Vírus de Hildebrando

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O Artista Plástico Angolano Hildebrando de Melo inaugura dia 19 de Setembro deste ano, a exposição Vírus, em Lisboa na Art Lounge, uma galeria de arte contemporânea com uma forte vertente na internacionalização de artistas.

Vírus de Hildebrando de Melo
Vírus de Hildebrando de Melo Fotografia: Paulino Damião

Inaugurada apenas em Outubro de 2005 conta já com várias exposições individuais, editando catálogos que acompanham cada uma delas. Situada no centro de Lisboa, a galeria nasceu com o intuito de colocar no mercado português artistas internacionais de primeiro plano bem como prestar inúmeros serviços ligados à arte.
O projecto Vírus nasceu aquando da participação do artista na Residência Artistica ArtFunkl, em Manchester, Inglaterra. E tem textos de apresentação da Curadora e Crítica de Arte Suzana Sousa e Dr. Emidío Pinheiro, pPresidente da Comissão Executiva do Banco Fomento Angola.

Entre a ficção e o real

Aobra de Hildebrando Melo ocupa um espaço intersticial entre a ficção e o real. O artista explora conceitos e ideias de diversas origens, da filosofia à ciência e transforma-os. Esta transformação é que coloca Hildebrando Melo num lugar de destaque na cena artística angolana pois o artista tem rejeitado na sua abordagem estética um conjunto de lugares comuns da arte angolana, não se cingindo nem temática nem cromaticamente aos temas ditos africanos. Contudo, a realidade que o rodeia alimenta a sua criatividade.
Os temas que Hildebrando tem desenvolvido na sua obra estão de alguma maneira ligados à cidade de Luanda, quer seja o candongueiro, cuja iconografia remete para uma estética da cidade ou as linhas da série Corpo e Alma que fora buscar às igrejas da cidade uma linha narrativa. Nesta série Vírus o artista remete-nos num primeiro momento para a ciência, o vírus que nos rodeia, mas a leitura pode ser também mais simbólica e aflorar à condição humana ou ainda na vertente humana numa cidade em rápido crescimento como Luanda.
A capacidade de transmutação do vírus é celebrada nesta série através de um conjunto de escolhas cromáticas que lhe retiram o olhar científico e nos expõem a contextos e/ou nos permitem questionar esses contextos. O traço do artista mantêm-se neste trabalho abstracto oferecendo ao observador possibilidades várias de interpretação. Este vírus, como elemento orgânico parece transmutarse em máquina, em homem, num ser em relação com o contexto, sendo que este está também em mutação. E talvez seja este o tema principal desta série, a mudança ou a capacidade de mudança e adaptação do homem a vários contextos.
Mais uma vez Luanda, como espaço geográfico e histórico oferece-se como pano de fundo para a sua obra. Uma cidade em mutação e em que convive a memória das transformações do país e a necessidade de adaptação de um povo à adversidade. Esta perspectiva humana de caracterizar e pensar os processos sociais e históricos de Angola tem sido recorrente no trabalho de Hildebrando e oferece ao observador uma série de questões à discussão. A proposta é uma leitura aberta e franca de um país, de uma cidade, da história e da memória.
Susana Sousa


Renovação
e mutação estética

Nas duas últimas décadas as artes plásticas angolanas têm registado um período de renovação e de mutação estética através do surgimento de uma nova geração de artistas.
Não pretendendo fazer uma ruptura com o passado, esta nova geração de artísticas, da qual faz parte Hildebrando Melo, tem-nos brindado com obras muito ricas, na medida em que, não se limita a uma mera observação e compreensão estética do quotidiano.
As suas criações artísticas são uma fusão do “olhar profundo sobre a realidade que nos rodeia”, com as suas vivências e influências culturais do mundo contemporâneo. Hildebrando Melo interpreta e explora o misticismo e a alma de África como poucos, transpondo para a tela em simultâneo e com enorme elegância a agressividade e o equilíbrio, o que torna a sua produção numa simbologia impar e de carácter universal.
Hildebrando Melo é um artista irreverente, persistente, imaginativo e muito criativo na sua produção artística.
A sua arte é em si mesmo um processo de construção do seu “ego” e do seu olhar crítico sobre tudo o que o rodeia.
A colecção “Vírus” é disso prova.
O artista procura retratar as interrogações humanas sobre a existência da vida. É o contributo próprio de quem não se conforma com os lugares comuns, que rasga o seu próprio caminho no mundo.
Emídio Pinheiro

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