TONITO `MAFUMEIRA´: Um álbum meditativo e intensamente melódico

Envie este artigo por email

"Mafumeira" é o regresso do velho senhor. Um regresso que tem a calma da sabedoria e do tempo. Mafumeira é um disco de afectos e memórias, onde se sente a ambiência do BéÔ, a ecologia daquele bairro, onde o olhar se perde lá longe na Angola, que nunca deixámos de desejar.
Quem reduz África e Angola à intensidade e vertigens rítmicas, descurando o lirismo e a dimensão melódica, pode desgostar-se e sentir alguma dificuldade em mergulhar no universo “Tonitiano”, nessa geografia subterrânea, nessa geometria da intimidade, que é a sua verdadeira alma.

TONITO `MAFUMEIRA´: Um álbum meditativo e intensamente melódico
António Pascoal Fortunato (Tonito) Fotografia: Paulino Damião

Levámos dezenas de anos para chegar aqui, ao lançamento do primeiro CD de Tonito, “Mafumeira”, iniciativa meritória da Kissanji Produções.
Qualquer ouvido capaz de olhar com atenção para a cena musical urbana contemporânea em Angola compreenderá que vivemos momentos exaltantes, com a multiplicação de iniciativas difíceis de acompanhar, devido sobretudo à intensidade de eventos.
É essencial sublinhar de modo incisivo e fazer justiça ao momento singular que vivemos, um pouco por toda esta imensa Angola. No entanto, e apesar da multiplicidade dos concertos, gravações, sessões, enfim da quantidade de oportunidades, etc., à excepção do trabalho paciente, persistente e empenhado do crítico e especialista Jomo Fortunato, fala-se (e escreve-se) pouco de música, como se a música só existisse quando é tocada.
As questões relacionadas com a criação, as fontes de inspiração, a divulgação e o estudo da música angolana, tendo como ponto de partida e de chegada os próprios músicos e cantores, são fundamentais. Hoje, neste mundo em mudança e globalizado, não podemos ficar indiferentes aos seus percursos e processos criativos, às suas fontes de inspiração, tão diversificadas quanto ricas em experiências humanas e, obviamente, musicais.
Dizia que em Angola se fala pouco de música. E, frequentemente, não se faz justiça aos verdadeiros criadores.
Uma excepção louvável: em 2011, o Festival da Canção que a Rádio Luanda Antena Comercial (LAC) organiza anualmente e que se tornou já uma referência de enorme alcance artístico e cultural pelos talentos que dá a conhecer, retratando tendências e alternativas inovadoras destacou, com especial brilho, a figura injustamente esquecida de TONITO: raríssimo artista, compositor, letrista e cantor.

ÁLBUM MEDITATIVO

Ouvi com atenção e prazer crescentes o CD “Mafumeira”, que contém 11 faixas, todas assinadas por Tonito, que entretanto musicou Agostinho Neto “Caminho do Mato” e o poema “ Menino Triste” de Jofre Rocha.
O álbum é meditativo, confessional, intensamente melódico e, ao mesmo tempo, pródigo em rítmicas sincopadas, vectoriais, isocrónicas, com uma variedade de “moods”.
Surpreendente e exemplar o modo como ao longo de todo o disco, os “sopros”, as “cordas”, o acordeão, percussões e teclados se cruzam – sem conflito – com a voz. Belo exemplo é o tema “Tuila Um Ulungu”, em que se acentuam as preocupações sociais do compositor, onde o acordeão de João Frade, notável instrumentista algarvio, faz verdadeiros “obligattos” ao cantor; acordeão e voz de “mão na mão”.
Imutável na sua honestidade de criador, Tonito persiste, sisificamente, num processo de reinvenção, reencarnação sobre um reportório original e pessoalíssimo. Da sua pena e voz só há a esperar o melhor.
A soberana maturidade que hoje exibe interiorizou as grandes influências musicais e humanas de outrora. Atente-se na força telúrica que lhe ilumina a criação em “Caminho do Mato”; o sangue e o suor de um lirismo onírico em “Menino Triste”.
“Mafumeira” alimenta um saudável e inédito, mas pouco comum entre nós, cruzamento de gerações de músicos intervenientes- nacionais e estrageiros-, mas também uma enriquecedora coabitação de estéticas e tipologias musicais. Pessoas de idades diferentes e percursos musicais distintos à volta da mesma fogueira. Este é um dos grandes ensinamentos de “Mafumeira”.
A produção musical deste disco foi entregue ao multi-instrumentista Simmons Massini, que também fez os arranjos. As harmonizações prometem muitas esperanças, e como instrumentista, o crescimento acelerou-se e as boas surpresas são cada vez mais frequentes.
As vozes que, em dose certa, surgem ao longo das faixas, como elemento aglutinador da banda constituída por instrumentistas competentes e cumpridores são belo pretexto para o lirismo de Tonito; lirismo semeador de planícies melódicas onde brilha o sol.
Vozes e vozes de instrumentistas que são corações cheios de música.

