Teta Lando: Quatro anos de saudade

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Pelas tuas obras e criações, tornaste mais bela a nossa época e digo-te com as emoções ao rubro. É certo que era um grande artista, uma vedeta a tempo inteiro, mas sempre com consciência e racionalidade. Mas era acima de tudo um ser humano com grande sentido de família, o contrário surpreender-nos-ia.

Teta Lando

Na manhã do dia 14 de Julho de 2008, através dos média nacionais, o povo angolano tomava conhecimento do falecimento de Alberto António Teta Lando em Paris.

Autor-compositor e intérprete angolano adulado por todos, este grande homem tinha ido para França para se submeter aos tratamentos adequados para a doença que o consumia.

Não voltaria com vida ao seu país natal, tendo a doença prolongada de que sofria debilitado irremediavelmente a sua resistência.

Esta notícia abalou não só os familiares, amigos e os fãs, mas foi todo o país que estremeceu com essa perda.

Pois o Artista que desaparecia era alguém muito especial pelas suas ações. Todos recordamos as palavras pronunciadas solenemente pelo Presidente da República de Angola, José Eduardo dos Santos, no momento em que, acompanhado na circunstância pelo seu governo, lhe prestou uma homenagem nacional fortemente aplaudida nas instalações do Complexo Desportivo de Cidadela, onde os restos tinham sido expostos para um último adeus do público.

Diante de um espaço cheio de personalidades angolanas, de todas as confissões, o Presidente da República tinha declarado que "o desaparecimento físico de Teta Lando constitui uma perda irreparável, não apenas para a sua família, mas também para toda a Nação angolana que ele tanto amou e procurou imortalizar nas suas belíssimas canções."

Na assembleia, a intensidade era tão grande que muitos não conseguiram conter as lágrimas. Prova do amor que manifestavam para com este digno ilho do país que tanto lhes tinha dado em vida.

Generoso, visionário e sempre atento, este mensageiro da paz social, levou a votos junto dos deputados da Assembleia Nacional Angolana uma Lei que concedia uma pensão aos artistas-compositores que tivessem completado 35 anos de carreira ou aos que atingissem os 60 anos. Aliás, tal como eu, muitos dos seus próximos na altura, podem testemunhar que, de Paris, ele tinha refletido muito sobre o modo como poderia assegurar uma base social sólida para os artistas, a fim de os dotar de boas condições sociais e materiais para a sua autossubsistência. Essa era a melhor maneira de poder ajudar os outros, em particular os seus antigos camaradas.

Assim, em nome da amizade sincera que nos unia, escolhi este dia para lhe prestar homenagem e manifestar a minha amizade fraterna e patriótica. E para além de tudo o que ele pôde dar ao país, os angolanos guardarão por muito tempo na memória, a sua gentileza, sinceridade e humildade.

Bem como a sua incontornável generosidade. Ao dedicar-lhe esta página, aproveito o momento para salientar, de novo, o seu contributo para o progresso cultural nacional do nosso país, para a aquisição de direitos sociais para os seus pares que queriam viver digna e decentemente, e isto porque era um homem honrado.

Ainda que hoje em dia o nosso país esteja dotado de artistas talentosos, a silhueta e a voz melodiosa do nosso Teta Lando ressoam sempre nas nossas mentes.

Muitos de nós, amigos próximos, nunca recuperaremos de tal perda. Os atributos que lhe eram próprios fazem-nos falta para sempre. Relembro que ele passava o tempo a oferecer a amizade; que dava sem contar a ponto de dar o que lhe fazia falta; quantas recordações nos deixou? Quantas estão mesmo na origem da nossa reconstrução? Sei que todas estas riquezas ficarão gravadas nas nossas memórias.

Eis porque me apetece dizer hoje: «Pelas tuas obras e criações, tornaste mais bela a nossa época e digo-to com as emoções ao rubro.»

É certo que era um grande artista, uma vedeta a tempo inteiro, mas sempre com consciência e racionalidade.

Mas era acima de tudo um ser humano com grande sentido de família, o contrário surpreender-nos-ia. Lembro com saudade as festas de família que ele tão cuidadosamente preparava e que tinham sinais de grutas de Ali-Babá.

Em particular as festas de fim de ano onde montanhas de prendas e de guloseimas enchiam os olhos e o coração das crianças e adultos que ele amava.

A família era para ele tão importante - como o deve ser para todos nós que encontrava nela a fonte da energia.

E tinha o dom de saber uni-la, reuni-la e orientá-la... E quando se tratava de dar, ele dava-se a si próprio, ao seu tempo, tudo o que pudesse ser justo para o bem dos outros.

E era particularmente generoso no dom da sabedoria, o que lhe proporcionava um grande prazer. Assim era o nosso Teta Lando.

Esperemos que os jovens, e mesmo os menos jovens, encontrem neste exemplo matéria para reflexão e para melhor avançar nos seus domínios específicos, nas suas carreiras, no seu bem-estar.

Era esse um dos sonhos deste grande artista de coração grande.

Volvidos estão 4 anos! Neste dia 14 de Julho de 2012, toda a Nação terá um pensamento amigo e fraterno para contigo. São estes os meus mais profundos votos, a mais bela homenagem que podemos oferecer-te.

Reunir

Domingo vou fazer um funji
como fazia aquele velho
na sanzala.

A sombra da mulemba vai ser a sala
na sanzala.

Eu vou fazer um semba
para dedicar a Lemba

Vai ter hungo e quissanje
vai ter marimba de Malange
para encontrar a harmonia

Vamos falar de terra
vamos esquecer a guerra
vamos ter uma só voz
vamos ficar entre nos
no meu funji de domingo

Avó Marica vai gostar
avó Ximinha até vai chorar
por nos ver todos juntos conversar
ela vai chorar
ela vai gostar
do meu funji de domingo

Domingo vou fazer um funji
como fazia aquele velho
na sanzala.

A sombra da mulemba vai ser a sala
na Sanzala.

Vamos falar de terra
vamos esquecer a guerra
vamos ter uma só voz
vamos ficar entre nós da terra
no meu funji de domingo

Os nossos velhos vão gostar
de nos ver todos juntos conversar

As nossas mulheres vão deixar de chorar
as nossas crianças vão gostar
vão sorrir

Os nossos mortos vão compreender então
porquê que morreram afinal
eles vão nos aplaudir
vão nos aplaudir sim
a esperança vai voltar
e eles vão compreender então
porquê que morreram afinal

Alberto Teta Lando

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