A Ngeve, o leão e a Njamba

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Conto de Arjago

Era na calmosa e lindíssima aldeia do Polím, à margem do planáltico Uliévi, na opulenta missão congregacional de Kamundogo, pouco distânciada do Kwitu, havia uma pequena e humilde família encabeçada pelo pai Sahúnli, de nativa bondade e as duas filhas gémeas, a Ngeve de olhos grossos e translúcidos, um pouco mais humilde e a Njamba de olhar meigo, mimosa, encantadora e vaidosa, ainda adolescentes, tão cedo feitas órfãs de mãe Namilika, vítima de um parto complicado, passaram a viver ao sopé de elevadas colinas alvos de bosques devastados por juntas de bois, ora sombreadas de orvalho das olonaka e pomares.

Corria belíssimo tempo, cuja vegetação farfalhada de leve pelo frio da brisa matagal, reanimada pela frescura de moderadas chuvas ostentava-se florescente, quando o mais velho Sahúnli, sendo ele viúvo, renegado pelas tradições ancestrais de gente de seu status, reuniu as gémeas em partilha das tarefas domésticas:
- Filhas, vivendo nós, ao resto da vida sem a vossa mãe, doravante dividem as tarefas de casa, tâ bem? ­ distendido sobre a esteira, disse o pai passando de leve a delicada mão sobre as cabeças das órfãs.
- Sim, papá. ­ Responderam em uníssono humildemente.
- Ngeve, passas a cuidar da lenha, tâ bem? ­ Retorqui ele sorridente.
- Sim, papá. ­ Respondeu a adolescente com voz argentina como se de tenor matinal das andorinhas se tratasse.
- Sempre que for necessário, né papá?
­ Indagou a Njamba com tom de reduzida amizade.
- Sei disso! Já sei! ­ Atalhou a Ngeve galhofando.
- Sim. Assim será. E tu Njamba, passarás a cuidar da higiene da casa e da preparação da comida. Ouviram bem?­ Complementou o mais-velho Sahúnli passando a mão no pescoço da filha.
- Sim, papá. ­ Responderam novamente em uníssono.

Era num pardacento indecente mas lindíssimo entardecer, que parecendo já boiado no horizonte a explodir, o clarão em ebulição do poente ainda não era posto. Na sua primeira missão, a Ngeve de voz suave e melodiosa cuja reflexão combinada com a razão de sonho infantil preludiava no sopé do arvoredo quebrando o tranquilo silêncio com o tom melancólico de uma alma perdida, saia de casa ao encontro do combustível.

Mal se preparava para juntar os primeiros troncos secos, abundantemente alojados debaixo das árvores, ao punho do machado devastador do camponês, abruptamente aparecido um velho leão, aproximou-se de manso e sem ser pressentido colocado detrás juntou-se a ela.
- Olá Ngeve! -disse em tom brando.
Sobressaltada e trémula, achando-se acolhida no oco, Ngeve lançou-se entre a ramagem seca, acamada sobre a humidade do solo verdejante.
- Não te assustes, filha. Sou pela paz. Levanta e continua com o teu trabalho. ­ Disse o leão de bom grado, vendo-a apavorada.
Estupefacta, pelo insólito, a Ngeve obedeceu. Continuou com a colheita da lenha enquanto o leão calmamente a aguardava.
- Tenhas coragem, Ngeve. Vim te ajudar. Replicou o leão interrompendo-a.
- Perdoe-me senhor leão. Conheço bem o meu lugar. ­ Respondeu ela em brando sorriso reavendo a alma.
Explodida no silêncio, a Ngeve prosseguiu. Juntou a lenha em molho que amarrou com cordas vegetais extraídas do tronco e fez da tal ramagem uma rodilha de suporte tentando suspender a carga sobre a cabeça enquanto o leão, exclamando com acento de comiseração e ares de paixão submersa no luzir do seu olhar especulativo, observava-lhe calmamente.
- Olha, Ngeve! Coloca o molho sobre o meu dorso. ­ Sugeriu o mamífero. Frívola e bondosamente a Ngeve cumpriu.
- O lugar que resta é para ti me montares. Ordenou o leão cravando na adolescente o seu apaixonado olhar.
De olhos extáticos, contemplando a petulância do rei da selva, quase de espírito morribunda, novamente obedeceu ela.
Sem mais delongas, suportando o molho de lenha e o peso da moça sobre o seu dorso, como se de um tropel de cavaleiro fosse, o leão pôs-se a apear e em pouco tempo deu-se por detrás da casa dela onde, longe dos olhos profanadores, a deixou despedindo-se.
- Que a paz do Senhor continue contigo, Ngeve.

