Teatro no Camões: Os meandros da afirmação do Elinga, Oásis e Horizonte

Envie este artigo por email

Desde a criação do Elinga que Mena tem conseguido a façanha de realizar espectáculos de considerável qualidade com orçamentos muito baixos. Há adornos do Elinga, no caso flagrante dos cubos que várias vezes são utilizados em palco, que duram desde 1988, tanto que em alguns círculos no estrangeiro o grupo ficou apelidado de grupo cubista. De resto, tentam trabalhar sempre de acordo com as suas necessidades concretas. Mas, recomenda Mena, ter uma imaginação prática nestes momentos ajuda a superar as carências, que tocavam mais quando chegavam a usar velas, pois pensar em gerador era uma fantasia que não cabia nas suas cabeças: “Havia vezes que ensaiar parecia um velório em palco”, brinca o director, para riso e aplauso de pouco mais de uma centena de pessoas, entre actores, directores e dramaturgos angolanos, presentes no auditório Pepetela do Centro Cultural Português de Luanda- Camões, que acolheu de 28 a 30 de Janeiro o debate “Há Teatro no Camões”, um espaço dedicado ao teatro feito em Angola.    

Teatro no Camões: Os meandros da afirmação do Elinga, Oásis e Horizonte
Mena Abrantes e grupo do teatro Fotografia: Paulino Damião

Para o Elinga Teatro, na voz de Mena Abrantes, o seu carismático director, a época mais difícil foi a do recolher obrigatório, na fase que era entre as 9 da noite e 5 da manhã. Nesse período, para além de todas as carências que ainda hoje permanecem, não havia sequer mobilidade, para mal dos actores porque quase todos sempre tiveram uma actividade regular e só à noite é que podiam dedicar-se ao teatro. O Elinga (ocupação teatral) é um hobby pelo qual os actores dedicam ao máximo duas horas por noite, que não é tempo suficiente para elaborar muita coisa. Nesse período a mobilidade era nula. Era um problema a agregar nos problemas decorrentes de falta de comida em casa, falta de transporte e nem sequer conseguiam dirigir-se ao espaço de trabalho, e quando assim fosse, alguns, por pura cautela, viam-se obrigados a dormir nas instalações.
Dessa experiência, se há ou não propositadamente a responsabilidade de um testemunho a deixar, Mena posiciona que, enquanto desenvolver este trabalho a nível do teatro, não significa determinantemente deixar o testemunho a alguém, mas sim as pessoas envolvidas devem estar atentas e devem conseguir tirar proveito da experiência vivida: “O testemunho deve ser a obra que nós realizarmos”, indica, justificando não ser sensato ter a pretensão de que aquilo que faz representa algo de substancial que tenha de ser visto determinantemente como testemunho a gerações futuras: “Fazemos o que queremos fazer e da melhor maneira que sabemos”.

