Tamar Golan e Galeria Banco Económico

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Luanda ganha dois novos sítios de Arte

Tamar Golan e Galeria Banco Económico
Artistas, jornalistas e empresários juntos no piso de baixo no dia da abertura da galeria Fotografia: Paulino Damião

O edifício Rainha, na rua Rainha Ginga, tem no seu primeiro andar as instalações da Galeria Tamar Golan, que antes funcionava de forma improvisada noutro espaço da Baixa de Luanda. Adriano Maia desempenha agora a função de seu director. Abriu as portas ao público no dia 15 de Fevereiro, com exposição colectiva de obras de artistas angolanos que estão marcadamente ligados à Fundação Arte e Cultura, matrona da galeria. Abriu prestigiando alguns artistas, como Miguel da Franca, o mestre Paulo Kapela, Kussy, Van, Renato Fialho, Nelo Teixeira, Egas, Grácia Ferreira…
Os dois corredores, em cima e em baixo, são rápidos de percorrer e dão um sentido de intimidade imediato, ficando o visitante sempre ao alcance dos quadros que ficam tanto à sua direita como à esquerda. “Humilde, aconchegante e profissional”, como classifica Adriano Maia, o nome de Tamar Golan surge em homenagem à jornalista e diplomata israelita que se engajou na divulgação da cultura africana.
A primeira exposição individual está para Março e será do artista Hamilton Francisco ´Babu´, que é relativamente desconhecido do grande público das artes. Mas seguir-se-ão outros como Tó Simões, Renato Fialho, Mambo, Kapela (que nada tem a ver com o mestre Kapela), isto reflectindo outra filosofia da galeria: apresentar artistas emergentes que possam encharcar o mercado com sugestões e ousadias na arte de pintar.
Adriano Maia sabe que a crise afectou duramente o mercado artístico, os patrocínios às artes escasseiam e o mercado artístico que já era fraco só vai minguando ainda mais. Mas sábia é a filosofia de sobrevivência uma valência dos tempos difíceis, e Adriano Maia avança que pode se criar uma ideia de uma galeria social, contando assim com a ajuda dos artistas, expondo-lhes mais ao mundo real e dos negócios do circuito artístico, não esperando apenas pelo cliente, mas participando no trabalho de fundo e melhorar a sua cultura de arte e evitar que caiam em tentações, ou seja, não criar à base da necessidade. Explica: “Vemos que quando chega um coleccionador e escolhe um quadro, mesmo que este quadro não seja o melhor conseguido da parte do artista, ele fica apenas por aquele estilo e já não avança, por perceber que para sobreviver e ter saída pode apenas ficar por aí, caindo numa repetição constante de estilo. Isso deturpa a sua liberdade criativa. O artista deve criar mais e melhor e fazer o que ele gosta de fazer. Há trabalhos que o artista faz e que não deveria fazer. É uma tentativa de formalização do mercado. É importante criarmos estruturas da plataforma de arte. Vamos dar garantias e certificados de autenticidade, mas a base continua a ser o artista, mas com um toque comercial empenhado”.

Um mercado justo?
Maia admite que quando a comissão é muito grande e a galeria não fez nada para merecer, é injusto, tocando assim numa problemática sintomática do mercado da arte e da relação artista-galeria. Tem de haver alguma forma de proporcionar a comissão a cobrar, e já seria justo. Esclarece que uma coisa é o comissário estar a telefonar, esforçar e trabalhar para garantir o 50 por cento para não prejudicar o ganha-pão do artista. E outra bem diferente é ficar à espera que os turistas passem para comprar e ainda assim exigir os 50 por cento possíveis de comissão. Mas é a formalização do mercado outro objectivo a conseguir, porque os preços médios, agora com a crise, rondam entre os trezentos e quatrocentos mil kwanzas.
Salienta: “Porque mestres como Van, Kapela e Ole exigem outros critérios a balizar. Mas também há fotógrafos de mão cheia, como Edson Chagas, Kiluanji, Nástio, que eu adorava ver aqui numa exposição. Mas também há outro lado: há artistas que banalizam a sua arte ao ir procurar qualquer madeira ou esticador e depois vemos quadros com madeira torta e mal esticados. Há aqui muito a fazer, como por exemplo da sugestão dos quadros de arte nas capas de cd, que se sente essa falta de interação. A arte deve saber usar a comunicação visual para um mundo além. Por exemplo, Os Pink Floyd são conhecidos por usarem obras de um artista plástico britânico. Porque não os músicos usarem obras de Ole, Kussy e outros. Não deve haver vergonha da arte extravasar o espaço da galeria. É de louvar, por exemplo, na novela Jikulumessu termos visto obras de arte de Guilherme Mampuya. Isso dá-nos orgulho e aumenta a nossa auto-estima. Não vamos apenas ver Picasso na televisão e t-shirt. A arte angolana deve estar no dia-a-dia dos angolanos. Porque são os estrangeiros, expatriados, que mais compram. Um dia, se não tivermos fotografias, vamos ter artistas sem espólio próprios, porque os compradores não são angolanos e regressarão às suas terras”.

