ZAN ENTRE ESPAÇOS: Da viola solo ao mistério das cores

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A memória de Quino que me desculpe a apropriação, mas Zan tem algo da sua mais conhecida personagem de BD, Mafalda, «a contestatária ». O olhar crítico implacável de José «Zan» Andrade mesclado com um sentido de humor muito particular acompanha-o como uma segunda pele, para onde se desloca. Em Angola, onde nasceu, ou em Portugal, onde se fixou em 1992. Todo o tópico de conversa suscita, invariavelmente, um comentário corrosivo. Alguns, indesejáveis para os mais sensíveis, ficam fora deste registo. Zan é um dos pintores angolanos mais representativos da sua geração. Aos 68 anos preparase para regressar ao contacto com o público angolano das artes, numa exposição em Luanda, ao cabo de 17 anos de ausência.

ZAN ENTRE ESPAÇOS:Da viola solo ao mistério das cores
Obra de ZAN

Avesso a seguidismos, concessões ao regimeda economia do mercado ou a abdicar de princípios que formam a sua identidade, Zan está de algum modo no lugar do outsider do sistema, isto é por outras palavras a expressão máxima do individualismo. Não tem um agente ou galerista que o represente.
O vínculo a um representante tem duas leituras: por um lado, o agenciamento do artista por parte de uma galeria traz a vantagem de o libertar das questões burocráticas e económicas relacionadas com vendas e exposições; por outro lado, há exagero nas percentagens (que atingem os 60%) cobradas pelo desempenho.
Que esperar do regresso de Zan ao seu país natal ao fim de 17 anos de ausência?
Desde logo, o reencontro saboroso que tem todo encontro com a terra, as paisagens, os cheiros e os amigos que ficaram para trás. E a vontade do
artista de mostrar o que fez durante aquele período de tempo, numa mostra em que se empenhará na selecção de telas, na respectiva identificação e no modo de exposição. Numa terra onde o ambiente das artes “está a ficar giro”, constituitambém a oportunidade de o público conhecedor apreciar a produção do pintor nos últimos anos.
Será uma espécie de retrospectiva, uns quadros mais antigos, outros mais recentes, sem preocupação de mostrar apenas o que é novo.

REENCONTRO


Outro propósito, matar saudades, certamente, e retomar um convívio amigável num ambiente em que não pode faltar a bebida, desde a vernissage
à finissage. Porque, afiança Zan, há quem apareça apenas para o bate-papo animado no bar e pouco ligue ao pretexto do encontro.Ao fundo há temas de uma selecção musical da criteriosa discoteca privada do artista. Jazz europeu, talvez, a onda que agora o move.
As memórias têm peso e substância.
Zan recorda o tempo em que não havia telas à venda em Luanda. Na impossibilidade de ir a Portugal adquirilas, a alternativa eram os próprios
pintores a construí-las, preparandoas com uma mistura de cola branca e água sobre o pano cru, lixando-as depois de secas, engradando no chassis
no final. Este, como outros procedimentos, fez parte de todo um percurso de aprendizagem do autodidacta. Recusou a academia, mas evidencia um
traço claramente instruído. Para tal concorreu um ensino liceal exigente e rigoroso, pleno de ensinamentos que hoje se revelam fundamentais, mas
também as lições dos pares, em questões tão aparentemente comezinhas como preparar tintas e pincéis. Na pintura, o trilho foi traçado à custa de
descobertas pessoais. Claro que a escola teria obviado a aprendizagem, porque se perde menos tempo a descobrir os caminhos das técnicas da
pintura sob orientação académica, mas Zan foi arrebatado por outrasseduções:
a música, por exemplo.
Hoje apontado na blogosfera como um dos principais responsáveis pela divulgação de Jazz na Rádio de Angola, Zan integrou uma banda popde reportório eclético – Os Electrónicos – em princípios dos anos 1960, em que era viola solo, formada ainda por viola baixo, viola ritmo, vocalista e baterista.
Tocavam de tudo um pouco, em cabarés, bailes, casamentos e festas de finalistas: rock, tango, bolero, sobretudo covers. Ganhava-se bom dinheiro a tocar.
Foi uma tentação! Veio a obrigatoriedade da tropa em 1966 e a vocação de instrumentista ficou para trás. Hoje, lamenta não ter seguido carreira na música. A procura de bons sons, no entanto, tem sido uma constante: na Base das Lages nos Açores, durante o serviço militar onde surgia a invejável oportunidade de adquirir os vinis de músicos de Jazz que escasseavam em Lisboa, ou em Moeda, em Moçambique, aonde chegava pontualmentea assinatura da francesa «Jazz Magazine», ainda hoje uma leitura recorrente que o actualiza sobre o universo jazístico.

