A caça ao jacaré

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O rio Kunhinga serpenteava por entre as montanhas, refletindo na noite os raios prateados da Lua cheia. Corria gemendo por entre os muxitos até se perder no Kutato, e como este, no Kuanza, fundindo-se num só até ao mar.

Ia alta a noite. No meio das árvores, da orla da mata, uma cubata de pau-a-pique e capim projetava a sombra serena sobre a margem arenosa.

Os homens dormiam. Vindos do escuro, mil e um sons noturnos faziam-se ouvir. Aqui ou ali, de vez enquanto, um animal qualquer, silencioso e traiçoeiro, cheirando por onde passava, surgia em busca de qualquer despojo. Ao deparar com os panos pendurados por mãos conhecedoras, fugia assustado, embrenhando-se na floresta.

Às vezes aparecia a nojenta hiena, chorando lastimosamente um pedaço de carne. Restos dos festins alheios. Pouco caçava o bicho pardacento.

Kandjaia aproximou-se da casa do tio, vagarosamente. Estava cansado e com fome. Não se sentia com coragem de acordar os da casa àquela hora. Os mosquitos assolavam-no. Não resistiu à tentação. Decidido, bateu três vezes a porta de madeira.

O silêncio foi a resposta. Repetiu as pancadas. Desta vez uma voz sonolenta soou sobressaltada.
-Quem é?
- Sou eu, tio. O Kandjaia – respondeu, colocando a boca à fresta do madeiro.
-Quem? – Insistiram de dentro.
-O Kandjaia Kassoma. O filho do teu irmão Ndunda, tio.
- Eh! Vieste fazer o quê? Há algum azar?
Não é nada, tio – tranquilizou Kandjaia ainda de fora.
– Vim cá só de passagem por hoje ou amanhã, talvez.
O trinco rústico de madeira rangeu, e a porta abriu-se ruidosamente.

No umbral apareceu a figura sonolenta do tio, embrulhado num pano e segurando um pedaço de cera acesso. Franqueou a entrada, afastando-se ligeiramente para o lado. Kanjaia entrou e depositou a trouxa no chão.

O velho Katenda fitou o sobrinho interrogativamente, enquanto este se ajeitava a beira das brasas quase apagadas.

Kandjaia percorreu o pequeno compartimento, procurando alguma nonga esquecida. Encontrou apenas alguns gravetos, que ajeitou sob as pedras que demarcavam a fogueira. Ativou-a soprando, ate ver as chamadas iluminarem a sala. A cara do tio parecia a de um chirulu, meia iluminada, meia ensombrada.

O tio curvou-se, depositando num caixote a vela acesa, mal equilibrada nos inúmeros anzóis e pedaços de chumbo que utilizava na pesca.

Cruzou em seguida os braços, aguardando alguma explicação mais pormenorizada do sobrinho sobre a visita.

-O meu pai está preso – disse Kandjaia quase num murmúrio.
- Ai-u-é. Está o quê?
-Está preso, tio. Foi preso antes de ontem.
- Hum!, hum!, hum!, hum. Má notícia, meu filho. Má notícia – balbuciou o tio abanando a cabeça.
-Lamento, tio. O culpado de tudo sou eu.
-Tu foste queixar o teu pai? Foste queixá-lo? – reagiu o tio, erguendo-se repentinamente.
-Não, tio. Não fiz nada disso. Vou contar-te tudo.
Kandjaia narrou pormenorizadamente tudo o que se passara na aldeia, e os motivos que o levaram a refugiar-se ali.
-É pena, Kandjaia – lamentou o tio, baixando a cabeça repleta de cãs. – O teu pai não pode ter culpa. Não tem culpa. O que podemos fazer? Dar dois garrafões de vinho e algum dinheiro ao soba, para ir discutir o assunto durante cinco ou seis anos? Não vale a pena; em tanto tempo morre e nasce muita gente. Muitas coisas acontecem.
- É verdade, tio. Já pensei em ir-me entregar. Durante a viagem, senti pena do pai e…
-Não faças isso, Kandjaia – interrompeu o tio. – Se te apanharem, matam-te com certeza. Assim, enquanto o teu pai está preso, não o matam nem te matam a ti. O melhor é ficares aqui algum tempo, e ajudares-me na pesca. Aqui, pouca gente vem. A estrada é má. O chefe, por isso, aqui não vem. De vez em quando, aparece o soba do Kassumbe, ou o sungo da Tchimbamba, de passagem. A vida é boa. Não temos quem nos aborreça.
O tio fez um vasto gesto com as mãos, como querendo abraçar aquele vasto território, selvagem e puro.
-Não vás já. Kandjaia – afirmou, retirando-se para o quarto contíguo.
Voltou pouco depois com uma manta e uma esteira, que estendeu ao sobrinho.
- Toma e dorme. Se tivermos mais que conversar, amanhã encontras-me a arranjar a piroga velha.
- Está bem – respondeu Kanjaia, estendendo a esteira.
Na manhã seguinte, Kandjaia acordou com o ruído de um martelo batendo a madeira. Levantou-se, passou a mão pelo cabelo desalinhado e deitou a mão a uma cabaça que se encontrava pendurada.
Levou-a à boca e bebeu sofregamente do seu conteúdo.
Deu um estalo coma língua e enfiou as calças.
Em tronco nu, saiu.
Tio Katenda, enfiado numa velha calça de ganga, trabalhava com ardor. Via-se que estava preocupado, pelas rugas fundas que lhe vincavam a fronte.
Quando Kandjaia lhe tocou ao de leve num dos ombros, virou-se um tanto sobressaltado.
-Ah, és tu! Acordaste cedo.
E voltou ao trabalho. Pouco depois, pousou o martelo e limpou o suor da testa comas costas da mão.
Disse com voz forte:
-Vai fazer o almoço, para depois irmos pescar. O dia está bom. Se não ficar mau tempo, à noite vamos tentar apanhar um jacaré.
Kandjaia apressou-se a preparar a refeição. Pouco depois, mastigavam sonoramente pirão de milho com fuba da pedra, e peixe seco, caseiro.
Kandjaia comia devagar, mastigando bem. O tio Katenda, pelo contrário mastigava rapidamente, chupando até os dedos. Tinha por hábito comer apenas duas vezes por dia. De manha e à noite. No intervalo das refeições, apenas um ou outro copito de wingundo e um pouco de carne seca.

