Um olhar de memória sobre Lino Damião

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Três anos foi o tempo que o artista plástico Lino Damião precisou para fazer a sua homenagem ao “mestre” Viteix.

O percurso do jovem Pintor Lino Damião traduz inquestionavelmente a procura de novas linguagens e simbolismos, mas sobretudo a integração no seu Olhar como viveu e vive a Sociedade angolana e a luandense em particular no seu imaginário. A par disso, e na sua relação com a Arte, cujos eixos de opção recaem sobre os Desenhos, a Pintura e a Fotografia, o criativo Pintor Lino Damião vai ao encontro da Memória para homenagear o passado e as suas vivências, mas com justiça faz questão, e bem, de honrar a sua forte ligação a dois intelectuais angolanos e homens de pensamento, que no quadro das suas opções estéticas, influenciaram no bom sentido a paixão e a visão atenta do cidadão Lino Damião. Não nega essa Memória e inclui Jerónimo Belo e o saudoso Viteix no seu imaginário. Percorre o tempo. O seu tempo e o tempo dos outros. Percorre o tempo de Jerónimo Belo através do Jazz. E percorre o tempo de Viteix a partir da observação meticulosa da sua Pintura. Cruza duas formas de Arte que são o Jazz e a Pintura e transforma essa dinâmica criativa transportando para os seus Desenhos e demais concepção estética a realidade rica e diversa do Jazz e a transformação do traço que deixou marcas pelas mãos do Pintor Viteix. Estas inquietações de Lino Damião são feitas num tempo em que nem sempre se quer evocar a Memória. Mas não há futuro sem Memória. E o Pintor Lino Damião inscreve no devir dos seus dias o imperativo da Memória como resgate porque em tempos difíceis da nossa História recente, Jerónimo Belo e Viteix, como outros no contexto das suas intervenções, contribuíram de modo firme e coerente por novos e renovados apelos em torno da Arte e da Cultura de Angola.

BUSCAR A HISTÓRIA
Neste fim de Ciclo, que não se esgota agora nesta Exposição, o Pintor Lino Damião vai buscar a História para o centro de novas perspectivas sem negligenciar de forma afectiva e justa, o compromisso estabelecido com Jerónimo Belo (mais conhecido por GéGé Belo) e Viteix. Este Ciclo do R é uma obra singular a vários títulos: primeiro pelo modo como foi construída num determinado lugar entre o autor e Luanda e que se afasta da separação de papéis habituais nestes casos e pelo retrato, profusamente documentado, do empreendedor permanente - nacional e internacional - e do crescente sentido de utilidade pública que o move. Ou, ainda, porque concretizou o objectivo - e cito o autor - de "abordar aspectos importantes e de valia para o ensino da arte, do jazz, do amar Luanda e dois dos seus filhos sem esquecer a influência dos meus antepassados e da minha família". "A memória é a consciência inserida no tempo", escreveu o Escritor português Fernando Pessoa. Algo que ilustra bem o percurso evolutivo do próprio Lino Damião, muito determinado pelas suas próprias escolhas. Mas sem querer desmerecer a Exposição, notável já o disse, é outro motivo que me faz trazer à colação. Muitas coisas foram escritas e ditas sobre a importância da memória para a história dos povos e para a identidade dos países. Julgo que, neste campo das Memórias dos nossos mais proeminentes criadores e intelectuais, urge criar e preservar os acervos e os percursos que ilustra e criou sob diferentes perspectivas a Cultura de Angola.É absolutamente pertinente corrigir esta trajectória quanto antes, aproveitando a possibilidade de dispor do máximo de testemunhos em nome próprio. O que quero sublinhar é que o país precisa de muitos Museus e Centros de Arte Moderna para que a Memória não se dilua no voragem do tempo. Este Ciclo, que agora vemos, tem muitas histórias e compassos. Mas a forte convicção do Pintor Lino Damião permitiu-lhe de forma transversal e assumida não deixar cair o que de facto é importante. É o resgate justo de quem pensa e sente a necessidade de novos diálogos sem visões egocêntricas, sem sentido. Ele busca na sua Arte esse necessário caminho de verdadeira consciência artística e intelectual. Porque Angola precisa desta nova corrente sem corte de gerações e sem esquecer quem plantou boas sementes na nossa trajectória cultural. Lisboa, 25 de Maio de 2018. GABRIEL BAGUET

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