Ainda sobre o agasalho de choque, a pobre cativa não respondeu. Impaciente forçava-se em reaver a liberdade que a fera lhe furtou. Com o molho de lenha fora, precipitou a entrada ao encontro da irmã Njamba achada sentada e risonha lavando a loiça, que confidenciou sobre a peripécia. Entretanto, não se distanciando dela, a pé de gato, o intruso abrigou-se junto da janela por detrás de casa onde, a miúdos acompanhou o diálogo que as duas entabulavam.
– Chegaste muito cedo, Ngeve. Foi tão fácil assim? ­ De modo familiar indagou a Njamba.
- Não tanto, Njamba. Olha minha irmã, não te conto... - Introduziu ela reticente.
- Diga-me lá, o que aconteceu contigo? ­ Redarguiu a irmã gémea com infirmeza na voz.
- Não acreditas, hoje andei por cima de um leão. ­ Disse minutos depois de hesitação.
- O quê? Andaste por cima de um leão? O quê isto Ngeve? Deixa-te de blasfêmeas!... ­ Exclamou a Njamba de olhos pasmos.
- Com a nossa falecida mãe. - Balbuciou a pobre adolescente. - Foi ele que me trouxe até aqui.
Bem observado, o olhar embaraçado da Njamba centrava na irmã como fogo ateado na palha seca. Soltaria um grito de pavor se a sua alma não se intrigasse.
- É verdade, Njamba. Andei mesmo. Encontrou-me a lenhar, pediu-me calma e esperou por mim. Quando acabei de arrumar o molho mandou-me colocar por cima dele e, assim, eu também subi.
- O leão fala, Ngeve? ­ Interrogou a irmã gémea embaraçada.
- Não percebo mas, pelo menos, falou comigo muito bem como se fosse pessoa.
- Não será de feitiço, Ngeve?- Perguntou Njamba interpondo coragem no tom da voz trémula.
- Não sei, Njamba. Se fôr o caso, então estamos mal. ­ Vendo-se subjugada pelas tergiversações da irmã, respondeu ela.
- E então, foi bom andar por cima de um leão que fala? ­ Perguntou a Njamba voltando-se para a bacia da loiça.

Continuava o diálogo descontraído ateado entre as manas enquanto o leão se embevecia em amagras reflexões da sua missão de espia.
- Gostei. É só o cheiro. Cheira muito mal.
- A sério? ­ Explodiu de ironias gargalhadas a Njamba. - Aguentaste por cima de um animal mal cheiroso?
- Não tive outra saída, Njamba.

Ouvindo pela janela, o leão sentiu esfriar-lhe o coração e do mais pungente dissabor, seu rosto cobriu-se de palidez cadavérico. Desatou do lugar e para o bosque a fora, inconformado, apeou ruminando o tão doloroso golpe da ingrata bondade. «Gostei. É só o cheiro. Cheira muito mal».

