Sola, Zé Keno, sola dos jovens do Prenda para a eternidade

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O Zé Keno, o virtuoso criador de guitarras de lata na infância.

Zé Keno, sola Fotografia: Jornal de Cultura

Quem guarda a memória da evolução vocal e instrumental do Semba não pode deixar de regurgitar, lá bem do fundo da alma, um verso da canção de Tony Caetano, que diz “sola, Zé Keno, sola”. Este verso nasceu espontâneo da veia inspiradora de Caetano, como uma homenagem a um dos maiores solistas de Angola, que só deve ao congolês Francô, “o feiticeiro da guitarra”, a impregnação da voz à telúrica vibração do metal.

Os Jovens do Prenda surgiram numa fase da história da música africana em que o ritmo solo da viola vindo do Congo (RDC) fazia um eco extraordinário nos quadrantes dos Grandes Lagos e da chamada África Ocidental portuguesa, depois de Nicolas Kasanda, Doutor Nico, ter extraído das densas florestas do Congo, das cordas de luz que se filtravam por entre a folhagem, todo um discurso afro-renascentista para a sua guitarra. Em Angola, circulava um som de viola e de guitarra que nos chegava de Portugal e que acompanhava o Fado. Os angolanos sentiram a necessidade expressa no poema de A. Neto, A Voz Igual, de buscar “a forma e o âmago do estilo de vida africano”, os artistas deixaram-se contaminar pelo impulso natural de sorver um trago do retinir iridescente da viola portuguesa, resgatar a plenitude da Rumba congolesa, mas sem deixar de ser genuinamente angolanos. A espessura solar da guitarra começou a africanizar-se desde os tempos de Liceu Vieira Dias e do conjunto Nzaji. Abraçando esse legado, que era já uma arma da luta anti-colonial, pela via da Cultura, Zé Keno, o virtuoso criador de guitarras de lata na infância, traz para a sonoridade da música angolana uma vibração metálica contagiante, electrizante, que nos leva da meditação transcendental (instrumental) à expressividade da dança de salão (merengue e semba). Imortais são os instrumentais “Rufo da Liberdade”, com o conjunto Merengue, e, na barriga mãe dos jovens do Prenda, “Farra na Madrugada”, “Semba Da Ilha”, ou o nostálgico “Ilha Virgem”, para além de outros que vieram decretar a idade de ouro da música angolana, que sabia beber do Carnaval toda a alquimia do batuque, quando ainda não se usava o sintetizador nem o computador.
Um dos grandes sucessos que imprime esta virtuosidade do solo zequenista ao Semba cantado é, sem dúvida, “Ngongo”, na voz de António do Fumo.
De “Ngongo”, canção da mulher que sabe “nascer filho” (wejia ku vuala), mas não sabe cuidar (kwejia ku sasa), até “Nova Cooperação” vai um salto histórico muito grande. Esta composição magistral, na voz de Dom Caetano, ganharia o Top dos Mais Queridos porque, para além da temática condizente com o novo período da emancipação do povo angolano, é um poema sarcástico em quimbundo (o Semba tem outro entrosamento com as tumbas, o reco-reco e a explosão das violas baixo, solo e ritmo quando cantado numa língua nacional) e a instrumentalização é de todo moderna, bem cuidada, representando já uma fase superior dos Jovitos e do dedilhar calejado mas sintético de Zé Keno.
Desse dedilhar da viola solo, Zé Keno ainda nos legou “Camarada, Patos Fora!” e outras emblemáticas melodias populares dos Jovens do Prenda e do Orfeu guitarrista.
Após a notícia da sua partida para Kalunga Ngombe Dijkanga, em jeito de merecida homenagem, restou-nos como recurso ir até à casa de Sansão, amigo de infância de Zé Keno, ali no Cazenga, para recordar tempos que já lá vão e deixaram janelas abertas que a morte não consegue fechar.

“COMEÇÁMOS A FAZER VIOLAS DE LATA”

Carlos Alberto de Almeida Gomes (Sansão), de 65 anos, conheceu Zé Keno “quando ele veio de Malanje pela segunda vez”, tinha Sansão apenas seis anos de idade. Este encontro inicial decorreu, portanto, em 1958, no bairro Prenda, melhor, no Margoso (onde está exactamente a clínica do Prenda), esclarece Sansão. Zé Keno era dois anos mais velho que Sansão e estudava no Posto 15, perto dos Lotes do Prenda, “mas ele não estudou muito, porque não tinha dinheiro para os estudos”.
“Nós começámos a fazer violas de lata”, recorda Sansão, “havia umas latas de azeite-doce que vinham de Portugal, de cinco litros, em forma de paralelepípedo e ele metia cordas de nylon, fazia um braço de madeira e os afinadores. O Zé Keno tinha muito jeito para fabricar objectos e começou a ouvir aquelas músicas dos Jingas, do Duia, tais como “Lamento”, “Mariana” e “Kazuzé” e começou a imitar, tinha ele já oito ou nove anos. Então resolvemos formar um agrupamento chamado Sembas, lá mesmo no Margoso. Era um grupo equipado apenas de tumbas, reco-reco e outros instrumentos rudimentares de percussão, não tínhamos ainda viola. Havia outros grupos no Catambor, mesmo lá no Prenda, e juntou-se os Sembas aos Jovens do Catambor e daí nasceram Os Jovens do Prenda, em 1968. O grupo foi fundado por mim, Zé Keno, Didi, Inácio, Kangongo, Xico Montenegro e o Gama”.

DO NOME ZÉ KENO
Havia dois Zés no bairro: o Zé Grande e o Zé Pequeno. Para não criar confusão, e para maior rapidez na comunicação, “abreviámos o nome dele para Zé Keno”, diz Sansão, o primeiro vocalista dos Jovens do Prenda, que nunca compôs música, “eu cantava músicas estrangeiras, principalmente brasileiras e cabo-verdianas. O Zé Kenu é que cantava músicas em quimbundo. Posteriormente entraram a cantar o Didi da Mãe Preta e o António do Fumo”.
As primeiras actuações foram no Sambizanga, no Breguês, um euro-descendente que, posteriormente começou a fabricar tumbas de aduelas. Sansão recorda ainda que Zé Keno também tocou no África Show e nos Merengues.
“Em 1974 deixei os Jovens do Prenda e fui para as FAPLA”, lembra Sansão, que também recorda o último encontro com o seu companheiro de quase uma vida: “foi no óbito do Kangongo, há mais de cinco anos. Depois disso, nunca mais vi o Zé Keno”.
Assim terminava, no plano material, a relação histórico-cultural entre dois homens, uma relação cheia de humildade, afecto, e sobretudo fraternidade, revelada ao Mundo pela música, que daria azo à fundação de um dos mais frutíferos agrupamentos Os Jovens do Prenda, que, por sua vez, guindariam o seu principal solista, Zé Keno, ao Panteão da Eternidade.

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