Ida a Itália a convite de Pepetela

Começou por esclarecer que dizer que houve, num passado muito recente, uma vontade frenética de ingressar no Elinga é um pouco contraditório a alguns comentários desse período que apontavam que o grupo era elitista e que exigia condições muito especiais. Na verdade, esclarece, o Elinga nunca tinha feito um casting e sempre teve as portas abertas para quem achasse que levava jeito para actor e todos que tiveram a coragem de se aproximar ficaram por lá.
Durante muito tempo, Mena esteve ligado ao primeiro grupo que fez teatro ainda nos anos frescos da independência e que desapareceu algum tempo depois. A seguir dirigiu o Chilenga, outro grupo que termina ainda na década de 80. A primeira metade de 80 foi o período mais longo em que esteve longe dos palcos. Em 85, o actor Orlando Sérgio, que já trabalhara com Mena nos dois grupos anteriores, o convida para dirigir um grupo que cria no Centro Cultural Universitário (hoje espaço Elinga) com os estudantes de Medicina, que eram maioria finalista e passado algum tempo acabariam todos por ir embora. Mena fica aí (no Centro Universitário) sem saber bem o que fazer. Mantinha apenas alguns encontros regulares com alguns destes estudantes que acabaram por gostar do teatro, dos quais lembra em tom meritório os nomes de Nany Pereira e Púlquéria Vandúnem, duas das “sobreviventes” que até hoje continuam impecavelmente ligadas ao Elinga.
Casualmente, a andar numa das artérias de Luanda, em finais de 1987 trava com Pepetela e o escritor explica a Mena que tinha sido convidado a lançar uma das suas obras em Itália e que a editora tinha proposto que ele levasse também a mesma obra já encenada. A contar com a nota positiva que tinha de Mena pelo trabalho que fez com o grupo de teatro da Faculdade de Medicina, o escritor não hesitou em desafiar Mena a montar um espectáculo que fosse levado a Roma: “Eu acho que tu tens condições para montar a minha peça. Vê se no próximo ano consegues monta-la para irmos juntos”, disse o escritor.
Em Abril de 1988 o acaso volta a fazer das suas e Mena reencontra Pepetela, que imediatamente mostrou-se preocupado em saber como decorriam os ensaios da peça. Sem saber bem do assunto e só para não discordar do escritor, ardilosamente o dramaturgo responde: “Sim, está a andar”, quando ainda nem o grupo de actores tinha sido organizado. Foi mais ou menos nestas condições “muito especiais de ir a Itália” que nasce o Elinga. Mena arregaça as mangas e reúne (na casa de uma funcionária da Embaixada do Brasil que era actriz profissional, de nome Paula) os sobreviventes do extinto núcleo de teatro da Faculdade de Medicina por haver esta proposta aliciante de ir a Itália.
Para Mena, foi aí quando as pessoas começaram a perceber que ao fazerem teatro teriam uma viagem garantida ao exterior, numa altura que dificilmente as pessoas conseguiam esta sorte de conhecer outros mundos, que quase todos queriam ser do Elinga.
Conta que de imediato apareceram cerca de quarenta elementos. Teve de por travão para não entrar mais ninguém. Mesmo assim, a peça que leva a Itália reunia trinta actores em cena, considerado pelo dramaturgo o recorde na sua carreira em que mais actores juntou numa peça. E assim surge o Elinga. Mas, quanto ao espaço, Mena tratou de falar com o então reitor da Faculdade de Medicina, Eng.º Guerra Marques, que tratou logo de fazer um documento a ceder o espaço ao Elinga por tempo indeterminado.
Nos primeiros anos todo o mundo fazia teatro por amor, iam ficando, resistindo. A segunda viagem ao estrangeiro só voltou a acontecer quatro anos depois. Nesta fase, lá para os fins dos anos oitenta, ainda havia uma certa disponibilidade das empresas públicas e privadas e bancos em apoiar os espectáculos.

2014 sem Festival

Sempre que contam organizar um festival fazem-no por conta própria, a andar de porta em porta à busca de apoios. Ainda não há apoios institucionais para este tipo de evento. Portugal, exemplifica Mena Abrantes, até bem pouco tempo os grupos tinham direito a um subsídio do Estado. No caso de Angola, crê que agora, no quadro da nova política cultural, poderá ser possível tentar obter financiamento de acordo com a dimensão do projecto. Alarga que no Brasil essa acção é bastante vulgar, os grupos apresentam projectos, candidatam-se e, se forem admitidos, têm direito a fundos para a sua realização.
Foi exactamente por falta de fundos que o Festival Elinga Teatro 2014 não chegou a acontecer, o mais oportuno momento de educação estética para muitos grupos e concretização dos públicos do teatro angolano. Embora Mena explique que os grupos convidados só estivam à espera da confirmação, que não foi cedida porque em Maio alguns dos elementos do Elinga estavam mobilizados para participar em acções ligadas ao Censo, outra razão aludida mas não a mais pesada.
Decidiram adiar para Junho ou Julho mas não conseguiram os fundos necessários para o festival. O primeiro festival que realizaram foi no vigésimo aniversário do grupo, em 2008, e a ideia era fazer um festival todos os anos. Sem grandes hipóteses, só conseguiram fazer três. Agora fica mais difícil, com a confirmação da queda do Elinga, visto que têm dois meses para abandonar o local. Os donos do projecto almejam fazer um edifício com a promessa escrita de o mesmo possuir uma sala de teatro que será propriedade do grupo.
Os três festivais que organizou, ao contrário do que acontece com os grupos angolanos em festivais no exterior, em que normalmente a organização apenas assume as despesas da viagem e apoios logísticos locais, o anfitrião angolano financiou a deslocação, a hospedagem, a alimentação e ainda ofereceu um valor simbólico.

