XIIª edição do ENSARTE Fineza Teta convence júri

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“Inquietações Culturais”, de Fineza Teta (FISTY)*, é a obra vencedora da XIIª edição do ENSARTE*.

XIIª edição do ENSARTE  Fineza Teta convence júri
Fineza Teta recebe de Rosa Cruz e Silva o trofeu de Primeiro Grande Prémio Pintura Fotografia: Paulino Damião

 Nessa pintura, a força do olhar, a aura que emana do rosto formam um aglomerado de linguagens que nos levam a sonhar imagens de oníricas leituras. Talvez seja isso que o comissário das obras em concurso, Jorge Gumbe, no seu texto de apresentação, sintetiza as tendências estéticas cultivadas nas trinta obras desta edição do ENSARTE. Gumbe salienta, num dos seus pontos que, em relação à dimensão estética, as obras quase todas construídas de diferentes materiais e alguns reutilizados, distinguem-se por uma poética directa, que se associa a noções de tradução, fantasia, simulacros, utopia, a formar novas rotas de envolvimento num sistema integral de intercâmbio e de visões. Mas, afinal, que leituras estéticas suscita? Henrique Guerra, presidente do júri, manifestou que, em princípio, não se definiu um sistema rígido de valores estéticos, mas privilegiou a expressividade: a capacidade de exprimir com força um sentimento interior e não cair na repetição.
Quanto às correntes de opinião da arte angolana em voga que as obras suscitaram, revelou que houve uma certa discussão nesta atribuição porque um certo grupo do júri valorizava a utilização de símbolos e de matrizes da cultura tradicional africana, e outros não priorizavam tanto este aspecto. Especificamente sobre a mundividência da mesma, refere: “Embora a obra siga mais os cânones da tendência artística europeia em detrimento de uma satisfação estética africana, ela fugiu àquela tentação de certos pintores que se refugiam nos valores tradicionais e acabam por criar uma obra sem características próprias. Essa obra premiada vale pela força interior espelhada, pela sua grande carga de persuasão, isto independentemente de ser mais próxima de um tipo de arte do que de outro. De facto, ela tem carácter muito universal que se expressa de maneiras diferentes”.
Questionado sobre a inclinação estética, avançou que, de certo modo, a mesma tem grandes tendências para o impressionismo, por um lado. Por outro, sustenta: “Mas, se olharmos a fundo, poderemos concluir com segurança que se trata de um objecto artístico cultivado nas demarcações da densidade do surrealismo”.
Quanto à não atribuição do Grande Prémio de Escultura, salientou que o júri acreditou que as obras não superaram as exigências atingidas em edições passadas, e partiu do princípio de que em cada ano as obras devessem estar mais cuidadas e com apuro estético consolidado, apresentando factos diferentes em relação àquilo que se produziu anteriormente, o que não aconteceu nesta edição.
É a primeira vez que uma artista ganha o ENSARTE. A propósito, Francisco Van-dúnem “Van”, membro do júri, replicou que não pesou o género, muito menos que o júri quisesse um feito novo por questões além da avaliação artística. “Foi uma justa vencedora e satisfez a devida classificação: tema, aspectos cromáticos, estrutura do trabalho, composição”, sustentou.
Já em escultura, contrapõe que houve essa falha. “Houve aspectos técnicos em falta, que nós avaliamos e vimos que colidiam com o regulamento do concurso: textura, técnica, cor e formato”, acusa.
O júri, num dos pontos da sua acta, lida por Suzana Sousa, que transcrevemos, explica: “Este ano, as obras a concurso suscitaram grande discussão, pois a escolha era reduzida. Tendo em conta a pouca qualidade das obras, o júri decidiu a não atribuição do 1º Grande Prémio em Escultura e o reconhecimento com menções honrosas aos artistas que inovaram no meio e técnicas usados.”

