Variante 2012 celebra Viñi-Viñi

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O general da música popular no Huambo, Viñi-Viñi (tanta coisa), baptizado António Venâncio, foi o grande homenageado, a título póstumo, pela 20ª edição do festival Variante, realizado no passado dia 3 de Novembro, no pavilhão multiusos Osvaldo Serra Van-Dúnen, na hospitaleira cidade do Huambo.

A ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva, entregou, no início do espetáculo, um cheque no valor de um milhão de kwanzas e um diploma de mérito à viúva do finado, Maria Venâncio. O cenário transmitia o calor humano da imensa mole de jovens que enchia as bancadas laterais do pavilhão.

Os corações calaram-se quando o grupo de teatro Vozes de África reconstituiu a síntese biográfica daquele cuja voz ressoava como o vento entre as copas e os troncos das imensas florestas de eucaliptos do Huambo: Viñi-Viñi. Logo a seguir, aquele calor humano entrou em ebulição, com a subida em palco da banda musical Nova Geração, que é já o cartão postal rítmico do Planalto Central, a acompanhar a mestria do cantor João Afonso, velho `companion de route' de Viñi-Viñi, que deste interpretou A Morte de um Herói . Depois foi a vez de Lili Vasconcelos cantar a célebre composição Tri-ti-ti do homenageado.

Estava dado o toque de classe de um espetáculo que receberia Bessa Teixeira, antes da entrada dos seis primeiros concorrentes acompanhados dos entusiastas jovens da Nova Geração. O público recordou músicas dos anos da guerra, com Jacinto Handanga e Jacinto Tchipa, artistas convidados, e vibrou com a célebre Mahyé-mayémayé, deste último.

A dança Kabetula esteve forte e vibrátil debaixo dos macacões e capacetes industriais do duo Mega Dance. Foi então a vez dos restantes doze concorrentes entrarem em palco agora ao som da banda Akapaná, e mostrarem o quanto valiam ao júri presidido pelo músico e compositor Eduardo Paim, Gilberto Júnior, jornalista da RNA, o historiador Venceslau Casese, a cantora Bela Chicola, Emanuel Mendes, cantor lírico e António Imperial (Baião), músico e compositor. A secretariar a mesa do júri, esteve Liliana Nzinga, do MINCULT.

O recinto encheu-se de som e vozes entoadas nas diferentes línguas angolanas, incluindo o português, pelos seguintes concorrentes: Bengo: José João (Man Zezas), 32 anos; Benguela: Joana Silva (Celita), 25 anos; Bié: Adriano Augusto, 36 anos; Cabinda: Bartolomeu Braz( Bralito Braz), 38 anos; Cunene: Moisés Popyiengue Silva (Pensador), 27 anos; Huambo: Ana Bela Essanju (Bela Essanju), 36 anos, e CecíliaChavala (Ceci), 24 anos; Huíla: Ricardo Tchombe (Jingongo Ubeca),

41 anos; Kuando-Kubango: Sauro Ndala; Kwanza-Norte: Francisco Cristóvão (Man Kito), 57 anos; KwanzaSul: Sandro Paulino (Sandro ferrão), 33 anos; Luanda: Eduardo Fernandes (Kyaku Kyadaff), 30 anos; Lunda-Norte: Bernardo Lino (Jay Bimbas), 41 anos; Lunda-Sul: Branca Celeste, 19 anos; Malanje: Etimuanga Artur (KFA), 24 anos; Moxico: Raimundo da Silva (Rai Lex); Namibe: Leopoldo Viana, 26 anos; Uíje: Teesa Domingos, 27 anos e província do Zaire: António Masanga (Adiluma), 32 anos.

Antes de anunciar o trio vencedor do concurso, irrompeu em palco o não menos carismático Puto Português que expôs, em forma de canto doloroso, a sua teoria do fim do mundo, envolto numa acústica flamejante, depois de ter interpretado outros temas do seu repertório, num estilo Semba beijado pelos eflúvios do kuduro.

O momento crítico chegou com o anúncio do vencedor, o finalista de Luanda, Eduardo Fernandes (Kyaku Kyadaff), na verdade um justo vencedor, com a canção Tudisange, entoada em língua kimbundu e que parece ter assimilado o legado melódico do Rei Elias dyá Kimuezu. O segundo classificado, Leopoldo Viana, do Namibe, encantou com a sua voz de barítono. Em terceiro ficou a senhorita Branca Celeste, 19 anos, que passeou uma graça de colibri e não esqueceu de beijar o chão onde dormem os antepassados.

Duas questões

O nome "Variante", atribuído ao Festival de Música Popular Angolana, nasceu em 2000 sob proposta do malogrado André Mingas, em resposta à pergunta do cantor Guy Carlos: "porque é que a gente não vai variar?" Palavra de Vieira Lopes, diretor nacional da Acção Cultural.

A música angolana é hoje um azulejo decorativo feito de vozes de barro temperado pelas vivências e o génio criador do povo com sinfonias locais e universais a servir de fundo.

A grande questão que se coloca, hoje, perante este quadro, é a de saber qual o entendimento que se tem de música popular? A música urbana? A suburbana? A música do meio rural, cantada exclusivamente em línguas locais? Com que critérios se pode aferir da excelência de uma música que vai à raiz das coisas buscar a alma profunda do povo e uma outra que é feita em língua portuguesa, com rítmica e instrumentalização já europeizadas?

Outra questão pertinente: o Variante passou. E depois? Todas essas belíssimas composições exibidas pelos 18 finalistas e os concorrentes dos pleitos provinciais desaparecerão, como que por magia, da face da Terra? Não se podia abrir um espaço de antena na rádio e na televisão, para o público ir melhor acariciando o rosto da música popular angolana?

1º classifica da província de Luanda, Eduardes Fernades

2º classificado Leopordo Viana da província do Namibe

3º classificado Branca Celeste Gonc alve Justino Handanga

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