passado nem futuro.
Para além de revelar os meandros em que se encontra a Sétima Arte em Angola, o encontro foi muito produtivo na medida em que os palestrantes traçaram um panorama histórico da produção fílmica pós independência e do rocambolesco filme sobre o desgoverno a que o sector ficou votado. Para ilustrar este estado de coisas, bastou o realizador Fradique explicar que, para a realização do filme-documentário “Independência”, teve de recorrer ao exterior, com custos elevadíssimos, para obter cópias de imagens e que o material sobre a declaração da Independência, em posse da TPA, está em péssimo estado de conservação.
A Cinemateca não conseguia cumprir o seu papel de proteger as diversas gravações, que incluem os jornais da actualidade da primeira República, e sobras de filmes, porque não havia dinheiro para combustível do gerador e o ar condicionado avariava semanalmente. A solução aventada e aprovada superiormente de digitalizar o acervo nunca foi levada à prática, num país com um erário que dava para comprar a Lua.
Cabo Verde, pequeno país irmão, continua a realizar festivais de cinema. Moçambique até possui um Museu do Cinema. “Porque é que Angola foi para este caminho?”, ficou esta pergunta lançada pela mesa do debate.
Este caminho que agora o sector do cinema atravessa é o que criou a americanização fílmica da juventude angolana, pois as salas de cinema de Luanda apenas exibem o que vem do Ocidente, como se em África não existisse um gigante da indústria cinematográfica que é a Nigéria.

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