A LENDA DA LAGOA DE XINJAMBUMBA

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A actualização do conto remete-nos para um apotexto em que o móbil da lição tirar é que a repartição de bens numa comunidade deve ser um acto participativo sob pena de ser interpretado como injusta ou desigual.

A Lagoa de Xinjambumba encontra-se no município da Quilenda ao lado do rio Longa Fotografia: Jornal Cultura

A lenda que contamos a seguir foi publicada numa 1ª edição de 2013 num livro intitulado Lendas da Kilenda, de Pedro Ângelo e Josefa Mige, editado pelo Ministério da Cultura/INIC, em comemoração do Dia da Cultura Nacional.
A estória insere-se no conjunto de Textos Populares Tradicionais dentro da classificação de textos sinliterários proposta por Pinto-Correia.
A estória apresentada é uma versão (fanerotexto) que se pode resumir no seguinte:
• Um Homem tem duas mulheres que, por sua vez, têm os respectivos filhos e vivem todos em harmonia – Situação Inicial.
• Um ano de seca traz consigo a falta de alimentos – Perturbação;
• O Homem procura minimizar a situação e num último esforço reparte, por sua única iniciativa, os alimentos que lhe restam – Transformação;
• A mulher que se sente prejudicada por uma repartição que assume como desigual, pois feita sem a participação das partes, abandona a casa com os filhos e alonga-se pela mata longe dos outros habitantes – Resolução;
• No sítio onde se acolheu, morreu e lá nasceu uma lagoa com um interdito: As mulheres não podem beber directamente da lagoa, a água tem de lhes ser fornecida por homem – Situação Final.
A Função de nível implícito:
Concluindo: Os interditos estão presentes em todas as culturas e retratados em diversos géneros de literatura oral. Repare-se no interdito do mito da génese relatado na Bíblia em que o primeiro homem não pode comer um dos frutos que Deus, o seu criador, lhe colocou no jardim do Éden. Os interditos surgem como estratégias que regulam o comportamento humano, alertam para o respeito a regras, a normas de vida.
Por outro lado a actualização do conto remete-nos para um apotexto em que o móbil da lição a tirar é que a repartição de bens numa comunidade deve ser um acto participativo sob pena de ser interpretada como injusta ou desigual. As sociedades, e a família é um microcosmo que incorpora em si todas as responsabilidades assumidas pelos membros da sociedade, harmonizam-se porque se espera que cada parte do todo cumpra com equidade a parte que lhe cabe. Quando há quebra desse compromisso abre-se a porta a atitudes que poderão ser tidas como excessivas mas legitimadas pela reacção natural e universal à reparação do sentimento de injustiça que se instala.

A LENDA DA LAGOA DE XINJAMBUMBA

1
Numa aldeia vivia um homem chamado Zamba, bastante empreendedor, que amigou duas mulheres, a Donana e a Samba.
A Donana era a primeira mulher e o homem construiu-lhe uma casa à direita da sua onde vivia com os seus três filhos ainda crianças. O mais velho dos filhos era uma menina com dez anos.
À Samba, a segunda mulher, ele construiu, à esquerda da sua, uma casa onde esta foi viver e, com o andar dos tempos, povoou-a também com três crianças sendo a mais velha uma menina com oito anos.
O homem e as suas mulheres eram muito trabalhadores.
Ano após ano as lavras, no momento certo, eram semeadas cuidadosamente de modo a que os celeiros estavam sempre carregados com milho e makoka com reservas suficientes para suprir as necessidades enquanto as novas colheitas não estivessem prontas para serem utilizadas.
A vida decorria de um modo agradável, sem grandes sobressaltos.
A chuva, o calor, o cacimbo, as colheitas, as queimadas, a caça, sucediam-se no momento certo e pessoas, animais, plantas e coisas harmonizavam-se.
Naquele ano o homem abriu novas lavras na mata já que as crianças estavam a crescer e com mais necessidades.
Já tinham passado duas luas depois das queimadas terem acabado. Mesmo a caça já se tinha afastado de novo e o tempo de preparar as lavras tinha chegado.
O céu escurecia para os lados do Kirimbu, como acontece todos os anos quando chega a ápoca das chuvas.

