Teddy dos Super Coba: “O playback está a matar a nossa música”

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De tão dado como impossível, ora espanta, ora amedronta ver Estêvão aproximar o rosto quase até à linha das nádegas e a nuca quase na linha das virilhas, Israel fazer o calcanhar atingir a nuca, Smith fazer o queixo e as nádegas estarem de frente a ponto do primeiro se servir do segundo como se fosse sua mesa, e Luís se encolher até todo o seu corpo se juntar e ganhar um forma circular. Todo este "feitiço" tem nome próprio: contorcionismo e a sua possibilidade advém da impressionante plástica da ossatura humana.

Teddy, Simão e Teddy, 72/73 o Super Coba

O Super Coba era composto por dez elementos. Teddy confirmou que à época foi o primeiro agrupamento que chegou a introduzir músicos que tocavam trompete e saxofone. O nosso interlocutor entrou para o conjunto em princípios de 70. Dos que lembra, o vocalista cita: Jorge (viola solo), Djanga (viola ritmo), Domingos (viola baixo), Mabiala Kayu (bacterista), Jack (voz), Frank (voz), Justino (ngoma), Luve (saxofone) e mais um trompetista. Pouco sabe sobre o paradeiro destes elementos.

Como vocalista, em meados de 75, Amélia Dalomba integra o agrupamento. Fica por lá cerca de três anos que se traduziram para si em verdadeiros momentos de aprendizagem.

O conjunto participou em diversos festivais de música da sua época. Lembra bem os similares Ngoma Jazz, Africa Show, Jovens do

Prenda, Kiezos e vozes sonantes como as de Teta Lando, Carlos Lamartine, Massano Júnior e outros com quem partilharam os palcos da época.

Entre outros sucessos que precisam ser reeditados pelas entidades culturais para novas abordagens da criação musical da época, do conjunto ficam nos anais da discografia angolana de 70 e 80 os registos "Mona", "Cólera", "Shimbelembele", "Fimpatina" e "Massanga".

Teddy e Tabu Ley Rochereau

Chega a Cabinda em 1972 e entra para o conjunto neste mesmo ano. Em 1972/74, o Super Coba estava no auge. Tecnicamente o grupo termina em 2000, mas ficará para sempre nos anais da História da Música Angolana.

Músico há 45 anos, começa a cantar aos 20 anos. Já desde as suas primeiras actuações que o talento vinha à tona. "Era perceptível", reforça. Se assume músico até ao último dia da sua vida e conta que não sabe ser outra coisa. Teddy é o nome de palco do homem que responde por Samuel Teca. Nasce no Uíge, Damba.

Da arte, Teddy nos ensina: "Na arte, tudo é uma questão de dom". Classifica o Super Coba como um conjunto composto de músicos refinados. A maioria viera do Zaíre. Teddy não foi excepção: começa a sua carreira nos idos anos 60 no Congo Democrático, precisamente em Matadi. Foi nesta cidade das que apelidavam-no de "Tabu Ley Rochereau". Muitos o viam como um seguidor da música deste grande mestre da música congolesa.

A sua afinidade com o cantor congolês é velada e consciente. Foi no início de 2000 que chega a dividir o palco com Tabu Ley, num show proporcionado numa das casas culturais de Cabinda, Chiloango. "Foi um dia maravilhoso", recorda com entusiasmo. "Nunca me esquecerei disso. Percebi que a música africana tem parentescos que nós não devíamos ignorar. Às vezes acho que esta ideia de modernidade não passa de uma grande armadilha", acrescenta.

Devoto, o músico não quis ficar sem dar o último adeus ao astro congolês aquando da sua morte aos 30 de Novembro de 2013, momento em que volta a conceder entrevistas a alguns canais de televisão do Congo a respeito da morte do seu ídolo.

Na contramão das editoras, em 2002 lança o cd "Yakidila", justificando que "só Deus sabe o dia do seu fim". Mas não foi muito bem aceite por falta de editores, apesar de considerar um cd bem feito e que passou por Angola, Congo e França.