Posto que um tanto abafado, um dado dia deu-se pelo gasto do combustível. Atraída a sua atenção por tal escassez, lastimavelmente a Ngeve teve de ir ao bosque pela segunda vez por ser dela esta garantia da vida em casa. Entretanto, não querendo a má sorte tornar-lhe mais um momento de encontro com um animal imbuído no clima de vaidade aristocrática, julgando-se segura seguiu caminho para a região oposta da primeira, quiçá um pouco mais ao norte da casa. Apenas começada a recolha da lenha, uma imprudente saudação ecoou no meio do ramal.
- Na paz do Senhor, menina Ngeve!
Arrependida por trocar da região, de tanto raivar contra si mesma, quase que lançando-se ao chão de tanto susto, impávida com o espírito entregue ao inconformismo, em silenciosa anciedade, a Ngeve não respondeu.
- Então, mais uma vez juntos. Continua com o teu trabalho, Ngeve.

Era quanto bastava para intrigar-se, precisando esta alma branda e passiva de perceber como o leão passou a saber de seu nome, mas por tanto medo, preferiu imbuir-se no silêncio cadavérico. Vingar-se do intruso, pensou a infeliz alma, espumando com os olhos desvairados.
- Oh! mamã, vem! Não me abandones. Ajuda-me! ­ Gritou ela de desespero com a voz comovida.
Vendo-se recuperada tempo depois, empalidecida a Ngeve prosseguiu com a recolha da lenha enquanto, achando-se Posta de olhar consolador, o leão reformava a inteligência ruminando reiteradamente o manifesto de guerra: «Gostei. É só o cheiro. Cheira muito mal».
- Ngeve! Olha para o tamanho deste tronco ao lado. Experimenta partir. ­ Sugeriu o leão disfarçando a hedionda paixão.
Agitada em gesticulação de furor a adolescente derrubou o tronco indicado.
- Pois, traga-o filha, e com toda a tua força bate sobre o meu dorso até sangrar. Quero ver este tronco espedaçado sobre mim. ­ Replicou o vaidoso mamífero.
Como que petrificada de pavor, a Ngeve carregada de sobrolho, quase experimentava desatar-se em corrida do importuno se não fosse a escassez de forças musculares.
- Bata com toda força. Não tenhas medo. Quem está a mandar sou eu. ­ murmurou o animal suspirando de dor.
Enquanto o leão gemia de dores, ela desatava a chorar como de uma criança se tratasse. O que se observava no bosque entre o animal feroz e a adolescente gémea parecia tratar-se de um palco de teatro em cena tragicomédia. Era para gargalhar não percebendo o quanto havia de satírico e trágico no seio de total ímpia e ignóbil farsa.
- Arruma o teu molho para te levar, Ngeve. - Disse o leão em pleno espetáculo depois de percorrer rapidamente o olhar sobre ela.
Pondo a insolência de fora, para ver-se livre dele, não hesitou em ganhar o tempo. Cumpriu com todas as solicitações. Colocou o molho sobre o dorso dele e, em seguida, montou-no. Enfiando-se ora por entre trocos, ora no ramal, deslizavam-se eles discretamente até próximo da casa. Desabada como uma rosa ceifada pelo furacão em pleno cacimbo, com o coração convulso na mais violenta agitação mental, a Ngeve entrou deixando o molho no habitual lugar e o leão lá se foi bramindo de regresso pela mata a fora murmurando: «Gostei. É só o cheiro. Cheira muito mal». Soluçando tais palavras que agora mais realçadas, ecoavam do peito do leão como um rugir funesto.

Posta junto da irmã que se encontrava a pilar os grãozinhos de gergelim para deles confecionar a estranga, cujo manjar ao jantar se previa de conduto do pirão que tanto o pai aprecia, bastando condimentar-lhe com o molho de jindungu, não se contendo atraindo atenção a Ngeve descreveu-lhe sobre o mais recente episódio.
- Oh! Ngeve! ­ Retorquiu a Njamba perturbada em voz sussurrante. ­ Vamos ter com o papá. O assunto é, deveras, mais sério que pensava.