2
Nas noites anteriores ouviram-se trovões.
A chuva deve estar a chegar para fertilizar os campos.
Os dias passam e os sinais nos céus ameaçam chuvas, mas em vez de estas regarem a terra os ventos levantam-se e atraem os corvos (kilombelombe) e juntos afastam-nas para outras terras (diz-se, lá para as terras planálticas da Kibala).
Ao fim da tarde finalmente, depois de muito vento e raios e trovões, a chuva caiu rápida, e os campos encheram-se de braços apressados a lançar o milho à terra.
Os rebentos de milho já têm vinte centímetros e só mesmo de manhã cedo é que se erguem direitos, pois já há quase duas semanas que caiu aquela pancada de água e depois disso só a humidade do sereno e o vento.
O fim do ano está a chegar, aproxima-se o período das novas sementeiras, e a primeira colheita perdeu-se completamente. Só algum milho semeado nas baixas, pela crianças, vai dar algumas poucas espigas para se comerem frescas.

3
O celeiro de milho já se abriu e os grãos são aproveitados um a um e mesmo os iphubu (carolos) são aproveitados parcimoniosamente para dar aos animais.
O pequeno cacimbo este ano veio agreste. O ar está seco e as nascentes começam a secar uma a uma.
Os iphubu aproveitam-se agora para juntar à makoka, na boca do pilão, para fazer a fuba cuidadosamente repartida por todos.
O tempo das grandes chuvas não traz nada de novo. O céu apresenta nuvens que ameaçam chuva mas nada.
Só vento. Vento cada vez mais seco.
Os celeiros estão esgotados e as baixas do feijão macunde e de batata-doce estão também a ficar secas.
Como não choveu, todo o capim já está seco, e as queimadas surgiram bem mais cedo este ano.
A caça afastou-se, e os homens passam dias e dias na mata para regressarem com pequenos e magros jiphuku (ratos) que mal dão para alimentar os filhos mais novos.
Arrancam-se os últimos pés de mandioqueira.
Diz-se que para os lados do Ebo os gafanhotos surgiram como uma nuvem baixa escurecendo o dia e deixando atrás um rasto de terra queimada.
Os celeiros encheram-se de cabaças com gafanhotos mas por muito pouco tempo.

4
O homem senta-se pensativo, só e às escondidas, não quer que as mulheres nem os filhos adivinhem no seu rosto as angústias e dúvidas do seu pensamento preocupado com a sobrevivência da família.
Depois de uma noite mal dormida e agitado pelos lamentos dos filhos mais novos, Zamba decide mais uma vez partir para a caça, mas desta vez dirige-se para as baixas do Keza.
Sai antes do sol nascer e leva a sua catana, a zagaia e uma cabaça com água determinado a regressar apenas quando conseguisse comida para dar aos seus filhos.
O dia clareou e Zamba ainda nada tinha encontrado. O capim está seco, o ar agreste vai fustigando-o mas nada o demove dos seus propósitos.
Deambula cansado por uma paisagem seca e desoladora onde parece não existir nenhuma forma de vida.
A noite aproxima-se rapidamente, e nem um rato só conseguiu ver.
Zamba está desesperado.
Ao longe na paisagem, recortado no lusco fusco do fim do dia, vislumbra a silhueta prometedora dum embondeiro.
Aproxima-se lesto e vê duas mukwas no chão.
Recolhe-as e limpa a poeira e a terra que o vento em sua orgia depositou sujando as suas cascas de pêlo castanho, curto e macio, que protegem com segurança os gomos agridoces que ele imagina já a serem parcimoniosamente repartidos pelos filhos e apreciados com infinito prazer.
Com as duas cabaças de mukwa penduradas à cintura como se fossem rapacas, regressa a casa.

5
Era quase manhã quando Zamba chegou a casa.
Suas mulheres dormiam, e sem as acordar entrou em casa de cada uma delas e depositou em lugar bem visível as mukwas.
Depois de feito isto, entrou no seu quarto. Despiu-se, passou pelo seu corpo cansado um pano molhado para se refrescar e deixou-se cair em sua esteira tendo adormecido logo de seguida.

