"VENTO LESTE" de Mário Tendinha Para se andar de pé é preciso ter os pés no chão?

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E então, um dia, o Mário resolveu pedir-me para escrever este texto. O que poderá uma coreógrafa escrever sobre um artista plástico, renunciando aos lugares comuns que forçam paridades entre as duas linguagens artísticas, elas próprias tão cheias de variantes (ou dialetos)?

Serei eu capaz de rivalizar em criatividade, através das palavras, com uma pessoa como ele? Por que porta entrar e sair se, tantas outras ele se desobrigou de abrir e expor?

Foi neste desassossego que me sentei a engendrar um formato que talvez me facilitasse o trabalho; pensei então numa entrevista imaginada.

De facto, alguns dias depois tinha uma página de perguntas banais sem respostas completas, pois a minha infiel memória havia deixado escapar grande parte da informação, guardada aquando de uma conversa com o Mário, em sua casa.

Desanimada, mas sem me atrever a pensar em desistir (não fosse ele atiçar contra mim o Jimbuluvulu, aka!), corri os dedos pelo teclado do meu computador e entrei, sem pedir licença, num lugar da Internet que o Mário alimenta há já alguns anos.

No canto da casa do meu avô, montinhos de uma areia fina, limpa, quase pó, depositavam-se de um dia para o outro naqueles dias. Poeira do tempo, areia da vida trazida pelo vento.Vento leste.

Em pouco tempo de leitura sentia-me já parte da sua família, dos seus amigos, dos espaços da sua infância...

Tal como um espectro invisível e intemporal, percorri cores, sotaques, sons e movimentos; percebi olhares, sorrisos (gargalhadas, até) e tantos outros lugares; conheci o avô Januário (que foi à tropa, mas a cavalo!) e a avó Feliz (dos Santos), o (primo) Cebolas, o (mendigo) Bacia, o (professor) Bírgulas, as tias Céu e Lurdes, os tios Manel e Fernando, vários Mários (incluindo o projecionista do Cine Moçâmedes) e mesmo a Lilá, a sua amada aos sete ou oito anos de idade.

Tornei-me amiga dos preferidos do Mário, meti uns golos na baliza do Bode e embirrei com aqueles poucos que ele descrevia com menos entusiasmo.

E subi até Olhão, ao Sul de Portugal, onde visitei a catacumba do grande responsável por uma descendência que já conta cinco gerações nascidas e criadas em terras angolanas: o bisavô Manuel Joaquim Frota que, um dia, no ano de 1887 do séc. XIX, resolveu viajar para Angola a bordo do palhabote S. José, trazendo consigo a novíssima armação de pesca à "Valenciana".

Fixada na ideia da entrevista, faltava-me resolver a fronteira entre uma infância realmente fabulosa e a enorme capacidade criativa do Mário. As descrições eram tão fantásticas e tão reais ao mesmo tempo, que me senti no dever de compartilhar um outro lado de uma pessoa que já nos é tão familiar.

Dizer que o Mário nasceu na cidade do Namibe em 1950; que começou a pintar aos 18 anos influenciado por Paul Klee, Picasso, Miró ou Dali, pela pop music e pelo movimento hippie; enumerar as exposições que fez ou tecer considerações sobre a sua diversificada obra e opções técnicas e estéticas, são dados a que todos têm acesso com a maior das facilidades, não fosse o Mário, um artista plástico tão conhecido pela sua irreverência e realismo deliciosamente mal dissimulado nos extraordinários personagens que habitam os seus quadros.

O que me interessa neste puro Mwangolê é o seu lado de apego à terra que o viu nascer e viu nascer os seus pais e avós ­ o Sul, o deserto e o mar ­, mas também pela cidade, pelo caos, pelo insólito.

O que me entusiasma no Mário é, mesmo, a "mania" que ele tem de criticar provocando, de invadir o coração dos outros (nós), torturando-nos e inquietando-nos ou atirando-nos a violência aos olhos sem qualquer vergonha e com o maior dos prazeres e ousadia; mas o que me agradou descobrir no Mário foi a bonança que ele nos permite, apesar da tempestade, descortinar: a sua sensibilidade escondida, quase envergonhada e a ternura com que nos revela, atrás de uma porta quase de ferro, uma alma enorme e poderosa.