E lá marcharam. Encontrado o pai junto da capoeira divertindo-se com o granizar das aves e o balar dos ouvinos, fruto da sua obra doméstica, em companhia de sua irmã ainda em estado de perturbação, a Njamba disse:
- Não se inquiete papá. A Ngeve vai te contar uma cena insólita que está acontecer com ela quando vai à lenha.
- Diz lá filha. Algum mistério? ­ Disse o pai sem tirar os olhos fitados sobre a bicharada que o divertia.
Avistando o papá, a Ngeve correu lançando-se a ele e enterrando o rosto sobre o peito, com voz sumida pôs-se a chorar.
- Conta me lá, filha. O que aconteceu na lenha? Uma cobra? Um animal? O que foi, filha? Conta, conta-me tudo. ­ Com natural perspicácia replicava ele.

Com a alma debatida em nuvens de perplexidade, aturdida por tais golpes do amigo incomum, com profundo desalento das palavras de seu pai, de consciência escrupulosa e lisura de seu coração que não se acomodaria nesta relação indesejada, enquanto a Njamba silenciada com a mão sobre a face cismava, a Ngeve considerou o pedido do papá desenrolando-lhe a fita integral.
- Arre lá, filha! ­ Bradou o papá com alguma impaciência.
- Isto é sério, papá! ­ Exclamou a Njamba com tom de mofa. ­ Pode ser feitiço. Não vez como ela ficou manchada de sangue sem ferimento?

Intrigado e esbulhado da cena o mais-velho Sahúnli emprestou o seu pensamento ao mais sombrio desespero. Mas sendo ele cristão congregacional, precisava convencer as filhas que o melhor partido em que se podia achar em momentos difíceis era a fé.
- Pode ser filha, sobretudo quando o medo é que vai a frente. Tens medo do bosque? Um leão pode haver sim, mas não fala, nem faz caridades. Sosseguem os vossos corações não se perdendo nos mitos, filhas. ­ Dizendo-lhes isto, o pai com ar triunfante, abraçou-as e ambos lá se foram serpenteados até se perderem das vistas.

Algum mês já era passado desde quando a Ngeve avistou-se com o intruso animal e a necessidade de fazer a colheita de lenha no bosque continua. Bem ela queria escusar-se desta tarefa se não fosse a relutância do pai Sahúnli em vê-las distribuídas por tarefas domésticas.

Achando-se na nefasta lembrança dos encontros anteriores com o leão, pensou ela refugiar-se para uma localidade julgada distante do raio do mamífero, na ansia de não vê-lo mais. Nem a norte, nem a sul por ter lhe encontro lá. Não esperando avistar-se com o trípede no bosque a leste da casa, de nada ter lhe valido, a Ngeve seguiu ao reencontro.

Olá! Estás bem, Ngeve? ­ Abjeto e desprezível saudou o leão com um assomo de indignação no tom e contendo-se jorraram-lhe da memória as palavras insípidas de que foi alvo em primeira vista que de todo deixaram-lhe com a cabeça perdida:- «Gostei. É só o cheiro. Cheira muito mal».

Ora sentindo-se por ventura segura, foi bruscamente interrompida pela terceira presença do inoportuno que à semelhança das anteriores sugeriu, propôs, ordenou e ela de espírito morribundo cumpriu.
- Ngeve, olha para mim.- Atalhou o leão com rudeza esperando obediência.
- Observa bem no meu dorso que bateste até sangrar, ainda sim, levei-te para a casa. Tempo depois apenas a cicatriz que restou, sem sangue nem dor. Mas, aquilo que me falaste na primeira vez, «Gostei. É só o cheiro. Cheira muito mal», sem sangue nem cicatriz, até hoje continua a doer.

Por esta, sem a mesma firmeza, com ar arrogante nos olhos faiscantes de cólera, não cedendo moratória, a sangue-frio o leão cobrou da Ngeve o passivo, cuja fatura excedida, pagou-a com a própria vida.
Agora que o destino expôs a arrogância deste adversário desalmado, a Ngeve não hexitou em salvar-se. Sem sucesso, o mamífero saciou a sua vingança.




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