Aquele amor

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Depois de um ano laborioso, as férias são sempre bem-vindas. Naquele ano, ainda não distante, Luís Maria convenceu dois antigos colegas a irem redescobrir o país onde haviam feito a formação superior.

MARIA CELESTINA FERNANDES

Depois de um ano laborioso, as férias são sempre bem-vindas. Naquele ano, ainda não distante, Luís Maria convenceu dois antigos colegas a irem redescobrir o país onde haviam feito a formação superior.

Não foi preciso utilizar muitas palavras para motivá-los. Disse que seria interessante reverem o país, onde tinham passado anos importantes das suas vidas e também que era uma forma de se livrarem, por alguns dias, do stress causado pelo trânsito diabólico, falhas de energia e água, barulho ensurdecedor das potentes aparelhagens dos organizadores de festanças e dos geradores, um mal tornado indispensável para tudo e todos.

E o Tonho, o amigo cómico, não perdeu a oportunidade para lançar uma piada: – Gerador é a fonte segura, a outra é a alternativa das horas incertas! Eu então estou ma e, male, o fofandó está m’bora a babar óleo, e agora? Só luz de velas ou então abrir as janelas para receber a luz da lua.

O pior é que na boleia do luar entram os mosquitos com o paludismo deles, melhor mesmo é aguentar já a escuridão e esperar pela luz do sol, ah, ah, ah– gargalhou.
– Acho que chega de lamúrias, já houve tempos piores, não houve? Calma, dias melhores virão, vamos lá ao que interessa. – falou o Luís Maria e prosseguiu – Estava a propor irmos passar as férias em Marrocos, era bestial voltar àquele paragens numa situação diferente da de bolseiro. Fora as dificuldades, guardo boas recordações.
– Boas recordações e uma paixão que nunca se extinguiu! – lembrou oTonho.
– Foi o primeiro verdadeiro amor e não terminou por deixar-mos de nos amar. Estávamos conscientes que era uma relação difícil, devido aos preconceitos, mas prontos a enfrentar todas as barreiras; ela, inclusive, estava disposta a fugir comigo. Ainda se lembram do significado de Aini, o nome dela?
– Sei lá pá! – despachou um deles.
– Oh, então não é flor, primavera? – o Luís Maria fez questão de relembrar.
– E nós a torcer para que tudo desse certo, até estávamos dispostos a coadjuvar na fuga, loucuras da juventude..., recordo-me bem do desespero da Aini quando a família descobriu que vocês namoravam, foi um drama terrível e por pouco não fomos todos expulsos, por causa da trama que urdiram para nos queimarem – foram cogitando os amigos, cuja cumplicidade o tempo não fez esmorecer.
– Evaporou-se, nunca mais consegui saber nada dela, através de uma amiga ainda fui informado da tortura a que foi submetida. Mas depois a amiga deixou de me falar, fugia de mim e cheguei a ser ameaçado se continuasse a tentar aproximar-me, foi muito doloroso. Mas enfim, o tempo passou e só resta aquela chamazinha lá bem no âmago. Ainda guardo algumas lembranças, a minha mulher sabe e nunca aceitou o fantasma da Aini, eu compreendo, ela é mulher, mas no coração ninguém pode mandar – Luís Maria foi-se abrindo.
– Ei, ei, companheiro, não nos convocaste para beberes e ficares a rebuscar o passado. Se calhar a rapariga nunca mais pensou em ti, sabes que elas tinham muitas carências, até do ponto de vista sentimental, e muitas vezes o interesse era de nos explorar, extorquir-nos. Os angolanos mandam goela, dão sempre a impressão que têm mundos e fundos! Por outro lado, elas e eles faziam de tudo para nos converter ao islamismo. O mais certo é a rapariga ter encontrado alguém entre os seus. O que é que pensas? Para aquela gente não passavas de um atrasado, um impuro… – um deles fez questão de sublinhar.
– Não, ela era diferente, se assim não fosse, não estaria disposta a fugir comigo? Mas não obstante a desilusão, quero voltar, quero descobrir o que não vi.
– Também quero. Agora que já não andámos a contar os tostões, vamos poder desfrutar de muita coisa e como já conhecemos o terreno e muitas das artimanhas, ninguém nos vai aldrabar, vai ser bué! – gracejou o Tonho e adiantou com o mesmo humor – O que eram as nossas diversões? Jogar futebol com os irmãos bolseiros de Cabo Verde, Guiné e São Tomé. Tínhamos uma equipa bem formada, não é?
– Lá isso tínhamos, grandes trumunos disputámos na cidade universitária de Souissi e não só! Mas tínhamos também as atividades culturais e religiosas na igreja protestante de Rabat e nas férias as visitas a alguns locais emblemáticos – momentos que os três não podiam esquecer.

Preparam a viagem de férias e partiram eufóricos. A mulher de Luís Maria ficou enciumada por o marido não a ter convidado, chegando a pensar que ele ia à procura da dita Aini.
– Os outros também não vão levar as esposas, nós só queremos ir repousar um pouco e recordar uma passagem da nossa vida estudantil, tu irias ficar deslocada. Mas fica prometido, para a próxima vais tu e os miúdos também, agora vou ver como está aquilo, passaram muitos anos...
– Prometido é devido, vamos-te cobrar e ele avalizou:
– Não há maka, filha!

