Top dos mais queridos 2015 ´Gagos´ficámos

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Feitas as contas destes 10 meses de votação pública.

Top dos mais queridos 2015 ´Gagos´ficámos
Yuri da Cunha vencedor do Top 2015. Fotografia: Paulino Damião

´Gago´, de Yuri da Cunha, foi a mais eloquente, a mais chamativa, a que melhor conquistou o coração dos amantes da música em 2015. Assim podemos considerá-la desde a noite de 2 Outubro, dia em que foi consagrada canção vencedora do Top dos Mais Queridos 2015, anúncio feito na gala realizada no Centro de Convenções de Belas, promovida pela Rádio Nacional de Angola. Saída no álbum “O Intérprete”, lançado no princípio deste ano, ficou com 23 por cento dos votos. Foi a vontade do público, justa ou não para alguns artistas que fizeram muito neste intervalo de 2014-2015. Aliás, ainda a começar a gala, já Afonso Quintas, nas vestes de mestre de cerimónia, tinha logo alertado que não estava em causa a melhor música ou percurso mas sim o mais votado neste ano, e mais tarde, a descortinar a franja que mais vota, foi oportuno ao trazer a público que são as pessoas entre os 18 e 25 anos que mais votaram, ateando desta forma a discussão dos públicos da música actual, seus prós e contras e as variáveis idade versus qualidade musical.
Diz um velho adágio que difícil seria agradar a gregos e troianos ao mesmo tempo, bem como também seria justo parafrasear o célebre verso de Camões que diz: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, querendo com isto aclarar que os públicos têm os seus gostos e devem ser respeitados, tal como os artistas são influenciados pelas tensões sociais dos seus tempos, para não produzirem um objecto artístico desenraizado do seu momento. Quem esteve presente viveu esse dilema segundos após terem informado o resultado inapelável que o Yuri, este showman da novíssima geração do semba e que nos últimos tempos tem procurado beber mais fulgor do semba trasbordante da cabaça de Bonga, seria então o mais querido de 2015. Na plateia, maioritariamente jovem, de imediato mais de uma dúzia de pessoas se levantou gritando o nome de Kyaku Kyadaff, esta promessa que conquistou o coração da juventude e dos kotas, dos sembistas de farras de quintal aos de salões, bem como de alguns polidos amantes de jazz, que apreciaram e deram boa nota ao registo que deu título a este álbum de Kyaku lançado no final de 2014, ´Se Hungwile´. Era claro que o rapaz do Zaire podia mesmo ter merecido esta edição do Top e não ser nada excessivo, pelo sucesso que tem estado a fazer desde 2014 (prémio Coca-cola do Top dos Mais Queridos) a 2015, sempre com o seu nome nos mais importantes eventos que servem de factos irrefutáveis para considerarmos o nível de popularidade deste ou daquele cantor. Kyaku, que concorreu com a música ´Prazer quebrado´, conseguiu o terceiro deste Top, com 12 por cento dos votos.
Outro artista com grande notoriedade nestes dois anos tem sido C4 Pedro, que conseguiu impor a sua marca entre guerozouk e kizomba com o seu modo característico de torcer as palavras até ganharem uma sonoridade aliterada, para não falar de Yola Semedo, que desta vez o seu ´Abana´ não aqueceu o suficiente, de Ary, que empregou rapidez ao interpretar ´Despedida do Lar´, da autoria de Beto Cruz, ou de Nelo de Carvalho, com a acertada letra de ´Minha Linda´.
Estaríamos com certeza diante de mais um daqueles momentos marcantes do nosso showbiz doméstico, se Matias Damásio se consagrasse o mais querido de 2015, igualando assim o romântico Pedrito, até agora o queridíssimo com três edições no seu percurso. Matias, que concorreu com a música ´Beijo rainha´, ficou em segundo lugar com 17 por cento dos votos, deixando esta proeza da sua carreira para edições futuras.

´Me agarra só no uhm´
faz Landrick Prémio Cocacola
Sobre factos novos ou sinais de uma geração nova à cabeça do showbiz da música angolana, na edição passada, em Malange, vimos NGA a casar musicalmente com a versátil guitarrada de Tedy e Yanick (Afromem) numa das posições cimeiras. Se há águas que batem até a pedra furar, também há este rap que se esforça por conquistar o seu público e que se faz presença notória nas últimas edições do Top, deixando até já a possibilidade de um dia ser o mais querido do ano, como escapou em Malange quando o quadro dos dez tinha Yanick, Dji Tafinha e NGA. Só para recordar, já em Malange, o próprio Yanick, um exemplo do lado positivo do rap, tinha se mostrado feliz pelo espaço que o rap começava a ganhar no seio de individualidades da massa crítica angolana que outrora não fazia mais do que lançar pedras e desdenhar este estilo marcadamente juvenil. Hoje, o rap deu a volta por cima e se mostrou consciente, por um lado. Por outro lado, há um rap que serve para infestar um problema que tem sido a febre da juventude, elevando valores ao extremo com a exibição de uma luxúria surreal para a realidade económica de muitos dos seus amantes, nudismo, sexo explícito, drogas e gangues, as mesmíssimas coisas do pacote americano para montar a mentira do carpe diem, de viver a vida e suscitar uma atitude hedonista.
Na noite do dia 2, os The Groove mostraram o seu house mas foi Landrick a notícia da noite. O rapaz da Bom Som, produtora de Anselmo Ralph, foi o Prémio Cocacola, pelo sucesso que tem feito nos últimos meses, sustentando com letras que insinuam termos e discrições descaradamente sexuais como remexer que cuia bwé, encostar até roçar e me agarra só no uhm, este último o novo termo introduzido por Landrick como contribuição do possível dicionário, quase todo ele recheado de intenção erótica, de termos musicados na explosão musical 2000, parte do coro da canção que tem feito sucesso no seio da juventude, uma realidade da novíssima música angolana que cada vez mais se impõe com mais força, sem correcções atempadas, como se todos estivéssemos gagos ao analisar a moral musical de uma época.

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