Acabada a refeição, tio Katenda levou para o barco todo o seu material de pesca. Duas redes, vários anzóis e algumas armadilhas de verga.

Rumaram rio abaixo, ao sabor da corrente. O seculo ia ao leme, um remo de proa, esquivando habilmente os troncos, ou os bancos de areia. Kandjaia ajudava, ou remando ou empurrando o barco com uma comprida vara que fixava no fundo do rio.

Tio Katenda manobrou a certa altura, colocando o barco mais próximo da margem. Seguidamente, estendeu uma corda de barbante pelas argolas das armadilhas, obliquando no sentido da corrente. Por entre cada armadilha, fixou uma rede.

Depois de tudo a postos, restaria aguardarem o resultado.
Dirigiram-se para a margem, acomodaram-se e preparam-se para pescar à linha.

Tio Katenda acendeu o velho opessi, aspirando deleitado o tabaco forte que fumava.

Nenhum dos dois parentes se sentia com disposição para conversar. Para além de um ou outro comentário sobre a atividade, nada mais disseram até ao fim da tarde. Quando recolheram duas armadilhas independentes, para secar peixe para consumo próprio, ficaram um tanto desiludidos. Resolveram por isso regressar, sem levantar as outras.

À noite, enfiados em casacos velhos, fizeram-se de novo ao rio.

Transportavam desta vez material pesado, destinado à caça de jacarés.

Remaram bastante tempo, e de uma maneira geral sempre mergulhados no escuro. Quando julgou conveniente, o velho pescador pediu ao sobrinho que desse manivela ao estranho aparelho fixo sobre uma tábua. Kandjaia obedeceu prontamente, e o sekulo passou a luz ao redor da canoa. Depois, experimentou focar um pouco mais à frente. Vasculhou com o feixe de luz uma área de cerca de cem metros quadrados, ao longo do curso da corrente. Para qualquer inexperiente, a quietude das águas significaria má sorte, e provavelmente desistiria. Mas o velho não desistiu. Conseguiu localizar um ponto vermelho, que evoluía lentamente na direção da embarcação. Rapidamente, tio Katenda baixou a lanterna e incidiu o foco para o fundo do barco. Colocou seguidamente uma carga de pólvora e uma mistura de esferas metálicas e pregos cortados pelo cano do kanhagulo. Amarrou a um anzol com cerca de vinte e cinco centímetros de comprimento um pedaço de carne em sangue. Prendeu depois o anzol a uma corda de sisal, enrolada num rolete. Fixou então o anzol e a carne numa vara devidamente ensebada, que suspendeu sobre a água do rio.

- Kandjaia! – chamou baixo. – Prepara a lanterna, e quando eu gritar começa a dar à manivela.

Mal tivera tempo de acabar de instruir o sobrinho, quando sentiu a vara partir-se e a água farfalhar.
-Agora! – gritou.
Acto contínuo, segurou a espingarda rudimentar, e colocou-a à mão, pronta a fazer fogo.

O barco agitava-se assustadoramente, de um lado para o outro, em risco de se voltar.

Tio Katenda foi para ao pé do rolete. Acorda estava quase no fim, e o sekulo agarrou a manivela com força, começando a enrolá-la.

Travou-se então uma dura luta entre o tio e o jacaré, que puxava a corda, tentando fugir.

Mestre no ofício, o tio cansava-o, dando-lhe lastro, e recolhendo-o de novo. Assim se mantiveram durante duas horas. A resistência do animal foi afrouxando progressivamente. De vez em quando, estremecia, arquejando.

Katenda estendeu-se exausto, no fundo da piroga.
- Kandjaia – disse. – Vai desamarrar a corda. Tem cuidado.

Kandjaia saltou para a água, nadando alguns metros até à margem.

Tio Katenda preparou o kanhangulo, e disparou certeiramente para a base da cabeça do animal. Ferido, ainda que não mortalmente, o jacaré contorceu-se, arquejando.

Depois de desamarrada a corda que prendia o barco à margem, empreenderam o regresso, arrastando com dificuldade o sáurio.

Já em terra, o caçador desferiu com um machado profundos golpes em partes sensíveis do jacaré, acabando de matá-lo.

Terminado o trabalho, dirigiram-se os dois homens para a kubata, com o fito de repousarem.

(do livro ‘Silêncio em Chamas’, UEA, 1979)

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