Teatro cada vez mais angolano

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O teatro, expressão máxima de um povo, registou as suas primeiras manifestações em Angola na sua forma laica, só em meados do século XIX, concretamente nas duas décadas compreendidas entre 1845 e 1865, onde se encontram referências sobre um teatro feito em Luanda por “jovens portugueses da classe do comércio”, como nos comprova José Mena Abrantes, em Teatro Angolano.

Teatro cada vez mais angolano

O autor dá-nos conta que, na época, todos os espetáculos eram interpretados exclusivamente por homens, devendo as senhoras, mesmo na assistência, ocuparem uma galeria a elas especialmente destinada.

A população autóctone, pela própria diferenciação social imposta pela dominação colonial, não tinha acesso às salas de teatro.

Só na transição da década de 1960 para 1970 se assiste à criação de uma empresa de teatro fixada em Angola, a Companhia Teatral de Angola (CTA), com o fim confessado de “ser comercial e divertir”.

Os primórdios do teatro angolano começam por ser encontrados em três experiências concretas ocorridas antes da independência: a primeira nos bairros suburbanos de Luanda nos anos 1950/1960 (na ação dos grupos Gestos e Ngongo e nas dramatizações dos grupos carnavalescos Cidrália, Kabokomeu e outros), a segunda em bases guerrilheiras no Leste do país (como chamado “teatro de pioneiros na guerrilha ”) e a terceira nas escolas da capitalem 1975.

O grupo cultural músico-teatral Ngongo, criado em Outubro de 1961, tinha como principal característica a congregação no seu seio de um grande número de compositores, músicos, coreógrafos, atores, autores, poetas, declamadores, dançarinos, vocalistas e arranjadores, o que lhe permitiu, segundo Mena Abrantes, explorar vias originais e desenvolver uma múltipla atividade nas áreas da música tradicional, da música popular urbana, do teatro, da dança, da poesia e da declamação.

O teatro feito em Angola nos primeiros anos da independência e até fins de 80 foi irrelevante como fenómeno cultural. No período, apenas estiveram ativos os grupos ligados à Secretaria de Estado da Cultura, como o GAT (Grupo de Amadores de Teatro), o GIT (Grupo de Instrutores de Teatro), e o GET (Grupo Experimental de Teatro); o Kapa-Kapa, grupo tutelado pela UNTA (central sindical) e os dois primeiros grupos que se podem considerar independentes, o Tchinganje e o Xilenga.

Por essa razão, o movimento teatral só a partir de fins dos anos 80 começou a ganhar outra expressão, com a criação do grupo cultural Makote (Os Makotes), da escola 1° de Maio; do grupo da Faculdade de Medicina; do Horizonte Njinga Mbande (1986), da escola do mesmo nome; do Oásis (1988), tutelado na altura pela Anghotel, e do Elinga-Teatro (1988), herdeiro directo do Tchinganje e do Xilenga.

Outros grupos foram surgindo, como o Enigma que substituiu os Makotes, o grupo Julú (1992), o Etu-Lene (1993) e Miragem (1995), e mais recentemente têm estado a afirmar-se no plano interno e internacional o Henrique Artes (2000), o Pitabel (2001), a Companhia de Teatro Dadaísmo (2006), o Diassonama, o Protevida, o Vozes de África (Huambo), o Damba Maria e o Ombaka (Benguela)] e alguns outros.

Para além destes, o que existe é uma proliferação desmesurada de pequenos grupos teatrais (mais de 100 só em Luanda e algumas dezenas nas várias capitais provinciais), quase sempre ligados a igrejas, escolas ou empresas, sem infraestruturas, sem meios técnicos e materiais suficientes e sem formação adequada.

Teatro Angolano volume um e dois, da autoria de José Mena Abrantes, duas obras de consulta obrigatória para os fazedores de teatro, demais estudantes e amantes do teatro, para melhor compreensão da história das artes cénicas angolanas.

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