Terceira edição do Vidrul-Fotografia Uma grande campanha de alfabetização artística da foto

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De 3 de Junho a 1 de Julho, Bruno Caratão, Jordana Leitão, Hugo Salvaterra, Sérgio Afonso e António Ole expuseram os seus trabalhos no Salão Internacional da UNAP, no decurso da terceira edição do Vidrul-Fotografia, cuja curadoria ficou a cargo de André Cunha.

Terceira edição do Vidrul-Fotografia Uma grande campanha de alfabetização artística da foto
Terceira edição do Vidrul-Fotografia Fotografia: Bruno Caratão

Aberto a fotógrafos angolanos residentes no país ou na diáspora, é o curador que tem livre arbítrio na escolha do fio condutor de cada edição, assim como dos fotógrafos. Não pode haver "reincidentes" de fotógrafos de ano para ano, mas, de resto, o curador convida os expositores angolanos.
Adriano Maia, produtor do Vidrul-Fotografia, coloca que este evento nasce da vontade da Vidrul - Vidreira de Angola em apoiar activamente a identificação de novos valores e a consolidação de grandes activos na arte e cultura em Angola. Mas ainda está a dar os primeiros passos: patrocinador, produtor e curador pretendem que seja uma longa caminhada em prol da Fotografia Moderna em Angola.
Quanto ao que a fotografia representa, o fotógrafo Sérgio Afonso define que a mesma regista para um futuro incerto um instante do passado que algum dia alguém vai olhar e dizer: “olha como era naquele tempo”, sendo isso o que mais cativa: a possibilidade de estancar ou fazer parar um momento do tempo das vidas.
Agora, como achar o lugar do fotógrafo? Com a quebra da monotonia dos estúdios, indica que o lugar é a rua, pois é lá que a história está a ser contada, cabendo ao fotógrafo a responsabilidade de desempenhar dois papéis importantes: o de documentar o presente para se entender num futuro, ou de propor um futuro com base em factos do presente.
Manifestamos também a preocupação na exploração de zonas do interior. Sérgio adiantou que o processo tem acontecido, com grande ênfase depois de 2002, período em que a vontade de conhecer Angola, já há muito presa dentro dos artistas, explodiu. Hoje começam a encontrar imensas imagens nas redes sociais dessas zonas, locais anteriormente proibidos se tornaram comuns no instagram e no facebook, o que faz com que essa exploração do interior seja inevitável, até mesmo para nos conhecermos melhor.
Do espaço da fotografia e os limites e/ou interacção com outras artes, asseverou que a mesma sempre terá o seu espaço: “ela tem poder para isso”, acrescentando que, com os avanços da tecnologia, em 2012 foram tiradas mais fotografias. Ou seja, a todo instante está a ser tirada uma nova fotografia de qualquer parte do mundo, e a ser postada na Web: será isto arte? Responde que só iremos descobrir daqui a muitos anos. Mas a pintura é uma das febres mais visíveis, já também defendida por Ole, cuja aparição permitiu aos artistas plásticos começaram a pintar de outra maneira, pois os retratos jamais poderiam representar o real tão bem quanto a fotografia, diz Sérgio. Hoje voltaram a dar valor aos retratos pintados, e muitos artistas usam a fotografia como base para outros trabalhos. Acima de tudo, fala-se de suportes, e a arte está na mente de quem a cria. Ela jamais terá limites. Algo estaria errado se isso acontecesse.
Classificou o circuito da fotografia (concursos, eventos, workshops) como um movimento ainda muito fraco, citando o Brasil e Inglaterra como exemplos a seguir.
Entretanto, considera que o mesmo já foi pior nos anos passados, quando ainda não existiam estes concursos impulsionadores que agora acontecem todos os anos. Por outro lado, reconheceu que parte, também, da classe dos fotógrafos cobriu essa falta, passando o conhecimento em massa, mostrando como este evento pode ser tomado como “uma grande campanha de alfabetização artística da foto”.
Para Jordana Leitão, a fotografia sempre foi algo que a maravilhou e na qual foi se descobrindo, a si própria e ao mundo exterior. É a sua ferramenta de compreensão, exploração e comunicação. A fotografia permite-lhe preservar momentos que repara e revelar algo que tende a passar despercebido ou que está escondido. Chega mesmo a conceituá-la como “uma espécie de magia que nasce do encontro entre a perspectiva subjectiva do fotógrafo e a objectividade do mundo factual”, de onde nasce uma terceira dimensão que se alimenta da tensão entre a realidade e a imaginação.
Quanto ao lugar que quer ter como fotógrafa em Angola, almeja expor e explorar diferentes padrões e formas de vida quotidiana que fazem parte do nosso sentido de identidade: explorar os desentendimentos entre o passado e o presente, e como isso influencia os rumos que tencionamos tomar.
Assume para a fotografia um campo de diversas perspectivas cujo valor reside na sua natureza e linguagem únicas, que resultam do acasalamento entre a presença tangível da realidade e a experiência e imaginação pessoais. Toma-a como uma arte existencial ancorada na realidade, mas sem os limites da matéria que a fecunda. Pelo contrário, vê inúmeros temas por explorar e perspectivas comummente ignoradas que deveriam ser projectadas.

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