Adeus, Naama Margalit
Primeiro, chegou a Luanda sem saber nada sobre Angola e sua arte. Mas o seu coração sempre esteve ligado e aberto aos artistas, uma situação muito normal para o seu dia-a-dia. Naama Margalit está de malas feitas, depois de ter estado quatros anos à frente da Fundação Arte e Cultura, posição que lhe abriu portas para um contacto directo ao coração da arte luandense e travar tete-à-tete com os artistas, partilhando com estes sabores coloridos e dissabores.
Toy Boy foi o primeiro artista com quem privou e trabalhou. E se há uma breve resenha a fazer sobre os quatros anos na fundação, não fica de fora a fusão no projecto Ponte Cultural entre Jeff Browm e um músico israelita, numa magia imediata e inspiradora de dois artistas de percurso, dimensões e musicalidades distintas mas que se igualaram, que lhe marcou e lhe levou a concluir com segurança a máxima de que a música é de facto “uma linguagem universal”.
Kapela é outro escolhido distinto. Fez-se amigo da fundação e especialmente de Naama. Um dia a passar pela Baixa afronta-se com a realidade de um mestre admirado por si a viver de forma indigente na parte degrada da UNAP. Tempos depois ouve que tinha sido colocado no Beiral. Naama visita o mestre que ficou bem conhecido nas bienais de Joanesburgo, Veneza e com quadros em rígidas colecções de arte do mundo mas que nunca viajou com a sua arte: era apenas a sua arte que viajava. Kapela nem sequer possuía documentos antes, mas tudo se concertou e fez a sua primeira viagem ao estrangeiro com apoio da fundação. Assim nasce a ideia de uma exposição individual, a primeira de Kapela, e todo o dinheiro da exposição foi dado ao artista, conseguindo ser economicamente independente, ganhando de alguns artistas a alcunha de Lázaro. Mas isso não ficou apenas no gracejo: deu vida a um documentário biográfico intitulado “Kapela: O Renascimento”, que evidentemente contou com a entrega pessoal de Naama. Contam-se também nestes quatro anos apoios a novos talentos das letras que não viam forma de publicar os seus livros, bem como uma significativa ajuda no apoio a crianças de rua.

Januário Jano
na Galeria Banco Económico
No dia 18 de Fevereiro o cardápio cultural luandense oferecia variadas sugestões, e uma delas era a exposição individual de Januário Jano na elogiosa Galeria Banco Económico, “Fragmentação 1.0”. Situada na rua 1º Congresso do MPLA, em Luanda, este novo sítio das artes plásticas vem dar um novo ar ao modelo e espaços de arte que até agora temos vindo a ter na Baixa de Luanda. Está no primeiro andar de um edifício envidraçado, com vista aberta para rua, permitindo alcançar o mar da Baia numa olhadela. Apetrechada ao detalha, com uma iluminação e ambiente convidativos, fora o espaço e seus desdobramentos, que incitam qualquer visitante à imaginação. Foi neste cantinho novo das artes que o artista Januário Jano apresentou ao público a sua primeira exposição individual, que fica patente por dois meses.
Sobre a mais de uma dezena de quadros expostos, a curadora Sónia Ribeiro aponta a exploração de memória e de registo como o foco central da exposição: “Uma narrativa sentida, filtrada e traduzida no intelecto, afirmando que toda a arte é, não a ´insinceridade´ mas uma ´sinceridade´ traduzida. Esta narrativa que é sempre pessoal, logo subjectiva, explora os mais marcantes momentos de uma trajectória pessoal através do olhar ´adulto´ (intelectual) sobre, não factos, mas de recordações da emoções sentidas na infância em Angola, seu país natal”.
Noutro ponto, sustenta: “A fragmentação resulta da constante procura de resposta aliada à perda de identidade. É na fragmentação que o artista se tenta encontrar a si mesmo. Não se trata tanto do drama da personalidade que leva à dispersão do real e de si mesmo mas é precisamente esta fragmentação que possibilita conciliar o sentir (infância) e o pensar (adulto) e criar uma unidade”.
Januário, sobre si, defende que a sua arte foca-se “essencialmente na evolução de um estilo de trabalho que vem desenvolvendo ao longo dos anos e que referencia-se, com predominância, a partir de símbolos culturais, hieróglifos e outros elementos de grande relevância na cultura, os quais se fundem com memórias de infância e de expressões dos desenhos animados, confluindo na criação do seu expressivo estilo kwicks pop”.

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