A minha filha à procura da Esperança

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Esperança, óh, Esperança!!! Foi assim que acordei, com os gritos da minha filha. Na realidade, eu não sei se acordei ou não. Toda a noite dormi mal, rolei para um lado e depois para o outro, tentando dormir, e já de manhã, cansado, fiquei com a sensação que dormia quando ouvi os gritos da minha filha chamando a Esperança.

Acho que era sonho acordado. Por outro lado, sonhava que estava acordado e que me tinha levantado.
Penso que ainda cheguei a ver as pernas dela, saindo pela porta fora! Maria, Maria, espera por mim! Ela ainda respondeu, "papá eu tenho de a apanhar, porque não consigo viver sem Esperança!", e lá foi ela rua abaixo.

Logo ali na segunda ou terceira casa apareceu à porta o "Caixinha de Fósforos", o velho Poeta popular Angolano, nascido na antiga Baía dos Tigres, o Álvaro de Novais que se celebrizou no Cazumbi, primeiro no Miramar e depois no Ngola Cine. Descendo os dois degraus com a dificuldade provocada pela barriga grande, disse com o ar bonacheirão habitual nele, "então Maria porque gritas tanto?" "

Vou atrás da Esperança que desapareceu de casa. Desculpe, tio Álvaro, mas tenho pressa." Continuou rua abaixo gritando a plenos pulmões: ­ ESPERANÇAAA!

Então Maria, que modos são esses?, era outro vizinho, da Vila Alice, aliás, dois! Eles estavam ao portão na conversa sobre as coisas da vida. O Domingos Van Dunem, que me ensinou tanto do nosso teatro e tanto de coisas lindas, que só muitos anos mais tarde iriam acontecer na nossa terra. E o António Ole, outro fazedor de sonhos construídos nas telas das suas pinturas.

O Domingos perguntou-lhe se ela queria procurar ali no quintal, podia estar escondida atrás daquela Palmeira cheia de dendém. O Ole perguntou-lhe se queria procurar junto das suas pinturas espalhadas no quarto das traseiras. Ela aqui hesitou. Um pintor, como o Tio Ole, tinha muitos esconderijos para a Esperança se esconder. Mas ela achou que não, porque ela não teria tido tempo para isso.

Por isso, não tardou a pôr-se a correr de novo e a gritar pela sua companhia de sempre, Esperaaaança!

Uns metros mais à frente, lá estava ao portão outro grande poeta, Aires de Almeida Santos, que tão bem cantou o "Meu Amor da Rua Onze" e também ele perguntou a mesma coisa. E ainda sugeriu procurar debaixo dos grandes braços da Mulembeira. Ele ainda gritou para o João Escórcio, que morava ao lado, se tinha visto a Esperança. Escórcio, sempre simpático e membro efetivo das nossas tertúlias, que gostava de ler e escrever a estórias dos Amigos, também respondeu que não tinha visto.

Mas Escórcio, tinha outra característica. Dizia sempre que ia contar as estórias das nossas Tertúlias, só que nunca cumpriu. Mas, nas Tertúlias, nunca faltou!

A minha filha já corria pela rua fora, continuando a gritar pela Esperança.

Eu não me podia esquecer o que ela me tinha dito ao sair de casa, "papá, não consigo viver sem a Esperança". Os meus olhos perseguiam-na ansioso, vendo-a chegar quase ao fim da rua e a esperança de encontrar a Esperança já era escassa.

Foi ali, mesmo na última casa da rua, que lhe saiu ao encontro outro meu velho Amigo, também ele companheiro de Tertúlias e serões, a falar da poesia e da vida, ou vice-versa. "Não grites mais por ela, disse-lhe". Era o Ernesto Lara Filho. "Eu sei onde ela está!"

A minha filha estacou! Óh, Tio Ernesto que bom! E abriu-lhe os braços para o abraçar.

Ernesto, deu um passo atrás, antes que ela o conseguisse alcançar e disse-lhe: ela só volta para casa contigo, se tu aceitares uma condição. Claro tio Ernesto, eu aceito!

Pois, Maria, vais ter de dar uma companhia à Esperança. Ela precisa de outra companhia.

Maria não entendeu. De quem ela precisava mais? E tentava perceber o que se passava. A sua vida sempre foi tão simples. Viveu com os pais, teve o seu próprio quarto, estudou sem reprovar e agora tinha acabado a sua licenciatura. Tudo perfeito. Maria, disse-lhe o Ernesto Lara, é a mediocridade que queres? Sim, porque tudo o que fizeste até agora, foi acima da média, fizeste tudo melhor que muitos outros.

Cumpriste, tudo bem, mas agora, ficares de braços cruzados, durante todo o dia, trabalhando no que aparecer, sem que valorizes todo o teu trabalho, isso é medíocre!

Mas eu não sei o que fazer mais! Tenho esperança que corra tudo bem, mas na verdade não sei o que fazer.

Muito bem, minha filha, então vem comigo para dentro porque a Esperança espera-te.

Ela acompanhou-o cheia de interrogações.

Ao entrar em casa, ainda passaram pelo "Seripipi na Gaiola", que acompanhou Ernesto Lara na Cadeia. Foi a sua grande companhia durante o tempo que esteve preso, pelas suas ideias de liberdade.

Ao entrar na sala, a minha filha corre para os abraços abertos da Esperança e abraçam-se com vigor. Que te fiz eu Esperança?, Sempre vivi contigo, nunca pensei em mais nada a não ser em ti. Vem, por favor, vem para casa!

Não, Maria, não vou. Não vou, porque tu não podes continuar a viver assim, nem eu posso viver sozinha contigo. Eu preciso da minha outra parte. A parte que me completa.

Mas, Esperança, tu nunca me falaste em mais nada, nem ninguém. Não, Maria, eu não te posso falar, eu sou apenas aquela que tu esperas mas que nunca chega! Tu habituaste-te a esperar por mim, só que o dia da minha chegada nunca poderá chegar, porque tu não sabes o que queres de mim e não tens como saber.

A minha filha estava completamente desorientada! Não sabia o que ela queria dizer com tudo aquilo. E foi por isso que lhe implorou, mas, Esperança, diz-me o que é, que eu aceito tudo o que tu quiseres!

Prometes?

Claro que prometo, o tio Ernesto Lara está aqui como testemunha! Bom, nesse caso eu vou dizer-te com quem vamos voltar a viver, mas todos juntos!

Oh, que bom, Esperança!

Olha Maria, tu não podes viver mais só com a Esperança. A Esperança, apenas, causa a frustração, porque ela vive no teu cérebro mas não te dá ideias, apenas te dá ansiedade. Tu com a Esperança, esperas, esperas, esperas até chegar o momento de morrer.

Maria olhava para a Esperança, com os olhos muito abertos, esperando ansiosamente pela revelação.

Pois, Maria, eu só existo, só sou útil, se tu sonhares. Se souberes conviver com o Sonho. É o Sonho que te dá ideias, que te mostra os vários caminhos, que te dá alegria de viver.

Uma pessoa sem ideias é medíocre, que é o mesmo que dizer, uma pessoa sem ideias não sonha. Portanto,  Maria, eu vou voltar para ti, mas levo o Sonho, que também te irá acompanhar nos teus voos da imaginação e tornar-te mais feliz.

De repente, acordei, com o som daquele riso, jovial e feliz, dado pela minha filha e dizendo:

­Agora sim, sei o que quero do mundo!




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