HISTÓRIAS DE VIDA

Seguiu carreira na aeronáutica – Força Aérea, TAP e TAGG–, até que em 1983tomou o rumo de se dedicar em exclusivo à pintura, deixando para
trás uma existência algo sobressaltada.
A biografia (creio que escrita pelo próprio) indica que em 1978 “é afastado do aeroporto de Luanda por pretensas divergências profissionais”,
que no ano seguinte “é enviado compulsivamente para Havana/Cuba” e que até 1981 “não tem ocupação determinada; não é autorizado a deslocar-
se/chefiar a escala de Roma por alegada tendência anti-regime e consumo de canábis”.Uma interferência na esfera privada que ainda hoje considera
intolerável.
Ter fixado residência em Portugal em 1992 aconteceu por acaso. Veio com a família para o 70.º aniversário da mãe. Entretanto, rebentou de novo
a guerra em Angola. Foi ficando. Gosta disto e não sente saudades de nada!Afastamento não significa menos atenção ao curso dos acontecimentos
no país de origem. O ideal seria passar metade do ano cá e a outra metade, lá, onde como angolano teria apoios e oportunidades que aceitaria
de bom grado, desde que não levassem a atraiçoar as suas convicções ou o obrigassem a ter de cuidar da parte de negócio do ofício. Não quer saber
dos pormenores das vendas, isso é incumbência do marchand.
Enquanto Portugal entristece, em Angola, a vida acontece. O estado das artes está a animar. Infelizmente, há uns putos que ainda não se libertaram
da comodidade de pintar sob influência do Basquiat, uma pintura quase automáticaque apesar de exigir conhecimento técnico, dispensa imaginação.
Não tem nada a ver com Zan que consolidou um estilo próprio, um assinatura identificável. Acrílicos fundamentalmente, e algumas assemblages tudo tem um fio condutor que se descobre na cor ou nos temas africanos.
As raízes estão presentes, mas nada de palmeiras ondulantes ao vento nem pretinhas com cargas à cabeça, porque um olhar cultivado distingue artesanato indígena de um traço consistente, magnetizante, expressivo, que respira África. Não tem intenção de explicar os quadros–nisso como noutras circunstâncias é categórico.
Já lhe deram muito trabalho a pintar, prefere entregá-los à liberdade de apreciação de terceiros. Quantos mais leituras tiver, mais enriquecida se torna a pintura – é a convicção. Pinta depressa, chega a concluir duas ou três telas num mês, nascidas num breve esboço num bloco que logo que amadurecidas na ideia “saltam” para a tela.
Uma certeza: para pintar é preciso ter reflectido sobre a vida e os homens, cultura geral, um norte. Há quem ganhe muito mais dinheiro que Zan, o que ele bem sabe graças às quotações divulgadas pela “Art Actuel”, mas este “pintor de cavalete”não se põe em bicos de pés e aceita, até com bonomia a falta de ambição no investimento pela notoriedade. Em Portugal, se o convidarem para expôr, aceita de bom grado, “mas não ando à procura dessa visibilidade”.
Há, no entanto, um desejo por cumprir: aexposição de quadros eróticos –um estilo de que já tem um bom número de telas em carteira. Fica por enquanto adiada, mas corresponde a uma vontade do artista, acalentado desde há alguns anos. Sem preconceitos!
Tomara que mantenha a firmeza nas mãos para continuar a pintar, apesar de não ter tido uma vida regradae que sempre que alguém pouse o olhar sobre uma tela possa afirmar sem hesitações: isto é do Zan!. É a maior das recompensas que lhe podem oferecer, mas esse estatuto não é para meninos.
Cláudia Baptista

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