Um pouco do estado actual da Arte Contemporânea em Angola

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Arte contemporânea, merecem uma maior atenção, outras nem por isso merecem tanta atenção da minha parte.

Um pouco do Estado actual da Arte Contemporânea em Angola

Quando me propus escrever para o jornal de Cultura, assaltou-me a seguinte ideia: sobre o que escreveria eu ? Então pensei em escrever sobre o actual sistema artístico e o estado da arte em Luanda, Angola, aonde acontece grande parte dos maiores eventos de arte no momento. Vejo e vivencio coisas boas a acontecer em Luanda. Umas merecem uma maior atenção, outras nem por isso merecem tanta atenção da minha parte. Tenho ido, quer em visita, quer a trabalho e quando falo de trabalho, falo de expor as minhas obras nos principais eventos mundiais de arte contemporânea da actualidade, tertúlias, encontros com personalidades. Daí puder estabelecer um termo comparativo com a produção dos artistas locais, suas dificuldades e debilidades.
Quase todos os artistas contemporâneos meus, já se cruzaram comigo, quer em vernissages, quer em inaugurações de exposições de colegas e, desta a parte, posso falar do sistema actual das artes plásticas em Angola. Claro que estas breves linhas não espelham todo o trajecto que tem feito a Arte. Daí eu estar neste momento com o projecto de livro do que foi a Arte Contemporânea Angolana nos últimos 100 anos, aproximadamente. Mas quisera com este pequeno esquisso de texto lembrar ou relembrar o que foi a ultima década ou momentos mais marcantes.

ARTE DO PÓS-GUERRA E UNAP

O sistema mal começou, mas já está moribundo, neste pós-guerra, percorridos já aproximadamente 14 anos desde o findar do conflito bélico que assolou o país. Passado este tempo, não vemos qualquer desenvolvimento neste campo social. Faltam salas para exposições e aqui falamos de iniciativa privada/Estatal, mercado primário, galerias. Neste contexto, deveria de existir uma galeria do Estado, com iniciativas estatais. Não temos… Galeria essa existente em todas as metrópoles e que, de certa forma, é o front dos melhores artistas nacionais e internacionais. Como é o caso da Galeria Serpentine em Londres ou a Berlinale em Berlin. E, se temos alguma coisa dentro desta área, que é o caso do Museu de História Natural (SIEXPO) ou o Salão internacional da UNAP, não têm missão, linguagem artística (em inglês “statement”). Relativamente ao Estado, o mesmo se denota, deveria estar a criar utensílios para exposição das artes e dos artistas. Nada acontece ou nada faz.
Mandamos artistas para as bienais internacionais, muitos destes artistas nada têm a ver com Arte Contemporânea Angolana, como foi o exemplo desta última Bienal de Veneza. A exemplo: as obras que representaram Angola nesta já referida Bienal, do artista Francisco Vidal, ou o outro reverso, a obra do artista angolano Nelo Teixeira que, esteticamente não está maturada a nível de discurso artístico. Estes acontecimentos são um pouco fruto de quem decide sobre o que mostrar na bienal, os conselheiros fora de tempo.
A instituição que é a tutelar desta modalidade dentro do campo visual, a UNAP, não se consegue encontrar. Saliente-se que, começando pela presidência da comissão directiva, o Artista António Oliveira “Dudu”, o secretário-geral desta instituição, o artista Etona, que estão no actual mandato, plasticamente falando, tendo em conta que nós somos uma extensão daquilo que fazemos e sem tornar isto um qualquer ataque pessoal, porque a crítica é que faz desenvolver o ser humano, a obra de qualquer destas pessoas que administra esta instituição não possui qualquer visibilidade artística. Se se olhar com olho atento, tanto a pintura do Artista Dudu ou de Etona, verifica-se que estes não fizeram um estudo prévio da forma, do realismo que tentaram pintar. Outro caso flagrante é o do presidente do conselho fiscal, que se diz pintor, mas nunca ninguém visualizou uma obra dele, não há registo de ter participado em nenhuma exposição individual ou colectiva. Cito estes casos particularmente, porque reza o Estatuto da UNAP que deve administrar esta instituição quem deu mostras de uma sólida carreira artística ou que tenha conhecimento profundo do que é a Arte.

TRISTE TRIENAL

Tivemos uma Trienal de Luanda, que foi e é bastante triste… Propôs-se fazer algo, seguidamente fazia tudo ao contrário. Se a palavra de ordem fosse inclusão, seria o equivalente na pratica a exclusão. Realizaram-se duas Trienais sem os artistas mais importantes de Angola, e sem um Staff Curator´s (traduzidamente Comissão de Curadoria), ou outros departamentos necessários a estes eventos.

FALSIFICAÇÃO ARTÍSTICA

Sou apologista de que deve existir algo e muito em torno das artes, eventos, e cada vez mais iniciativas, melhor do que não existir nada, devo concordar. Mas também devem concordar que Arte Conceptual não é o artista, que não domina a pintura andar pedir a outras pessoas para pintar e no final assinar o quadro de outro artista, como se fosse dele a obra. Este já é outro assunto, mas está dentro do actual problema. A falsificação, a fraude , o embuste. E depois ser condecorado pela obra que não é sua.
Isto acontece dentro da Arte Contemporânea Angolana, muito por causa da ausência de crítica, de censura. E os poucos críticos de Arte que temos não fazem o seu trabalho com o devido rigor.

PRÉMIO ENSARTE

Outra boa iniciativa é o Prémio ENSARTE, da empresa seguradora ENSA, SA. Que tem um bom valor pecuniário e em qualquer parte do mundo o valor que o prémio atribui é consideravelmente bom. Mas o que é que se dá ? O júri do prémio, por formação, nunca devia ser constituído por artistas ou pessoas locais. Para haver maior imparcialidade, o júri devia ser constituído de figuras da arte contemporânea internacional, daria mais credibilidade ao prémio e à arte contemporânea angolana, já sugeri várias vezes à administração. Recordo-me que, na última conversa que tive com o Presidente do Conselho de Administração da ENSA, o Senhor Manuel Gonçalves, sugeri-lhe isto que falo e disse-lhe a título de crítica: “com um júri internacional, nesta última edição, nenhum destes artistas passaria a qualquer fase de eliminatória” e ele não discordou.

UM VÓRTICE DE ESPERANÇA

É esta a arte contemporânea angolana destes dias, levada ao reboque de todas estas coisas, mas ainda assim vemos um vórtice de alguma esperança. E onde eu vislumbro a esperança? Na produção artística não mais do que de um punhado de mão de Artistas. Que a seu jeito, e com todas as vicissitudes, continuam na longa marcha da Arte. Como se de D. Quixotes se tratassem, vão pintando muito por meios próprios e começam a rasgar solos internacionais por causa do seu próprio valor estético.
Depois disto tudo, é impossível falarmos de enquadramento de mercado, quer seja o secundário, quer seja o terciário, que são as Feiras de Arte. Porque a base destes dois depende fortemente do primário que é extremamente débil ou inexistente. No último encontro que tive na Fundação Calouste Gulbenkian em Portugal com um dos directores, António Pinto Ribeiro, figura das lides da Arte Contemporânea em Portugal, o mesmo disse-me: “Precisais de um Centro de Arte Contemporânea em Luanda”, e eu perguntei-lhe: “Com que movimento? Com que mercado artístico? Como o nosso?” Eis a questão!
Hildebrando de Melo

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