NO LIMITE DO ASFALTO E INÍCIO DO BAIRRO MARÇAL

Conheci António Pascoal Fortunato (Tonito) nos anos 60. Nessa época a música, a preocupação com a revalorização das manifestações culturais e musicais angolanas, a consciência nacionalista e uma recusa consciente ao exotismo colonialista constituíam já o seu habitat permanente.
Nesse tempo, numa Luanda dividida, vai para mais de quatro décadas, o seu extenso currículo existencial já incluía a “licenciatura” que as vivências na periferia da cidade do asfalto, no Bairro Indígena, e noutras zonas cinzentas, sem luz nem vida, proporcionam; o peso da influência da Igreja Metodista Unida, no contexto da Missão Americana existente em Luanda, na Rua da Missão, que a família, profundamente religiosa, frequenta, e os primeiros contactos com os cânticos religiosos (Espirituais e canções Gospel) e os clássicos (Mozart, Bach, Bethoven), o Colégio das Beiras e o contacto com outros jovens já sintonizados com um mundo de mudanças e reivindicações perspectivadas.
Não podia ter começado melhor a minha ligação com o compositor, letrista e cantor, quando, muito depois do sono dos outros, no limite do asfalto e o início do Bairro Marçal, num canto discreto de uma tasca “Noite & Dia” fui ouvindo as suas estórias e passei a conhecer melhor um percurso que verdadeiramente começa em casa dos pais, longe das cidades, sobretudo com a mãe a as avós, que lhe transmitem o universo e as expressões populares da autêntica natureza africana.
Raríssimo Artista desde 1959 quando integra os Kimbandas do Ritmo, com os irmãos Barber e o inesquecível Manuel Faria, seu companheiro nas andanças nocturnas; verdadeiros pastores da noite. O seu inequívoco bom gosto e musicalidade em criações bem conseguidas, em total dissonância com os cânones da época, permitiu que, em diversas ocasiões, integrasse o Ngola Ritmos, tendo composto com Liceu Vieira Dias.
Em 1972 participa na gravação “Mbaku Kavalé” de Manuel Faria, acompanhado pelo conjunto “Águias-reais”.
A sua obra de compositor, nomeadamente “marimbondo”, “undengue uami”, “monangambé”, “engraxador” é marcada permanentemente pela modernidade e passa por passados que outros não praticam. Elaborada à margem das tendências e modelos dominantes – acabou por se impor. Pela sua amplitude, pela criatividade extrema, pela beleza e fidelidade a ela própria e pela cativante força; beleza e força que têm a ver com o nosso dia-a-dia, as nossas amarguras, alegrias e tristezas, os nossos sonhos e desafios, os nossos amores, enfim …a nossa Terra.
A forma como cantou- com muitos companheiros- a Liberdade e o regresso de Angola à História é irrepreensível.
A História da música popular urbana de Angola comporta várias injustiças. António Pascoal Fortunato (Tonito) é uma delas.
Importa sublinhar que alguns dos nomes cimeiros da nossa música gravaram os seus temas: Rui Mingas e Carlitos Vieira Dias, Duo Ouro Negro, Sara Chaves e Banda Maravilha, num gesto inequívoco de reconhecimento da importância e alcance do seu papel como compositor inspirado e sensível.
Sou dos que acreditam que se enganam os músicos que não se interessam nem estudam a sua própria história nem conseguem ouvir os outros. As raízes não bloqueiam o crescimento, ajudam a crescer mais forte.

ROCHA TRANQUILA

Tem sido esta a praxis de Tonito: uma espécie de rocha tranquila. As árvores que foi plantando são a sua própria sombra.
Existem no essencial do seu percurso- Ngola Ritmos, Botafogo, Kimbandas do Ritmo – sensualidades cromáticas e uma mística serenidade interior distantes do imediatismo da força dos nossos tambores – africanos e angolanos.
Em “ Canto evocativo” um dos mais belos tributos às pessoas de Luanda e do Bé Ô, e à ecologia daquele espaço – hoje quase esquecido- e ao Ngola Ritmos (Liceu, Amadeu, Nino, Xodô, Fontinhas, Zé Maria, Gé Gé) e tanta gente bonita: Aladino, Valdevino, o poeta do futebol, o Mais velho Óscar Ribas- o cego que nos ensinou a ver-, o inesquecível Catarino Barber, Caeiro, Maneco Faria, Kapikua, Antonino, Quim Jorge. E verdadeiras universidades: Bota Fogo e Fogo Negro, são memórias de boa memória!
Mu Luanda Henda Javulu, diz o autor.
Henda Xala, digo eu.
Em “ Mafumeira”, um disco primoroso, que arrebata por dentro, está o espaço livre e infinito de uma Luanda para sempre ligada à funcionalidade da música: para pedir a chuva e a vida, para celebrar a morte e a eternidade; para exigir a Independência e, deste modo, regressarmos à História.
“Mafumeira” tem o sabor de uma música que sempre conhecemos e que perdurará para sempre.
Obrigado, Tonito.

27 de Março de 2015, Memorial Dr. António Agostinho Neto

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos