ANDULO, IDA E VOLTA

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Vinte quilómetros, talvez um pouco mais, era a distância que separava a loja da vila do Andulo.

ANDULO, IDA E VOLTA
Panorama do Andulo, anos 60

Um percurso que Abel gostava de fazer, especialmente de manhã, quando se levantava muito cedo, matabichava à pressa, atravessava o terreiro, ia até ao co­berto improvisado de garagem, mandava o ajudante subir para a caixa da carrinha, entrava na cabine, dava ao arranque e partia.
Apesar de escassos, naquele piso de terra batida, cheio de lama na Estação das Chuvas e de pó no Cacimbo, os vinte quilómetros custavam a vencer. Quase uma hora aos solavancos no banco forrado de pele de zebra, mãos firmes no volante, desembraia, mete mudança, trava, desembraia de novo, outra mudança, trava outra vez, a mata rala típica da região de cada lado da estrada, onde o sol acabado de nascer começava a entrar, dando forma aos troncos, aos ramos e às folhas das árvores.
Uma curva apertada à frente, depois subir, subir, até ao cume, a seguir descer, descer, mas antes de continuar, quatro ou cinco minutos apenas, parar a viatura, olhar a baixa lá longe, coroada de um nevoeiro feito manta de algodão, que dava gosto ver. A África, Angola, o Bié eram isso: cada pedaço de céu, cada pedaço de terra, ganhando cor conforme a manhã avançava; a luz que era só luz de princípio, mas calor daí a pouco, luz e calor como não havia outros no mundo, iluminando e aquecendo tudo como uma bênção.
Abel era pouco dado a reflexões. Com os seus vinte e nove anos de existência, achava que um homem admirar a Natureza, uma montanha ou um vale, um rio ou um lago, uma planta ou um animal, era perder tempo. Lembrava a propósito que tais esquisitices cabiam aos artistas, gente estranha e doente...
Não era dado a reflexões. Mas caramba!, tinha de concordar que o que via ao fundo era belo. Sim, senhor, merecia respeito.
Já na vila, procedia como de costume: ia ao barbeiro cortar o cabelo, aviava-se do que precisava para repor os stocks da loja e a despensa da casa, enchia de gasolina e petróleo os bidões vazios que trouxera, visitava dois ou três amigos. Pontualmente à uma hora, batia à porta de Manuel Ferreira, seu «colega de ofício», como referia em tom lisonjeiro, onde Dona Maria Deolinda tinha sempre à espera um petisco delicioso: «Um pitéu de lamber os lábios, de deliciar o corpo e apaziguar a alma!».
Ele nunca explicara por que referia a alma a tal respeito, mas repetia a frase tão convictamente, com tanta certeza na voz, que parecia não ter dúvidas nenhumas sobre o assunto:
— De apaziguar a alma!
Dona Maria Deolinda agradecia o elogio. Corava muito, baixava os olhos sobre a toalha, fingindo discordar:
— Ora, ora... O amigo exagera. Come-se, come-se, isso é verdade.
Com o corpo deliciado e a alma apaziguada, Abel despedia-se:
— Até à próxima.
Entrava na carrinha. Já dentro da cabina, deitava o braço de fora e acenava um repetido e último adeus:
— Fiquem bem!
Passava ainda pela Administração, onde demorava. Gostava de conversar com o Aspirante Alcides, com quem mantinha relações estreitas desde a morte de Isabel.
Com as novidades em dia, regressava finalmente a casa. O mesmo percurso, a mesma estrada, mas agora em sentido inverso. Seguia mais devagar, porque a carrinha estava carregada e era preciso todo o cuidado para não quebrar uma mola.
A tarde declinava. Os troncos, os ramos e as folhas das árvores esfumavam-se no lusco-fusco do crepúsculo.
A noite vinha aí, mas antes de cobrir tudo de sombras, de novo em frente, lá longe, dava tempo ao sol de mergulhar na linha do horizonte. Um disco dourado, uma laranja gigante e amarela de madura, que minguava, minguava, cada vez mais pequena, menos redonda, até desaparecer completamente.
Tal como de madrugada, quando a manhã despontava, Abel poderia repetir que aquilo que via era belo; sim, senhor, muito belo e merecedor de respeito.

(do romance «O Pecado Maior de Abel»)

Inácio Rebelo de Andrade


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