Falta de salas

Da realidade angolana, analisa que o Censo revelou-nos agora que Luanda tem mais de 6 milhões de habitantes mas não tem sequer uma sala digna para espectáculos. Acode que havia o Teatro Avenida, há a Liga Africana mas que não foi bem concebida para o teatro, e o Elinga que é uma antiga escola cujo pátio foi aproveitado para palco. Esperançoso com o futuro, adianta que há planos para se fazer um grande teatro em Luanda mas que isso só não chega. Para uma grande capital como Luanda, para além deste grande teatro, que possivelmente poderá ter qualidades para ver desfilar grandes companhias de ballet e ver resolvido o problema da Companhia de Dança Contemporânea, que até já galgou passos a nível internacional e que muitas vezes se vê obrigada a fazer a estreia dos espectáculos no estrangeiro por falta de espaço apropriado no seu país, sugere, por outro lado, para corresponder à demanda nos bairros em que o teatro é das artes de eleição, que seria plausível que se fizesse salas multiusos em cada município. “Vimos pelo mundo que um simples armazém com espaço e altura suficientes poderia ser propício para instalar palcos móveis”.
De um país irmão do qual se pode buscar exemplo e experiência, Mena recorda uma vez que o Elinga foi participar num festival em Curitiba, Brasil, uma cidade que tem cerca de um milhão de habitantes: “enquanto durou o festival havia 70 teatros em actividade, todos com espectáculo e com público”.

Rivalidade entre os grupos

Mena reporta que nos primeiros anos da independência tinha se estabelecido uma certa rivalidade entre os grupos: todos diziam ser os melhores, os mais antigos e que tinham melhores condições para trabalhar. Só em fins dos anos oitenta, quando surgiram os grupos Horizonte, Oásis e Elinga é que começou a nascer uma estreita colaboração entre os grupos porque as pessoas que dirigiam mantinham simpatia e cumplicidade. Passado algum tempo, com o surgimento de outros pequenos grupos a rivalidade voltou a estar na moda.
Com o intuito apenas de orientar, durante anos fez críticas de teatro, que era uma forma de contribuir para valorizar os espectáculos, apontar qualidades das cenas apresentadas, sugerindo alterações para certos problemas. Às críticas que publicava nos jornais, Mena era respondido com insultos de baixa índole, sem sequer ver os seus argumentos contrariados com a mesma perspicácia e temática. Acusavam-no de elitista, de só querer trabalhar com brancos e de louvar apenas o teatro Europeu. Essa atitude era muito vulgar e acabou por força-lo a deixar de fazer críticas.
Mas, recorda um desses episódios irrisórios, uma vez criticou de forma demolidora a construção de um dos espectáculos do grupo Nova Cena e em resposta o director do grupo disse que Mena tinha inveja. Passado algum tempo este grupo foi convidado a ir a Portugal e num dos jornais do porto um crítico usou os mesmos pontos de Mena para criticar o grupo. De regresso a Angola, o director do grupo fez-se humilde a Mena consentindo as críticas tecidas pelo angolano. Porém, um jornalista de um órgão de informação da nossa praça, convidado pelo grupo para ir cobrir o festival, dizia que o público do Porto estava estupefacto de tão sublime que foi o espectáculo do grupo angolano, paradoxalmente, para mancha do jornalismo da nossa praça eivado de opiniões gratuitas que em nada favorecem o engrandecimento do teatro. Do caso, Mena observa que os grupos angolanos e moçambicanos têm o problema de estarem sempre entre os melhores em festivais estrangeiros, vivem a contradição de internamente não ser considerado um grande espectáculo mas, sem razão aparente, ovacionado no exterior.

