XI edição do Luanda Cartoon

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Nos espaços do Instituto Camões de Luanda e do Belas Shoping, a XI edição do festival de banda desenhada “Luanda Cartoon 2014” aconteceu de 22 a 30 de Agosto e contou com a participação dos trabalhos de autores de Angola, Moçambique, Portugal, Brasil, Camarões, Tanzânia e da República Democrática do Congo.

XI edição do Luanda Cartoon
XI edição do Luanda Cartoon

Especialmente, esta edição sai positivamente marcada devido aos nomes de vistosos talentos angolanos que despontaram nestes 11 anos de existência do festival:
Júlio Pinto, de grande criatividade na composição das linhas; o Altino Chindele, de uma simplicidade legível;
Horácio Gilberto, bom no desenho a lápis e de poder narrativo; Nelo Tumbula, um detalhista dos planos; Zix Comics, de imaginação invulgar e criação minimalista.

Prémio internacional da BD angolana

Este ano o estúdio Olindomar, organizador do certame, teve a “bravura” de apresentar ao público o prémio internacional que a BD angolana ganhou em Novembro do ano passado, na cidade de Amadora, Portugal. Foi considerada a melhor publicação em Língua Portuguesa. O Instituto Camões e seus parceiros foram os porta-malas do prémio, na pessoa do embaixador de Portugal em Angola, que fez a entrega do prémio na sexta-feira, 22, dia da abertura da XI edição do Luanda Cartoon, no auditório Pepetela.
Lindomar de Sousa, o director do festival, acentuou que a BD angolana “nunca recebeu um prémio internacional”.
O prémio foi ganho com a 3ª edição da publicação BDLP: Banda Desenhada em Língua Portuguesa, um projecto realizado pelo estúdio Olindomar que conta com a participação de autores CPLP. Teve grande destaque por ser um projecto inovador e de unidade, por um lado. Também porque muitos pensavam que fosse o Brasil ou Portugal a fazer o projecto e não Angola, que é visivelmente o país com o circuito com muito ainda por percorrer.
Destacadamente, assevera que a qualidade de autores deste projecto assustou um pouco o júri e a organização, que decidiram que os angolanos serão os convidados especiais da edição deste ano, que decorrerá de 25 de Outubro a 9 de Novembro, com direito a uma mega exposição dos trabalhos de autores angolanos.

O panorama da BD: circuito e criação

E disso quisémos saber do próprio como estamos no que toca à natureza do seu circuito no país, que classificou ser ainda uma questão algo polémica.
“É difícil traçar um panorama geral.
Tal como acontece na música, na BD, o problema que se impõe é igual: visibilidade e divulgação. Se alguém perguntar a um Anselmo Ralph, ele poderá dizer que está bom e que é possível viver da música.
Mas se perguntar a outro bom cantor que não tenha essa visibilidade, a resposta será totalmente diferente”, explica. No entanto, garante que têm feito um trabalho a nível nacional e internacional por via do festival, a começar, por exemplo, com as edições, visto que neste festival foram lançados nove livros inéditos.
Essa cifra, completa, resulta de muita qualidade dos autores, mas o número de publicação é que ainda é muito reduzido, o que leva a concluir que ainda precisamos de mais obras e de muitas melhorias: têm muitas dificuldades em publicar, o preço do livro ainda é muito caro, as gráficas praticam preços exorbitantes, as distribuidoras não se impõem, o que faz com que sejam nulas as possibilidades de haver uma mínima comparação com o que é feito lá fora.
Nestes 11 anos, o panorama mostra que as coisas tendem a melhorar. Já passaram por pior. Só para termos uma ideia, da primeira à quinta edição fizeram o festival com o dinheiro dos próprios artistas, uma empreitada difícil na angariação. Foi a qualidade dos artistas e responsabilidade da organização que fizeram com que conquistassem os bons parceiros de agora.
“Não estamos mal, mas ainda está longe do que queremos.
Temos dificuldades em impor o traço da BD nacional cá mesmo, só para não falar das dificuldades ao tentarmos no estrangeiro. Não é só receber livros dos outros, nós também queremos que eles recebam os nossos livros.
Que conheçam a nossa história e nossos heróis contemporâneos. Já temos sido convidados a festivais, mas os apoios é que não acontecem. E pedimos coisas como bilhete e alojamento apenas, a ver se conseguimos representar o país”, traça Lindomar, que garante que a nível da técnica e talento os artistas já são confiáveis, mas não vão ao público angolano porque não há livros e editoras a bom preço: o circuito ainda prejudica a criação artística.
Consequentemente, os artistas acabam por fazer franzini, produto com menos tiragens que se esgota ainda durante o festival. Desejam fazer melhor, já que acalentam o plano de ajudar a fazer toda Angola ler: “se amanhã queremos ter mais um bom Pepetela, Luandino ou Boaventura Cardoso, é preciso que as pessoas arranjem formas de fazer as crianças lerem, porque elas não estão a ler. Gostaríamos de ter apoios institucionais.

O orador Nuno Saraiva

Fisicamente, é a primeira vez que o artista português Nuno Saraiva participa no festival. O criador português é o orador principal da parte formativa
do festival. Se é ou não a sua primeira vez, a resposta “armadilhada” deverá ser sim e não. Nuno explica que já há dez anos que foi convidado a participar no certame, mas, no momento marcado, nasce a sua primeira filha.
Por duas ocasiões ficou representado pelos seus trabalhos. É a primeira vez que vem a Luanda. Do prémio que ajudou a trazer, diz: “A primeira vez é sempre inesquecível, é um pouco como o primeiro beijo, marca-nos a vida toda. Nesta vida jovem do festival e do estúdio Olindomar, é de ficar radiantemente feliz”.
Reconheceu que o prémio é entregue depois de uma observação cautelosa da parte do júri, e é atribuído pelo Festival Internacional de BD da Amadora. É um festival equivalente ao Luanda Cartoon.
O estúdio Olindomar recebeu o prémio de melhor franzini, que é uma publicação de vários autores.
Professor de Banda Desenhada, é bastante comedido nas suas opiniões.
Mas viu-se surpreendido com os trabalhos que encontrou. Nem ao muito bom diz “admirável” nem ao muito mau diz “abaixo do lixo”. Viu estilos distintos, desde as linhas infanto-juvenis
da Mónica, o erótico, a crítica social e os desenhos fotográficos. Reconheceu que dentro dos vários estilos há autores aqui que poderiam ser perfeitamente
internacionais.

Barly Baruti, um grande mestre africano

Faz quase tudo só com tinta-da-china e aguarela. No fundo, os seus desenhos mostram um realismo destacado, nítido. “Ele é mesmo um mestre de África”, acentua Lindomar.
É neste momento o mestre da banda desenhada congolesa. Acompanha o festival por via das redes sociais. Comparando-o a outros artistas da música, é como um Manu Dibangu, Lokua Kanza, Ismael Lo, Salif Keita, é um artista de respeito obrigatório em África.
Por encontrar dificuldades em conseguir o visto, a chegada do mestre tinha ficado adiada para sexta-feira, dia em que haveria de proferir aos jovens artistas uma palestra sobre o estado da BD africana no mundo e as suas técnicas.
Ficamos a saber que a dificuldade de deslocação e facilidade na emissão de vistos são dos problemas que têm custado muito à organização do festival, que reponta: “Quando nós pedimos apoio, as instituições ligam sempre este pedido ao dinheiro. Mas muitas das vezes não é isso, só pedimos facilidade na deslocação dos artistas para se fazerem presente nos certames. Ele teve dificuldades em conseguir o visto. Essa é uma das nossas grandes dificuldades, e penso que a cooperação das embaixadas seria um grande passo para a resolução do problema, e talvez, também, abrir caminho para uma melhor circulação da arte africano no próprio continente.
Seria uma grande honra termo-lo cá porque vai transmitir experiência.
Trazendo esses grandes embaixadores da África que levam a cultura africana para a Europa, a própria cultura ficaria dinamizada com os nomes que hoje a suportam”.
Do pouco conhecimento destas figuras junto do público angolano, lamentou que pessoas há que passam aqui em Angola e acabam por passar despercebidas, como pode ser o caso deste grande artista.

Baruti Kandolo Lilela, mais conhecido pelo pseudónimo de Barly Baruti, nasceu no dia 09 de Dezembro de 1959, em Kisangani, Congo Democrático.
Escritor e artista, foi descrito pela British Broadcasting Corporation como "o autor congolês mais conhecido fora do seu país".
Em 1982, ele escreveu e desenhou a sua primeira história em quadrinhos:
Le Temps d'agir (Hora de Agir), que aborda questões ambientais. Em 1984, depois de ter ganho um concurso de quadrinhos, ele foi convidado a estudar história em quadrinhos escrita em Angoulême , a localidade francesa que se tornou mundialmente conhecida por acolher o mais importante evento europeu de banda desenhada . Três anos depois, em 1987, trabalhou por alguns meses no Studios Hergé, em Bruxelas.
Retornou ao Congo e publicou vários álbuns. Mudou-se para a Bélgica em 1992. Em 1994, o Centro Cultural em Kisangani publicou seu álbum Objectif Terre! (Objetivo: Terra), um manifesto ambiental. No final de 1990, com Frank Giroud, produziu Eva K, uma trilogia de álbuns de quadrinhos. Depois publica Mandril, uma série de quatro álbuns.
Para estas obras, Baruti "substituiu seu semi-humorístico claro estilo de linha com um mais realista ".
Em dezembro de 2010, ele foi convidado para participar da primeira exposição internacional de quadrinhos africanos, em Paris.
Baruti é o co-fundador do Atelier de Création et de l'Iniciação à l'Art (Oficina Criativa de uma Iniciação à Arte), para incentivar os jovens talentosos de Kinshasa.
Nuno Saraiva, ilustrador e autor de banda desenhada, nasceu em 1969.
Criador de uma vasta e premiada obra de ilustração, é professor de Banda Desenhada e de Cartoon Político na escola de artes Ar.Co, em Lisboa, onde vive.
Publica BD desde 1993 na imprensa portuguesa, foi co-autor, com Júlio Pinto, da Filosofia de Ponta, publicada no Independente. Mais recentemente, tem publicado no gratuito ROSA MARIA, jornal do bairro da Mouraria, em Lisboa, a série A Vida em Rosa. Com João Miguel Tavares editou o livro infantil A Crise contada às crianças.

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