No acto
O acto público da apresentação e premiação da XII edição do ENSARTE decorreu no auditório Pepetela, do Centro Cultural Português-Camões, no cair da noite de 24 de Julho. No total, a edição tinha a concurso um leque de 42 obras de pintura e 8 de escultura criteriosamente seleccionadas pelo corpo de jurado, que à cabeça tinha o artista Henrique Guerra e se fazia acompanhar de Suzana Sousa, Francisco Van-dúnem “Van”, M´panda Victor, Alain Sarragosse e Augusto Tito Mateus. Além dos artistas e seus familiares, marcaram presença a ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva, o Presidente do Conselho de Administração da Ensa Seguros de Angola, Manuel Gonçalves, e distintos funcionários da referida mecenas.  
Segundo pudemos ouvir da ministra da Cultura, há que louvar esse incentivo às artes, até porque agora estamos melhor protegidos com a Lei do Mecenato, cuja implementação já iniciou, ficando para durante o FENACULT a realização de várias abordagens por discutir.
Da breve análise que fez sobre o percurso dos artistas angolanos, a titular classificou que o caminho das artes em Angola é um caminho de vitória porque os artistas são pessoas persistentes, passam muitas dificuldades ainda.
Outrossim, a ministra reconheceu que há obras que não foram seleccionadas porque faltam escolas, pelo que adiantou que reserva para futuros desafios a criação de condições que assegurem que o acto criador imanente nas almas dos artistas angolanos possa brotar e dar resultados como aquele que foi vivenciado na Bienal de Veneza: “Angola apareceu e espantou o mundo com uma nova imagem, e essa nova imagem foi feita por artistas”, reconheceu.    
Manuel Gonçalves direccionou a sua abordagem para a necessidade de cooperação cultural, levantando que não podemos deixar passar em branco grandes oportunidades de fazer vincar a nossa diplomacia cultural. Por isso, o PCA da Ensa realça que a arte já conquistou o leão de Ouro, um facto consolidado em Roma e cuja exposição está a caminho de Lisboa, com perspectivas de ir para França, Alemanha, China e Japão, um trabalho que a Ensa não pode fazer sozinha, pelo que deixa em aberto o desejo de cooperação para que possam responder com justiça a todo o esforço investido pelos valorosos artistas nacionais.
Mas porque é que uma seguradora tem essa paixão?, questionou Manuel Gonçalves, que em seguida elucida o profundo motivo desta lida nas artes: “Porque é efectivamente uma paixão pelas artes plásticas. É um simbolismo que é mais do que evidente e que procura acentuar a nossa responsabilidade na dimensão colectiva, especificamente na génese cultural, uma aposta de ajudar a criar cultura”.  

Prémios  
Pintura: 1º Grande Prémio para Fineza Teta com a obra “Inquietações Culturais”, acrílico sobre tela, que lhe valeu um cheque no valor de um milhão e quinhentos mil kwanzas;  2º Grande Prémio para Maiomona Vua, com a obra “Atenção à educação cultural”, técnica mista, que lhe valeu um cheque no valor de um milhão de kwanzas; Prémio Juventude para Meso Mumpasi com a obra “Conversa”, óleo sobre tela, que lhe valeu um cheque no valor de quinhentos mil kwanzas; Prémio Especial Província para André Malenga, com a obra “África Magazine (África Today), acrílico sobre tela, que recebeu um cheque no valor de trezentos e cinquenta mil kwanzas; Prémio Alliance Française para Cristiano Mangovo Brás com a obra “Promessa Vindoura”, que ganhou uma residência artística em França; menções honrosas a Ângelo de Carvalho, Hildebrando de Melo e Miguel Gonçalves.
Pintura: 2º Grande Prémio a Sozinho Lopes pela obra “Assim fazemos cultura”, que lhe valeu um cheque no valor de um milhão de kwanzas; Prémio Juventude a Amândio Vemba Henriques pela obra “Transformação QI”, recebendo um cheque no valor de quinhentos mil kwanzas; Prémio Especial Província a Estevão Kione K. André, que recebeu um cheque no valor de trezentos e cinquenta mil kwanzas; menções honrosas a Cristiano Mangovo Brás e Pacheco Dito.

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