Zwá, pura música Mangop na III Trienal de Luanda

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A segunda edição do Festival Zwá - Pura Música Mangop abriu a 24 de Agosto, no Palácio
de Ferro, com 40 apresentações de músicos nacionais, tendo homenageado os artistas André
Mingas, Wyza Kendy, Zé Keno e Mário Silva, pelo contributo prestado à Música Popular
Angolana, numa festa da música que durou cinco dias.

Artista no palco Fotografia: Jornal Cultura

Diversidade e tradição. Duas palavras que podem definir o que foi esta edição do Festival Zwá, um dos vários projectos da III Trienal de Luanda. A estas duas palavras podemos acrescentar inovação e oportunidade, justificadas por cada um dos jovens e promissores artistas convidados, que em 5 dias ajudaram a mostrar o melhor da música angolana.

Num total de 40 bandas, o Festival Zwá | Pura Música Mangop apostou na diversidade de sons e ritmos, para chamar a atenção para a importância da inovação, assim como da recuperação das raízes da música angolana. Entre rostos conhecidos, das edições anteriores, a novos, convidados pela primeira vez, o projecto procurou apostar na diferença. O convite não se resumiu apenas à bandas, mas incluiu também cantores, como Filipe Mukenga, Maya Cool, Amosi Just a Label, ou San Salvador, que deram “vida” ao primeiro dia do festival, aberto ao público a 24 deste, no Palácio de Ferro, em Luanda.
Durante uma hora e durante 5 dias, cada um dos convidados, ajudou a fazer do Palácio de Ferro o centro da música angolana. Conjuntos como o Kamba dya Muenho e a Banda Maravilha também mostraram o seu melhor, mesmo no primeiro dia do festival, levando à apreciação do público o melhor das suas criações.
Com abertura marcada para as 16h00 e o encerramento previsto para a meia-noite, o primeiro dia não teve nas primeiras horas o público tão esperado pela organização. Talvez fosse a expectativa de muitos por não saberem o que poderiam esperar. Mas, já no final do dia, o som contagiante começou a “puxar” muitos, curiosos e aficionados, para verem quem estava no Palácio de Ferro. Até as últimas horas do dia 24, a afluência já era positiva. Os dias seguintes foram bem diferentes. O interesse do público era uma realidade e assim permaneceu até o último dia, ontem.
A selecção dos artistas, com nomes da primeira edição do projecto, foi feita a pensar no público de várias idades e os resultados não se fizeram esperar. Kotas e jovens marcaram presença nos 4 dias do festival e mostraram a importância de existirem projectos como o Zwá, a criar uma ponte entre várias gerações.
Desde o primeiro até ao último dia, este elo entre gerações ficou bem visível com artistas mais novos a recordarem a geração dos kotas. A performance destes teve recepção positiva do público, o que demonstra que a passagem de testemunho tem estado a ser assegurada e o futuro da música angolana continuará a estar, constantemente, ligada à preservação e divulgação do seu passado.
Quem esperou ver uma “repetição” da edição anterior ficou bastante surpreendido com o que viu ao longo desta edição do festival, que já tem novos projectos, um dos quais inclui a realização de uma edição especial na província do Uíge, para homenagear o malogrado músico Wyza.
A diferença foi notória também na estrutura do festival. Para esta edição, a equipa organizativa, liderada por Fernando Alvim, coadjuvado por Marita Silva, decidiu criar quatro palcos, Kwanza, Axiluanda, Bengo e Ngola, montados de forma a permitir ao público deslocar-se rapidamente de um para o outro e ver os artistas a actuarem. Todos eles foram feitos a pensar também na questão da interactividade entre os artistas e o público.

OS ESPECTÁCULOS
A abertura desta edição do projecto Zwá esteve a cargo de nomes consagrados da música nacional, como o agrupamento Kamba dya Muenhu, que a partir do palco Kwanza, deu as boas vindas, à plateia. Embora não tenha começado na hora certa, devido em parte ao número reduzido de pessoas na plateia, o espectáculo justificou a espera de quem chegou cedo.
Depois foi a vez do Duo Canhoto (também no palco Kwanza) provar que já conseguiu conquistar um espaço entre os apreciadores da música angolana. Uma hora depois subiram ao palco Jam Session, San Salvador e Amossi Nkanga. O primeiro e o último actuaram no palco Axiluanda, enquanto o segundo actuou no palco Bengo.
A abertura do palco Ngola ficou sob a responsabilidade de Filipe Mukenga queprendeu o público, a partir das 21h00. A Banda Movimento e Maya Cool garantiram o encerramento com o melhor das suas composições. Um dos destaques do final do dia foi o tema “País Novo”, interpretado por Maya Cool.
O dia seguinte ficou reservado para novos nomes da música nacional. Com o horário já a ser respeitado, o festival abriu com o grupo Semba Muxima. O Duo Canhoto foi convidado a fazer a sua segunda apresentação. O espectáculo seguiu até às 18h00. Depois foi a vez do conjunto Os Kiezos assegurar o espectáculo.
Uma hora depois, o grupo Kituxi, com o pianista João Oliveira e o baixista Kappa D, materializaram um projecto especial de valorização dos ritmos ancestrais com sonoridades de jazz, criado pela organização, de forma a apresentar propostas inovadoras entre o tradicional e o moderno. O casamento foi excelente e mostrou que é possível reaproveitar e dar um novo rosto aos temas antigos.
Eram já 21h00, quando o músico Derito subiu ao palco e deu continuidade ao espectáculo, com temas que marcaram os seus mais de 30 anos de carreira. O jovem cantor Adão Minjy e Lito Graça, com a sua “Roda do Semba”, encerraram o segundo dia do festival.
O terceiro dia foi aberto pelo grupo Yetu, que explorou vários ritmos nacionais, com maior enfoque para os provenientes das Lundas. Porém, o dia ficou marcado pela voz de Katiliana & Quarteto.