Boaventura Cardoso
na afirmação do Oásis

Lá para finais da década de oitenta, a primeira complicação surgida no momento da criação do Oásis era exactamente como é que poderiam sobreviver. Africano Kangombe, mais velho dos membros que veio a ser este prestigiado grupo de teatro, sugeriu que o melhor seria atribuir ao grupo o nome de uma empresa. Mas como atribuir o nome de uma empresa se esta não apoia e nem sequer os conhecia? Na altura tratava-se da empresa ANGOTEL, por ser uma empresa que geria hotéis de luxo e lograriam dessa forma o uso destes hotéis para realizar espectáculos que os possibilitaria sobreviver e dar continuidade ao sonho de fazer teatro. A objecção da parte dos seus companheiros foi imediata, mas conseguiu convence-los de que este seria o plano certo.
Quando montam a peça que lhes leva ao grande público (A Morte do Velho Kipakasa), viriam aí a grande oportunidade para fazerem o seu grande marketing cultural. Mas como fazer isso? Como encontrar uma fonte de rendimento? Bem, arranjaram uma forma de convencer o então secretário de Estado da Cultura, Boaventura Cardoso, e Mena Abrantes, que orientava cursos de teatro, a irem ver a peça. Boaventura Cardoso gostou e colocou à disposição do grupo dois dos seus parentes próximos para ajudarem o grupo a fazer pesquisas no intuito de melhorar a sua percepção sobre o Kwanza Sul, espaço originário da história encenada. O grande triunfo do grupo foi conseguir convencer o ministério da Cultura a lhes ajudar a trazer num dos espectáculos a direcção da ANGOTEL. Envolvido neste plano do grupo, Boaventura Cardoso fez valer o seu peso institucional e ajudou o grupo assinando os convites de um dos espectáculos, que teve uma resposta positiva da parte da empresa ANGOTEL. Por outro lado, para a grande admiração do corpo directivo da ANGOTEL e motivos de questionamentos no seu seio, José Mena Abrantes, num gesto de apoio, escreveu uma peça elogiosa no Jornal de Angola cujo título lia-se: “Oásis da ANGOLTEL do bom teatro”. Com a sorte a favorecer os audazes, o espectáculo foi um sucesso total, tanto que, instantes depois de terminar, o então director das operações, de nome Apolinário Diogo, dirigiu-se apressadamente aos bastidores à procura do grupo para estender um convite para um almoço no dia seguinte como forma de manifestação da assumida satisfação da parte da empresa que fazia parte. Foi no fim do referido almoço que este adiantou uma pergunta inesquecível para a história do Oásis, que escrevemos: “O que é que vocês precisam?”.
O grupo, modesto, respondeu que só precisava de autorização para usar o nome, resposta que voltou a causar outra admiração a Apolinário, que reclamou: “Só isso?”.
Um pouco depois, Mena Abrantes volta a publicar um artigo num jornal de Portugal sobre o Oásis da ANGOTEL, um gesto copiado pela imprensa nacional, pressionada pelo grupo por via de um humilde pedido.
Com o futuro a desenhar-se promissor, Kangombe mostrou-se um director humilde, para não dar em sabichão que ignora as inteligências dos outros. Essa atitude criou um espírito de equipa que nos dias de hoje se revê como irmandade, sem intrigas ou rixas injustas, seguindo escrupulosamente uma máxima umbundu que carrega como orientação nas suas relações: “tudo que nos separa nos diminui”.
Quando dá-se o fim da cadeia hoteleira ANGOTEL o país já vivia um período fértil para a cultura, visto que à maioria das empresas o Estado fazia sentir a obrigação de apadrinhar um grupo cultural, e isso facilitou a ascensão da arte teatral, que, segundo a caracterização de Kangombe, ajudou a desenvolver o momento alto do teatro. É aí que granjeiam a sorte de serem apadrinhados pela Força Aérea Nacional, ficando agora conhecido como Oásis da Força Aérea.

Adelino Caracol
e a lição de humildade

A teoria da integração e a humildade foram as estratégias utilizadas por Adelino Caracol para fazer vincar o grupo teatral Horizonte Njinga-Mbande. Como experiência, recorda a primeira vez que vai a Portugal, em 1992, para participar no Festival de Teatro de Expressão Ibérica e no passaporte tinha acumulado os títulos de director, dramaturgo, encenador, actor, luminotécnico, tantos que um dos elementos da Polícia de Imigração de Portugal ousou, em jeito de teste, perguntar a Adelino quem foi Shakespeare.
Com efeitos cómicos, outro momento desconfortante voltou a acontecer no festival quando, numa mesa redonda, os intervenientes se dirigiam a si usando títulos como senhor doutor, professor doutor, caríssimo engenheiro, reputado actor…
Insatisfeito com a cena, de regresso ao país reavaliou tudo que não era, riscando literalmente os títulos excessivos que pesavam sobre a sua pessoa: “Acho que não sou isso tudo”, dizia para consigo mesmo. Isso lhe valeu que começasse a perceber o teatro de outro modo e que era preciso estudar. É assim que se apega mais ainda a Mena e faz o seu grupo ter presença assídua nas suas aulas.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos