A grande promessa

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Esta é uma história que a mamã contava ao deitar-me para me embalar…

Esta é uma história que a mamã contava ao deitar-me para me embalar…
Há muitos, muitos anos, tantos que perdemos a conta, viviam numa pequena cidade três jovens irmãs órfãs de pai e mãe. Viviam pobremente, perto dum bosque, num velho casebre herdado dos pais. O casebre era cercado por um lindo jardim. A mais novinha das manas era muito bonita, encantadora, uma jovem amorosa e sonhadora, que ambicionava vir a ser alguém na vida, fazendo um bom casamento!
A mais velha chamava-se Inene, a do meio chamava-se N’Gueva e a caçula, Kwzediua.
A Kwzediua, para além da beleza e inteligência, era muito bondosa, meiga, de fácil trato, ao contrário das irmãs, Inene e N’Gueva, que eram feias e de coração demoníaco.
Certa vez, estando elas gozando dum agradável passeio pela pequena cidade, ao pôr-do-sol, viram passar o carro oficial do rei e uma delas, a Inene, exclamou alto e bom som:
“-Quem me dera casar com o cozinheiro do rei… Seria uma óptima cozinheira, tão esmerada que far-lhe-ia pratos nunca vistos neste reino!”…
Logo de seguida, gritou a N’Gueva também entusiasmada:
“Quem me dera casar com o motorista do rei! Seria a esposa mais devota do mundo. Trataria das roupas e cuidaria dele como jamais alguém o fez nesta vida! Torná-lo-ia num homem muito feliz!”…
E, por fim, com o mesmo ímpeto das outras, grita a mais novinha das três, a linda Kwzediua:
“Quem me dera casar com o próprio Rei, ou talvez com o filho, o príncipe. Dar-lhes-ia lindos e maravilhosos filhos com estrelas na testa!”
Dito isto, desatou numa estrondosa gargalhada. As irmãs, admiradas, intrigadas e surpreendidas, retrucaram:
“O quê?! Dar-lhes-ias filhos com estrelas na testa, como?! Casar com o rei, tu?!...Casar com o filho do rei, ou o príncipe?! Mas, olha que tu sonhas muito alto, rapariga tonta e atrevida?!”…
Passados alguns dias repetiu-se novamente o episódio… E, de novo, elas fizeram tais afirmações e desejos:
“Quem me dera casar com o cozinheiro do rei… apresentar-lhe-ia pratos e iguarias nunca vistas neste reino!”…
“Quem me dera casar com o motorista do rei, cuidaria dele como jamais alguém cuidou!”…
“Quem me dera casar com o rei ou o príncipe! Dar-lhes-ia filhos lindos e adoráveis com estrelas na testa!”
Só que, desta vez, feliz ou infelizmente, o desejo formulado em alta voz e com maior ímpeto foi partilhado pelos guardas do monarca.
Estes não se fizeram de rogados, boquiabertos correram a informar o Rei do atrevimento das humildes jovens.
O Rei, também espantado com o desejo e audácia da jovenzinha, resolve conhecer as manas atrevidas! No dia seguinte, à mesma hora, no crepúsculo da tarde, resolve passear pelas mesmas paragens… forçando o encontro com as jovens casadoiras.
Inene, N’Gueva e Kwzediua voltaram a ver o carro real passando e repetiram os mesmos desejos:
“Quem me dera casar com o cozinheiro… quem me dera casar com o motorista… Quem me dera casar com o Rei, ou com o filho do Rei, o príncipe!”
Então, entre pai e filho houve um acordo. Seria ele, o próprio rei, o candidato a desposar a linda e atrevida Kwzediua. Aconselhou os seus empregados, neste caso, cozinheiro e motorista, a fazerem o mesmo: casar com as outras duas jovens, Inene e N’Gueva.
O Rei era viúvo e ainda jovem também. Havia muitos anos que tinha perdido a esposa. Tinha sido uma boa esposa e mãe dedicada. Por isso desejava casar novamente, refazer a sua vida sentimental, constituindo uma nova família. Até porque não gostaria de deixar ao reino um único sucessor. Almejava aumentar a família real.
Kwzediua, que na língua local significa Sorte, era realmente muito bonita, inteligente e sortuda. Logo, foi muito fácil o Rei apaixonar-se por ela. Pouco tempo depois, o Rei pediu -a em casamento. Ela, por sua vez, também se apaixonou pelo rei, e aceitou a proposta de casamento.
As outras duas irmãs, Inene e N’Gueva também se casaram com o cozinheiro e o motorista, respectivamente.
Logo após os respectivos casamentos, eles ansiavam pelo cumprimento da promessa das donzelas.
A mais velha, a Inene, que havia prometido fazer maravilhas na cozinha, tornando-se numa exímia cozinheira de todos os tempos, nada sabia fazer para decepção do marido. A segunda irmã, a N’Gueva, havia prometido cuidar do marido com esmero, asseio e dedicação nunca vistos. Pois, passava o tempo, e nada de especial acontecia. Até parecia que havia esquecido a promessa, dedicando-se simplesmente a usufruir do seu novo status e bem-estar.
A terceira e mais ousada irmã, Kwzediua, a caçula, engravidou do primeiro filho.
Aguardavam a chegada do novo membro da realeza, ansiosos, e começaram as expectativas. Cogitavam: será que nasceria mesmo com uma ESTRELA na testa, como ela havia prometido e apregoado?!
Inene e N’Gueva, as irmãs da gestante, receavam que sim. Ela sempre fora uma jovem bafejada pela sorte, talvez fosse por causa do nome. Todos os seus desejos eram sempre satisfeitos pelo destino. Até casar com o próprio Rei tinha conseguido. Não fosse o céu atender novamente aos seus pedidos descabidos, e premiá-la mesmo com filhos lindos e especiais!
Então, muito atentas e desconfiadas, Inene e N’Gueva começaram a controlar a gravidez da pobrezinha e a arquitectarem planos.

A PARTIDA
Chegou o tão esperado momento do nascimento da criança. Elas ofereceram-se logo a ajudar a irmã a trazer a criança ao mundo. Não precisariam da ajuda de mais ninguém, segundo elas, até porque elas eram duas e seria o suficiente.
No momento da expulsão, elas pediram a Kwzediua que pusesse uma venda nos olhos, porque uma velhinha sábia as tinham aconselhado a proceder assim, para dar mais sorte, segundo elas. A surpresa seria mais agradável!
A bondosa e inocente garota, sem saber da manha e da malandrice das irmãs, acedeu. Afinal, ela precisaria mesmo de muita sorte; tinha feito uma promessa quase impossível, que talvez não pudesse cumprir. Tinha falado impensada e euforicamente. Agora, não sabia como recuar.
Pois, meus queridos amigos, acreditem: a criança veio realmente ao mundo, saudável, linda e com uma estrela na testa, como ela havia prometido: era uma linda menina.
A menina parecia uma deusa.
Confrontadas com a surpresa e abismadas com a situação, as maldosas irmãs resolveram pregar-lhe uma partida. Matariam a menina, afogando-a no rio e diriam que tinha nascido um objecto estranho, para que o Rei se enfurecesse, e se decepcionasse com a esposa.
Chamaram então um dos criados do palácio, e pediram ajuda, prometendo torná-lo rico se guardasse o segredo pelo resto da sua vida e executasse o trabalho. O rapaz, ambicioso e também maldoso, alucinado com o dinheiro que ganharia, pegou na menina, e prometeu que a jogaria ao rio, afogando-a.
Assim foi e no pequeno e lindo bercinho real colocaram um cachorrinho recém-nascido…
Tiraram a venda dos olhos da Kwzediua e, fingindo estarem constrangidas, chocadas e tristes, mostraram-lhe o seu filhinho: um cachorrinho. Ela apanhou um susto. Quase morreu.
Meu Deus, porque a tinha castigado daquela maneira. Uma coisa era não ter filhos com “estrelas na testa”, como prometido, outra era ter um filho cachorro!
Inene e N’Gueva foram imediatamente avisar o Rei, contando que a esposa não só não tinha cumprido a promessa, como tinha trazido ao mundo um cachorro! Um animalzinho, algo muito estranho!
O palácio todo ficou muito triste. Que maldição, um cachorro príncipe?! Que maldição, que coisa estranha nunca vista!
Mas, o Rei estava verdadeiramente apaixonado pela linda esposa. Perdoou-a. Não seria daquela vez, seria da próxima. Não estava à espera dos filhos com “estrelas na testa”, mas sim filhos robustos e saudáveis, filhos normais, fruto do seu grande amor. Futuros sucessores do reino e da sua grande fortuna.
E, nesta senda, vem a segunda gravidez. Mas, uma vez mais tudo se repete. No momento do parto, Kwzediua foi vendada. Nasceu, desta vez, um lindo rapaz, ainda mais bonito que a primogénita e com a Lua na testa…
Maldita seja a Kwzediua, bradaram as víboras das irmãs silenciosamente, entreolhando-se. Ela iria ver só. Como ela conseguia tudo isso?! Chamaram novamente o cúmplice e repetiram a proeza. Deitariam o menino ao rio, e colocariam no bercinho um banco de madeira, desta vez!