O seu ritmo “jazzístico” e da “world music” trouxe algo diferente aos habituais sons da III Trienal de Luanda. O elenco do dia incluiu ainda nomes como o grupo MM Yetu, Jay Lourenço, Os Jovens do Prenda, Ângelo Boss, Totó St, as Estrelas do Inter-Palanca e Jorge Rosa. Nesta sequência e em uma hora, cada um deles mostrou a razão de terem conquistado um nome no mercado artístico nacional. O público assim o provou, pela receptividade positiva que cada um obteve no final das suas actuações.
Neste dia, o público teve algo completamente diferente do comum, em termos de ritmos. O soul e o r&b marcaram presença sob a responsabilidade de Jay Lourenço. O cantor, assim como Katiliana, têm mostrado, ao longo da Trienal, a beleza de novas sonoridades e a sua aceitação, em especial, entre os jovens.
No mesmo dia, os veteranos Jovens do Prenda justificaram o convite feito a eles e aproveitaram a ocasião para fazer uma homenagem a um dos seus maiores artistas e membro fundador, Zé Keno, que morreu este mês. Outro nome que se tem revelado um sucesso na Trienal é Ângelo Boss que, depois de anos de ausência entre os seus fãs, regressou com os seus êxitos. Totó St também está entre os artistas de destaque do terceiro dia, em parte, e de acordo com dados da organização, por ser um dos artistas com a melhor média de assistência da Trienal.
As Estrelas do Inter-Palanca, com Teddy Nsingui, Mogue e Timex, deram o impulso necessário, sob a liderança do músico Matadidi Mário, para Jorge Rosa fechar a noite com os temas do seu disco, “Axiluanda”.
Domingo, o penúltimo dia do festival, teve como destaque os artistas que deixaram marcas no meio musical nacional. O espectáculo foi aberto pelo agrupamento Nguami Maka, no palco Kwanza. Depois, para surpresa de muitos, subiu ao palco o ressurgido grupo Facho, que em anos idos ajudou a notabilizar o cantor Bell do Samba. Para este reaparecimento o grupo surgiu com alguns dos seus antigos membros, dentre os quais Lito Graça, Zé Manico, Luís Lau, Lanterna, Beto Perdeneira, Jacaré, Babelo, Rioltino Fançony, Chico Santos e Segura Show. O conjunto pertenceu às extintas Fapla.
Outro dos nomes de destaque do festival, no domingo, foi Lípsia, que fez a sua segunda actuação individual, na Trienal. Euclides da Lomba, outra das referências do projecto, voltou a estar em grande, ao dar o seu melhor para o público, a partir das 21h00. Legalize foi o penúltimo cantor a subir ao palco, antes do Projecto Memórias encerrar o dia, com Toni do Fumo Jr a interpretar temas do seu falecido pai e de outros grandes nomes da música popular nacional.
Ontem, último dia do festival, várias foram as atracções. Kituxi foi o primeiro a subir ao palco. Uma hora depois foi a vez da Banda Inoji, do Namibe, justificar o seu convite para esta edição. Como muitas das surpresas do festival, os irmãos Etiene e Edson Costa, associados a Gato Bedseyele e N’sheriff, dos Afra Sound Stars, não decepcionaram.
Katiliana fez a sua segunda edição no projecto, mas desta vez apenas com o pianista João Oliveira, para mostrar o resultado da residência artística dos dois. Das 19h00 até às 21h00, o festival ficou sob a responsabilidade das bandas Welwitschia e Next, com temas nacionais e fusões de pop a serem os géneros predominantes.
Como um dos rostos habituais, Mito Gaspar também marcou a sua presença nesta edição do Zwá, para propor uma viagem ao melhor da sua criação. O encerramento do festival ficou a cargo do músico e pesquisador Ndaka Yo Wini, acompanhado da sua banda, formada por Nsangu-Zanza (guitarra solo), Kris Kasinjombela (baixo), Jackson Nsaka (bateria), Dalú Rogér (percurssão) e Moisés Lumbanzadio (teclado).

HOMENAGEADOS E BALANÇOS
Quatro nomes, que durante anos fizeram história na música angolana, foram homenageados nesta edição. André Mingas, Wyza, Zé Keno e Mário Silva. O objectivo da distinção foi simples: lembrar os seus feitos e o contributo dado à valorização e maior divulgação da música angolana.
Da sua maneira, acredita a organização, cada um dos homenageados ajudou a mudar e a levar a música angolana a outros patamares. No país, ou além fronteiras, a sua preocupação com a preservação e projecção das raízes da música angolana foi uma presença nos seus trabalhos.
O vice-presidente da Fundação Sindika Dokolo, Fernando Alvim, considerou as homenagens uma das melhores formas de engrandecer o trabalho feito por estes artistas. Aproveitou a ocasião para anunciar a realização de um festival, com o nome do malogrado músico Wyza Kendy, em breve, no Uíge, como forma de mostrar mais do seu trabalho. As receitas obtidas ao longo da actividade, explicou, vão ser revertidas para a família do artista. Quanto à edição anterior, Fernando Alvim fez um balanço positivo do projecto, porque, justificou, contou com a participação de 272 artistas.
Em relação ao balanço da III Trienal de Luanda, Marita Silva, directora-geral da fundação, disse que em 562 dias, aproximadamente 83 semanas, foram realizados 2.568 eventos, ligados à projecção e valorização da cultura nacional, nos quais participaram 3.359 artistas e contou com 254.664 visitantes.


Adriano de Melo

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