E o Jipe parado à porta de casa...
Era um Willys. Tinha reforço e nunca se enterrava.
Eu ainda tenho um, igual àquele.
No meu coração.

E são esses os motivos que elejo para o distinguir como Artista; alguém que nos aprisiona na dúvida entre a realidade e o imaginado.

Sobre a inspiração no tal modelo de entrevista com perguntas banais... afinal não teria sido justo que eu respondesse pelo Mário com palavras minhas, quando ele próprio, mesmo sem saber, já me tinha dado as respostas, anos antes, com episódios feitos de histórias de uma vida preenchida de "aventuras".

Aproveitei as perguntas e não inventei as respostas; encontrei-as!

Quem é o Mário Tendinha?

Sou assim o pasto e o caminho, a sede e a vitória dos bois, a amálgama dos mugidos, o coreto do silêncio para cordas e orquestra, a canção do vento assobiando pelo dorso das pedras, o calor que dilui a visão e nos transforma cada imagem num passo de dança. (2002)

E quem foi o Mário?

Olhem, sou o puto que por aí passava [no quarto do meio] para ler as histórias, milhares de histórias, tantas horas, perdido do mundo a viajar, em fantasias extraordinárias, herói e conquistador de tantas terras roubadas aos índios, era o espírito do colonizador que vocês nos vendiam, galanteador e conquistador dos corações de tantas rapariguinhas que se cruzavam na minha vida, pois era sempre assim que terminava o sonho, de braço dado com a tal... (2010)

Como foi a sua infância?

Aquele longo corredor de soalho, onde a alegria das risadas dos netos ecoava e a tantas brincadeiras se prestou, que serviu de estradas aos carrinhos, de passeio das bonecas, de correrias e coboiadas, por onde ao fim de cada manhã passava o criado com uma pazinha de estanho queimando alfazema, entrada das visitas para o chá diário, afinal não era longo (...) As risadas e as brincadeiras sim, intermináveis, renovadas a cada dia, as estradas essas eram sem fim, pistas de corrida sem limite de tempo e velocidade.

Depois do corredor, a varanda. A alma da casa [da Rua 4 de Agosto] ... (2005)

Foi uma criança feliz?

Todos os Domingos, depois do almoço, fato domingueiro e laço ao pescoço, apinocado pela Dona Tide, senhora minha mãe, lá ia eu na embalagem da descida da Rua 4 de Agosto, rumo à casa do tio Manel. (...) Ao Domingo ia receber a bênção do tio Manel, que consistia em distribuir, primeiro pelos filhos, a semanada e depois por quem lá estivesse; o suficiente para um bilhete de cinema e um sorvete, de preferência, que fosse do Lã (...) Confesso, que esta rotina tinha um valor extraordinário, pois para além de ver o filme, normalmente as matinés que eram uns grandes filmes de "cowboys", capa e espada, D'Artagnan, Roy Rodgers e companhia limitada (...), o que era mesmo mais importante era a hora do intervalo, ir à pastelaria, ao lado do cinema comprar o sorvete e esperar para ver a Lilá, a namorada que nunca foi minha. (2010)

E na escola?

E como eu de facto não pescava patavina da matéria, na hora, quando o tipo [o Bírgulas] me chamou: "Oh 40, (que era eu) venha ao quadro", só me ocorreu dizer ao Inês, que se sentava à minha frente e era o chefe de turma, para confirmar o que eu ia dizer. E disse, a fazer-me de rouco, que não podia ir ao quadro, porque estava muito rouco, porque tinha havido um jogo da Académica e eu tinha gritado a apoiar a claque e portanto não podia falar...

A turma toda ficou espantada a olhar porque não estava rouco e não tinha havido jogo da Académica (...). Mas, não serviu de nada! O Bírgulas chumbou-me na mesma... (200??)