6
O dia seguinte, estranhamente, iniciou-se calmo.
Como habitualmente, as crianças, uma a uma, foram acordando e depois de se prepararem, sem trocarem palavras, saíram para o quintal e com as vassouras de bissapas de folhas de palmeira (kyeze) varreram os respectivos quintais à frente e atrás da casa.
As mulheres, cada uma em sua casa, depois de cuidadosamente terem aberto as respectivas cabaças de mukwa, chamaram os seus filhos e por eles repartiram os gomos e estes fizeram uma refeição matinal como já não faziam há muito tempo.
A manhã já ia alta quando as crianças das duas mulheres, libertas dos trabalhos e já depois de terem matabichado, se juntaram, ansiosas por trocarem as novidades trazidas pelo pai que chegara, sem contarem, nessa madrugada.
A menor das seis crianças, filha de Samba, não partilhava a euforia dos irmãos. Os três filhos de Donana mostravam-se bem mais loquazes que as restantes crianças. Os mais velhos da Samba pareciam contrafeitos ao partilhar a euforia dos seus irmãos e à medida que estes mais exteriorizavam a alegria que lhes proporcionou o consumo dos gomos de mukwa mais a menor se desgostava.
– A mãe Donana deu-nos gomos de mukwa que o pai trouxe. Os gomos eram tão doces! – Diziam, sem conter a sua alegria.
A criança menor, num acesso convulso de lágrimas corre para casa logo seguida dos seus dois irmãos enquanto os restantes, filhos de Donana, cantavam:
– O Papá gosta de nós! O Papá trouxe mukwa tão doce!

7
Samba, preocupada, ainda pensado em quantas refeições irá fazer com o que lhe resta da mukwa que Zamba lhe trouxera nessa madrugada, agita-se com a entrada tempestiva dos filhos.
A mais novita chora convulsivamente. As lágrimas e o ranho soltam-se molhando completamente a carita e abrindo carreirinhos por onde se precipitam até aos cantos da boca, deslizando daí, contornando o queixo e ensopando a gola desabotoada do bibe.
– A mukwa que o Papá nos deu não presta! – Balbuciou, entre soluços, a pequenita.
– É verdade mamã. – Disse a mais velha. – A mukwa que o Papá deu à mãe Donana é doce e a nossa é amarga.
Samba por um instante parou.
Passado esse instante eterno, do rosto de Samba desapareceram todos os traços de preocupação, de angústia, que o tinham ensombrado nos últimos dias dando lugar a vincos profundos de determinação. O seu rosto envelhecera décadas.
– Donika, prepara as coisas que podes levar e põe num saco. O vosso pai escolheu de quem gosta. Nós já não pertencemos a esta casa. Vamos embora. – Disse, com extrema delicadeza, Samba.
O Sol ainda ia alto quando Samba, com os seus três filhos, abandonou a casa e, sem nunca se ter voltado para trás, desapareceu pelo caminho de pé posto que muitas outras vezes fora pisado a caminho da lavra e agora a encaminhava não sabia para onde mas sem regresso.

8
Samba andava em passo seguro mas lento para que a sua filha Donika, que seguia atrás, a pudesse acompanhar.
A filha menor dormia nas suas costas e a outra ia bem segura na sua mão direita.
Já era noite mas à luz do luar e depois de há muito ter abandonado o carreiro que tantas vezes a levara à lavra, andava sem percalços e com grande determinação, como se soubesse exactamente qual era o seu destino.
Depois de muito andar, este estranho, insignificante e grandioso, corpo doloroso da humanidade, vislumbra a silhueta mais escura duma frondosa árvore e dela se aproxima.
Samba prepara, com folhas e capim, as alcovas onde ela e seus filhos irão passar o resto da noite agasalhados pelos braços generosos da árvore que os acolhera.
Deita-se depois de ter verificado cuidadosamente o sono das crianças e adormece logo de seguida.
Vai alto o dia. À luz clara do sol, ali, naquele sítio onde os pássaros testemunham que esteve Samba e seus filhos a dormir, espraia-se desde esse dia a superfície espelhada da lagoa de Xinjambumba.
Contam os mais velhos e é ajuizado dar-lhes crédito, que as mulheres que passam por essas paragens não podem tirar água para se dessedentarem. Só os homens o podem fazer. As mulheres têm de se socorrer dos préstimos dum homem ou de um filho homem para que estes tirem a água e lhes dêem e só assim podem beber água da lagoa do Xinjambumba.

(A lenda foi recolhida por Pedro Ângelo da Costa Pereira e contada
por Zwaki (Joaquim) Nzaji de 85 anos de idade, natural da Kasamba, Kilenda.)

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