Um BANCO?! Exclamou o Rei desapontado e incrédulo! Que vinha a ser aquilo?! Que maldição era aquela?! O Senhor Deus que se compadecesse dos dois. Mas que destino macabro e cruel, que praga! Que sina!
Mesmo assim, mais uma vez, Kwzediua foi perdoada. Teria uma outra chance de se redimir, ou pelo menos trazer ao mundo um filho normal!
Na terceira gestação, a jovem Kwzediua, emagrecia, a olhos vistos, temendo que se repetisse aquele pesadelo, aquela terrível maldição!
O marido ameaçava-a constantemente. Se, novamente, ela parisse coisas estranhas, não haveria perdão. Seria de mais. Ela talvez fosse uma bruxa, um ser desprezível. Filhos sem estrelas, ainda que feios, eram admissíveis. Mas, objectos estranhos, o que seria desta vez?! Desejava, ao menos, filhos normais e saudáveis. Seria exigir muito da vida?!...
Ela era uma bruxa de certeza. Um pequeno monstro em forma de gente!
Kwzediua pedia e rezava a Deus e todos os Santos, que a protegessem. Não fosse novamente o céu castigá-la. Na altura do parto, aconteceu o mesmo. Colocaram um coelhinho. Era o novo ser que vinha ao mundo para o triste casal.
Um COELHO?! Interrogava-se a Kwzediua, confrontada com a triste situação. Porquê, meu Deus! Que castigo era aquele? Porque Deus não a levava para pôr um ponto final em tudo?! Este era o grande castigo de Deus perante o seu atrevimento, o seu sonho de menina? Deus tinha deixado de ouvi-la!
Informado do novo infortúnio, o Rei não teve meias medidas. Kwzediua seria severamente castigada. Tinha pena dela, porque a amava muito, mas não podia continuar a ser tão condescendente. O que aconteceria da próxima vez? Não, um coelhinho era demais. Tinha esgotado todo o perdão! O seu reino serviria de motivo de gozo, de chacota pelas redondezas.
Então, o rei mandou cavar no centro da cidade um grande buraco. Era um pequeno abismo. Um buraco com uma grande profundidade e colocou lá a Kwzediua
Exarou uma lei que determinava que a partir daquela data, toda a cidade deveria deitar ali os resíduos da cidade: lixo e outros afins.
A jovem e linda Kwzediua, a bela rainha, a meiga soberana, foi colocada naquele buracão! Dia e noite, ela recebia todo o lixo da cidade por cima dela. Era o severo castigo!
Durante meses consecutivos a pobrezinha foi resistindo. Alguns citadinos com pena não deitavam ali o lixo. Deitavam-no noutras paragens, clandestinamente, para poupá-la.
AS CRIANÇAS DO LENCINHO
Perto do rio, onde o famigerado lacaio deitava os lindos bebés, vivia um casal de pescadores modesto e pobre que não tinha filhos.
O marido ao chegar ao rio foi confrontado com o episódio. Alguém acabava de atirar ao rio um recém-nascido, um bebezinho.
O homem pegou na criancinha e correu para casa.
“Mulher lava os seios para amamentares e cuidares desta dádiva do céu”, disse o bom homem à esposa.
A mulher, surpresa, perguntou ao marido de onde havia roubado a criança. Ele contou o sucedido. Desde aquela data, o pobre homem rondava dia e noite o rio. Tentava saber junto dos moradores vizinhos notícias dos pais cruéis, mas sem comentar com ninguém. Talvez o céu lhe mandasse mais um presentinho, ou talvez os pais aparecessem à procura do bebe.
E, por mais duas vezes ele apanhou os bebés.
O casal tinha combinado que as crianças usariam um lenço, uma faixa na testa, para esconder a estrela, o sol e a lua dos filhos adoptivos. As crianças estavam proibidas, em momento algum, de deixar que alguém as visse sem a faixa. Isto só seria possível na presença dos pais.
As lindas crianças, fruto da união entre o rei e a linda Kwzediua foram crescendo, a olhos vistos, e tornaram-se três lindos jovens. Uma com a estrela, outra com o sol e a última com a lua na testa respectivamente.
Na cidade, as crianças do lencinho eram conhecidas por possuírem uma beleza e inteligência invejáveis. Eram meigas e bem-educadas. Mas, pertenciam à classe pobre. Os pais eram uns simples plebeus. A fama da sua beleza, educação e inteligência era apregoada aos quatro ventos e chegou ao palácio real.