Em finas de 2012 é homenageado no Centro Recreativo Kilamba e volta a cantar o sucesso "Mona". Desvenda que Mona é uma figura feminina; um problema de amor sobre uma linda jovem que na verdade chamava-se Mónica.

O bar Yeyé

Não lembra bem o ano, mas destaca um festival no Sporting de Cabinda no qual cantaram um repertório de música revolucionária com uma grande exigência rítmica. Neste dia saíram-se tão bem que os jornalistas do Congo convidaram-no para uma entrevista.

Eles reconheceram que Angola afinal também tem vocalistas à altura das grandes vozes que a grande máquina cultural congolesa fez evoluir à dimensão africana com a revolução cultural que se designou por "l'authenticité", um pouco para abafar o eurocentrismo exacerbado que se fazia reinar depois do preconceito e estigma contra a cultura africana impostos no período da colonização.

A música estava num grande patamar. As farras funcionavam todos os fins-desemana. O Super Coba proporcionara grandes momentos no bar Yeyé, o "Bela Negra" no Samba Bar e o Super Renovação no Pio. Foi nestes sítios que fizeram o seu público, que ousaram novas abordagens, que compartilharam as grandes questões da sua época através da música.

A posição do produtor/promotor

A má apropriação dos conceitos produtor e promotor e as suas novas funções nas sociedades abertamente mercantis trouxe consequências que levaram a nova geração a não sentir peso nenhum do legado umbilical. O tempo é instantâneo, e a cultura também se tornou efémera. Teddy é outra voz que sofre das consequências desta abrupta mudança na concepção editorial da música.

Reportando um pouco da sua época, foi com algum saudade e tristeza à mistura que o músico sustentou que o seu tempo foi o melhor: o tempo de ouro da música angolana. Defende que os promotores da época eram pessoas que possuíam um entendimento muito mais justo sobre o que era de facto o valor da música na cultura. "Eram pessoas que sentiam esta responsabilidade", explica.

Como muitos agrupamentos de destaque, o Super Coba tinha um patrão que possuía uma visão do grupo bastante triunfante e que almejava que fosse sempre um dos melhores agrupamentos da época. O Bela Negra e o Super Renovação são outros bons exemplos desse período.

O playback está a matar a nossa música

É da geração que recebeu o legado daqueles que fizeram a grande música de intervenção. Das suas opiniões sobre a música de hoje, Teddy defende: "Eu acho que os jovens artistas não são corajosos e também lhes falta curiosidade em estarem sempre ao lado dos mais velhos. Porque eu, para ser músico, passei primeiro por uma grande experiência de autodefinição".

Foi num período de procura de si que toma contacto com a música de Tabu Ley e de imediato se entusiasma pelo estilo e temática do congolês. Em seguida, nos palcos procurou não ser uma cópia, mas sim seguir e modificar de acordo com a sua condição cultural. "Sabia que deveria ser autêntico", explica.

Sempre teve um contacto distante com Tabu Ley. Apenas o ouvia na rádio ou televisão. Mas isso não o impediu de procurar entender e seguir o congolês.

"Hoje temos poucos jovens que conseguem isso. No nosso tempo não tivemos esta "invenção" do playback. Tudo era ao vivo e o músico tinha de ser bom a cantar. Não havia margens para fingimento ou disfarce. O playback está a matar a nossa música. No mundo, não conheço um bom músico de playback. Os melhores músicos tocam ao vivo".

Recorda que antes a escola era rígida e era preciso ter talento e auto-estima para se assumir como artista, por um lado. Por outro, contrapõe que hoje é só meter um som de piano, fazer programação e cantar em cima dessa mistura para que amanhã também seja chamado de artista.

Em suma, aconselha ser prioritário não misturar todos no mesmo saco.

Em 72/73 o Super Coba em trânsito com destino a Benguela para o Festival do Flamingo actuaram numa casa de cultura de Luanda

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