Viagem a Poto-Poto O regresso às origens de Kapela

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O que representam as nossas origens? Qual o papel destas na construção dos integrantes de uma sociedade? São estas as perguntas que o artista plástico Kapela Paulo.

O que representam as nossas origens? Qual o papel destas na construção dos integrantes de uma sociedade? São estas as perguntas que o artista plástico Kapela Paulo propõe para quem for visitar a sua mais recente exposição, “Regresso a Poto-Poto”.
A mostra, que está patente ao público desde Agosto e continua aberta até ao próximo dia 23, na galeria ELA (Espaço Luanda Arte), procura chamar a atenção para a importância das origens na construção da identidade cultural, principalmente nesta nova era marcada pelo digital, em que a globalização tem se tornado num factor de aculturação dos jovens.
Para Kapela, “Regresso a Poto-Poto” não é simplesmente o retorno ao local onde aprendeu a gostar das artes, é também uma viagem pelo imaginário cultural de África, que a torna um continente rico em identidade e muito assente nas suas raízes, apesar de toda a diversidade.
Numa altura em que a reafirmação da identidade é uma questão que se torna cada vez mais preocupante, em especial para os países menos desenvolvidos, que, geralmente, acabam por se tornar “vítimas” da globalização e da sua aculturação, Kapela usa a pintura para destacar a riqueza da cultura africana.
Os quadros, na sua maioria pintados com cores vivas, de forma a realçar a alegria que existe no continente, mesmo dentro da diversidade étnica, cultural e linguística, trazem à memória de quem visita a exposição conceitos culturais, que enaltecem a identidade africana. As danças, como kimbonguila, feita para “chamar” a paz, ou mesmo a importância de uma maior união dos “Mundos” África, estão entre os destaques de algumas das pinturas expostas.
Costumes como caça, agricultura, pesca e muitos outros que são parte de muitas das tribos africanas também são colocados em evidência ao longo da exposição, assim como as histórias em volta da fogueira e as mascaras nas suas diversas formas, por serem uma parte essencial da cultura africana, que precisa continuar viva, para que os jovens não esqueçam as suas origens.
Os apelos a paz, a importância da criação de uma melhor sociedade para os africanos, também estão entre as preocupações do artista, que depois de 50 anos de ausência decidiu regressar à República do Congo, em particular à sua capital, Brazzaville, e à Escola Poto-Poto, onde teve a sua iniciação nas artes. Hoje com 71 anos, Kapela foi até a escola onde fez a sua formação, nos anos 60, e recordou o que aprendeu, assim como alguns artistas da sua geração, que já faleceram. É esta viagem a um mundo, que embora seja conhecido do artista continua a apresentar novidades que Kapela explorou e propõe para apreciação do público no ELA.
Tradição e história são o centro pelo qual nasce a recriação de toda essa viagem, fruto da sua visita a Poto-Poto, e que traz toda uma perspectiva única e original, com a qual o artista já habituou o seu público, ao construir narrativas artísticas com base na sua vivência e na memória.
No final, cada visitante vai sair com a ideia de ter conhecido um pouco mais sobre a vida no Congo e da Escola Poto-Poto, em particular, e de África, no geral. Tal como uma vez disse o Dalai Lama: “Dê a quem você ama: asas para voar, raízes para voltar e motivos para ficar”. Com esta exposição Kapela prestou a sua homenagem às suas origens e à escola onde aprendeu os meios técnicos para expressar a sua arte.

O expositor
Kapela Paulo nasceu no Uíge, em Maquela do Zombo, em 1947. Actualmente vive e trabalha em Luanda. Como autodidacta começou a pintar em 1960 na Escola Poto-Poto, em Brazzaville, República do Congo.
A viver e a trabalhar em Luanda desde 1989, primeiro no edifício da União Nacional dos Artistas Plásticos (UNAP) e depois no Beiral, com passagens pelo Palanca e hoje na Vila Alice, Kapela começou a expor internacionalmente em 1995, tendo já participado em exposições como “África Remix”, que “viajou” por Londres, Paris e Tóquio. Em 2003 venceu o prémio CICIBA (Centro Internacional de Civilizações Bantu), em Brazzaville. Quatro anos depois, em 2007, participou na mostra “Check List Luanda Pop”, durante a 52ª Bienal de Veneza, na Itália.
O seu nome constou entre os convidados da 2ª Trienal de Luanda, em 2009, e participou na exposição colectiva “Luanda Smoth and Rave”, na França. Em 2013, a sua obra esteve exposta na mostra “No Fly Zone”, em Portugal.
A sua primeira exposição individual, denominada “Kapela”, foi realizada em 2015, em Luanda, na galeria Tamar Golan. No mesmo ano apresentou uma outra mostra, também individual, “Entre Suplícios”, na galeria Hall de Lima Pimentel, na capital.
Na galeria ELA, kapela começou a realizar exposições em 2016, quando participou na mostra colectiva “Velhos Papéis, Novas Histórias” e no ano seguinte quando apresentou “Luvuvamu + Nzola | Paz + Amor”.

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