Que visão tem do Mundo?

Circunscrever a nossa "vidinha" de banalidades, ao nosso "mundinho" feito a nossa rua, o nosso bairro, a cidadezinha que habitamos ou nos viu nascer, é certamente o artifício inconsciente, utilizado, prescrito, que nos alimenta o egocentrismo, a miopia que apenas distingue o nosso próprio umbigo.

Quando, em cada manhã, milhares de pessoas se dirigem ao seu trabalho, utilizando as mesmas vias, as mesmas filas, praguejando, mais não fazem, claro, excluindo as excepções, do que alimentar, servir de pasto, ao caos que se instalou, se vai construindo a cada passo... (2002)

Pouco optimista, não?

Mas são também estes milhares de homens e mulheres que trabalham e por todo o lado deixam a sua marca de inteligência quando nos deparamos com o produto saído das suas mãos, quando é belo, registo perene da humanidade e pelos quais sentimos orgulho.

No entanto, é a natureza, ela própria, o autor, o ator principal nesta sinfonia da vida, quem comanda o curso do rio do nosso mundo.

O mundo, só existe para nós quando acordamos todas as manhãs. Mas ele próprio vive.

Está mesmo ali ao lado, no passeio da nossa casa, nas antípodas, nos Galápagos, nos Himalaias, nos fiordes da Noruega, por aí e por todo o lado... (2002)

E os seus heróis? Há 50 anos os nossos heróis afinal já eram os Americanos.

Fico perplexo com esta espantosa descoberta. Eu, d´esquerda, antigo marxista-leninista-maoista, emepelista, sindicalista untista....e mais ista e mais aquilo....

Ai, afinal?! Efeito da senilidade que se apodera de mim??? Porra, que se lixe...

Nós éramos, o Cisco Kid, Bill the Kid, Kit Carson, Roy Rogers...e o Super Man e o Bat Man... e ainda o Tonto, o Jesse James...a banda desenhada em peso.

Montávamos os seus cavalos, corcéis únicos, os mais velozes e belos animais, galopes à brida, à carga e desbaratávamos aos tiros, ao murro...à porrada, os inimigos, os maus. Éramos nós os heróis, travestidos de "cowboys", piscando o olho às meninas, casando com elas, irmãs dos nossos amigos, putos como nós, heróis do meu quintal e da padaria do Esteves...livres. (2006)

Alguma nota a acrescentar?

Fazer exercício não faz mal desde que fique à partida definido que exercícios. Exercícios de salto de plinto, a macaca, tudo bem...mas agora exercícios de saltar do 10º andar não são lá muito convenientes. Há muita corrente de ar! (1994)

!? Não segui a linha de pensamento...

Pensar, pensar não interessa. O que importa é não existirmos. O resto é conversa. (1994)

Assim sendo, dou por encerrada esta ("conversa").

"VENTO LESTE" de Mário Tendinha

Lançado no dia 19 de Outubro de no Camões ­ Instituto da Cooperação e da Língua/Centro Cultural Português, o livro "Vento Leste", da autoria de Mário Tendinha, teve a apresentação da coreógrafa Ana Clara Guerra Marques.

A obra representa uma selecção de textos escritos ao longo dos anos, acerca das vivências do autor "por esta Angola imensa", em particular as suas experiências vividas na infância no Namibe, pequenas histórias, da juventude, da família, que no conjunto são a sua história de vida, "amarras e pontes para os seus descendentes, para que não se percam as suas raízes".

Tendo a sua família espalhada pelo mundo, quer deixar um testemunho para os seus netos, a quem dedica o livro.

É também o historial das experiências de Mário Tendinha enquanto artista plástico, as exposições, a sua obra pictórica e ainda outros textos acerca do seu trabalho, visto sob outro prisma, o da linguagem escrita.

O livro "Vento Leste" insere-se no projeto da exposição "Através das Portas", inaugurada no Centro Cultural Português no passado dia 27 de Setembro e patente ao público até ao próximo dia 19 de Outubro.

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