Aliás, elas também residiam na mesma cidade das três manas. Mas, pertenciam ao grupo de citadinos, que se negava a jogar o lixo por cima da jovem rainha. Tinham muita pena dela, o rei era um monstro, diziam eles. Sempre que pudessem, eles levavam comida escondida para a pobrezinha da Kwzediua. Entre as jovens crianças e a rainha havia uma química, ou empatia.
E, assim passou o tempo, ano após ano… Um dia, fartos de ouvir falar de tão rara beleza das crianças, daquele povoado, o rei e o príncipe resolveram visitar a pobre família.
No local testemunharam a beleza e inteligência dos jovens. Mas, porque elas usavam aqueles lenços na testa?! Interrogaram os pais adoptivos. Apanhados de surpresa, os supostos pais ficaram sem saber o que responder, aguçando a curiosidade do monarca.
Não se sabe bem porquê, houve logo uma empatia entre os jovens e o rei. Então, o Rei pediu-lhes permissão para que eles tirassem aquelas faixas. Eles ficariam mais bonitos sem aqueles lenços já sem cor, desbotados.
Perante esta situação, eles resolveram obedecer à ordem de sua majestade. Também estavam convictos que tinham sido descobertos. Teriam de contar a verdade.
Logo que a menina retirou a faixa, houve um grito de espanto da parte do monarca.
A segunda também tirou, e a terceira. O que seria aquilo, meu Deus?! O rei acabou por desmaiar.
O rei, já recomposto do choque, pediu explicações aos pais adoptivos. Eles contaram a verdadeira história. As três crianças tinham sido apanhadas, recém-nascidas, no mesmo local, no rio. O rei chegou à triste conclusão que aquelas eram as suas crianças. Tinha sido enganado. Tinha sido bárbaro, cruel e injusto com a sua fiel e linda esposa. Afinal, ela tinha cumprido a promessa.

O PERDÃO
Regressou imediatamente ao palácio e pediu explicações, às cunhadas, Inene e N’Gueva, que continuavam morando com eles, usufruindo de todas as benesses.
Afinal, ele agora compreendia porque é que muitas vezes ele via ódio nos olhos das cunhadas em relação à pobre rainha Kwzediua. A felicidade delas quando ele resolveu castigar Kwzediua. As constantes insinuações, tentando forçar um mau relacionamento entre o casal. A insistência delas, em assistir o parto sozinhas, sem a presença de mais ninguém. A maneira como, sem dó nem piedade, continuavam a usufruir do luxo, e da boa vida, enquanto a irmã jazia no buraco da cidade.
Agora, entendia tudo. Meu Deus que mulheres tão perversas a sua esposa tinha como irmãs! Como teriam sido capazes, de tamanha infâmia, tanta maldade?!
Inene e N’Gueva foram obrigadas a confessar o crime, entre choros e soluços. Sempre tiveram inveja da sorte e da boa estrela da irmã mais nova, Kwzediua!
O rei correu ao centro da cidade e recuperou a mulher que estava no cativeiro. Foram contactados os maiores e mais famosos curandeiros e médicos do reino e arredores. Tinham que salvar a rainha, já quase moribunda. Ele amava mais do que nunca a sua bela Kwzediua. Ofereceria toda a sua riqueza a quem salvasse a sua linda e bela rainha.
Os filhos foram recuperados e convidados a viver no palácio com a família real. Afinal eles eram princesas e príncipe. Os pais adoptivos foram convidados a fazer também parte da realeza. Foi atribuído um título de nobreza ao pai adoptivo. Assim, ficariam próximos dos seus filhos adoptivos, a quem se tinham afeiçoado durante muitos anos.
Com o carinho e o amor da família, a rainha Kwzediua ficou recuperada.
O rei decidiu que colocaria as cunhadas malvadas, Inene e N’Gueva, no lugar da irmã, no mesmo buraco da cidade.
Mas, a bondade da rainha Kwzediua falou mais alto, não permitindo tal castigo. Ela perdoou as famigeradas e malvadas irmãs!
“Não devemos pagar o mal com o mal”, dizia a soberana, justificando o seu bom coração.
Passados mais alguns anos, a rainha voltou a engravidar. Trouxe ao mundo, desta vez, mais um lindo rapaz com olhos muito azuis, iguais aos do pai e um diamante lindo na testa. Assim se confirmou que eram os filhos dela. Não havia dúvidas.
E a linda família viveu muitos e felizes anos! Naquelas lindas paragens e naquele reino era comum comentar-se a rara beleza e a bondade e inteligência da rainha Kwzediua, assim como dos seus lindos filhos, que coisa mais rara tinham na testa: estrela, lua, sol e diamante!
Filomena Mata

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