VAN Desenhos, Pau-a-Pique e outros Registos

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Van

1. O tempo e o salalé comeram a cultura induzida nos pilões, e só a árvore original (Natureza) lhes soube resistir. Quer dizer que o pilão do tempo tem a mão do homem, é relativo e inexistente porque se esboroa, enquanto a matéria prima da Terra é infinitamente trânsfuga?

Com objectos encontrados (não só um velhíssimo portão e dois pilões), onde se incluem jornais, capim, barro vermelho, paus e ferros, VAN cria uma parada do assombro.

2. Do cinza oliva e do castanho ao roxo e o sempiterno branco ou vazio psicológico indutor da retrocriatividade do espectador,

3. VAN transporta nos fios do pincel o boi cósmico, as frutas do mistério carnal, o peixe miúdo que talvez traz uma dracma na boca, as bebidas dum reencontro no quimbo de cada dia, as folhas da árvore nunca plantada. Telas vastas.

4. Com colagem de samacaca, areia, aves e homens marcham do barro para a alma, da luz rara para a noite.

5. Todo o pintor (mesmo que não exponha) tem uma colecção íntima de desenhos. Desenhados, alguns, em páginas de cadernos de trabalho, em plena comunhão de olhares, a lápis, a carvão, a esferográfica, a arte de desenhar é como a arte de urinar contra o céu...

6. Tchibinda Ilunga, o caçador, caça veados, cantigas de amanhecer e a harmonia de alguma sanzala. Os chãos são cromáticos e o sol fende a terra.

7. Só quem já dormiu no chão térreo de casa de pau-a-pique pode sentir aquela parede exposta com um olho no centro. Tanto pode receber um intruso como invadir o território pensante do que passa.

8. E tudo passa pelos três quadros mais reduzidos e mais definidos no traço vermelho e verde: a) o pássaro pensante de máscara e madeira e o anagrama tchókwe. A palma da árvore em tom creme, chocolate e verniz, o vermelho e o preto ao centro (sangue e terra), ao lado uma luz de esperança, um germinar de de dentro da sede; b) o réptil homiziado, em ascensão vacuonizante, o fundo cadáver da dor e as misérias nocturnas da coexistência; c) o cão mudo late por dentro do olho verde, na transição da paisagem para o quadrilátero onde se reescreve o presente a partir de resíduos da História.

9. Ferramentas de construir o imaginário. Retalhos de uma dispersão insólita de dias, ilusões, trabalhos vivos para amamentar a planície verde e amarela do Futuro.

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