A primeira paragem foi em Casablanca. Todos repararam e comentaram as mudanças, o desenvolvimento era notório. Ficaram alguns dias por lá, hospedados num hotel de quatro estrelas, bem acomodados, diga-se de passagem!

A área de lazer do complexo hoteleiro dispõe de um jardim fabuloso, piscina, redes espreguiçadeiras, corte de ténis etc., e eles disfrutaram o máximo.

O emotivo Luís Maria reagiu ao ver as flores de laranjeira nas laranjeiras do jardim. Cortou um raminho, levou-o ao nariz e inspirou de olhos semicerrados:
– Cheiro tão agradável! Nunca mais tinha visto laranjeiras em flor, a pureza e o perfume acoplados…
– enfiou depois as flores no bolso, os outros repararam e piscaram-se os olhos.

Andaram a visitar os locais turísticos mais referenciados, particularmente a cidade antiga, bem no alto e com uma magnífica vista para o mar. O passeio do primeiro dia terminou no famoso centro comercial Marocco Mall. Enquanto andavam de loja em loja, descobriram a fonte das águas dançantes e o aquário gingante. Perderam-se nas compras, sacos e mais sacos e ainda só estavam na primeira cidade…

Rumaram para a Tanger, hospedaram-se num hotel de arquitetura e ornamentação tipicamente árabe, uma maravilha! Foi em Tanger que andaram de camelo e tiveram um copioso almoço na piscina de um restaurante à beira-mar. Tinham o cuidado de escolher os que serviam bebidas alcoólicas, porque dois não dispensavam uma cervejinha bem a gelada. O Roldão deliciava-se como chá marroquino.

Depois, em Rabat, a cidade onde tinham estudado, andaram a revisitar os locais turísticos e culturais que já conheciam: a parte antiga da cidade, o mausoléu real, o palácio do rei, Medina, o mercado, parques e jardins e fizeram compras.

Não era a mesma Rabat que tinham deixado anos atrás, havia muitas construções novas, boas estradas, muitas viaturas e uma condução quase tão doida como a de Luanda, as motorizadas também se enfiam e aparecem onde menos se espera.

Ficaram orgulhosos ao ver a bandeira da Angola flutuar no mastro da embaixada, na época deles ainda não existia representação diplomática naquele país.

Como um deles fez anos naquele período, foram almoçar a um dos restaurantes da marina e à noite passaram numa discoteca, apenas por curiosidade.

Entretanto, Luís Maria procurava descobrir a Aini entre as mulheres com quem cruzava, fixando-as muito discretamente. Na faculdade ela trajava-se como qualquer rapariga do ocidente, mas talvez agora usasse burka e manto na cabeça, como uma boa parte das marroquinas, imaginava.

A última cidade que visitaram foi Marraquexe, uma cidade com características peculiares, a começar pela cor das paredes que são todas pintadas com tinta da cor de terra vermelha, daí o nome de cidade vermelha.

E o Tonho, ao reparar nos laranjais que se viam por todo lado, fez um reparo:
– Se fosse lá na banda, estas laranjas assim mesmo a olharem para nós sem ninguém tocar, nunca mais! Nem sequer deixavam amadurecer…
– É porque têm muito, eles são grandes produtores e exportadores de citrinos –justificou o Luís Maria.
– Não sei se é a fartura ou a disciplina que impede, nós somos mesmo indisciplinados, gostamos de contrariar, desafiar…– insinou o Roldão.
– Lá isso é verdade – acabaram por assentir os três.
Do hotel onde se instalaram, podiam divisar o cume das montanhas da cordilheira Atlas cobertos de neve e acordaram chegar até lá se um dia voltassem àquela localidade.
– Eu vou ter mesmo de voltar, prometi à patroa – disse Luís Maria.

Guiados por um cicerone, visitaram ruínas de antigos palácios e monumentos. À noite foram à praça Jemma e andaram pelo movimentado mercado Souk, onde se vende e se comede tudo, à semelhança do nosso extinto Roque Santeiro. Ali as pessoas são insistentemente assediadas pelos vendedores, com os quais regateiam os preços até a exaustão.

Embora a maioria deles só fale e entenda o árabe, em questões de números todos se entendem. E como acontecia no ex-Roque, os turistas angolanos foram advertidos para terem o máximo cuidado, porque os donos do alheio estão atentos a qualquer descuido.

Aliás, mesmo nas lojas dos grandes centros comerciais, os vendedores tentam vigarizar, de maneira que vale sempre a pena verificar os sacos, para não se levar gato por lebre, isto em todos os sítios.

Luís Maria comprara um estojo de produtos de beleza da marca l’occitane, uma marca que a mulher apreciava. Para espanto, quando ela o abriu, verificou que o frasco da água-de-colónia estava completamente vazio. O marido ficou boquiaberto. Barafustou, ofendeu, mas já era muito tarde, há quantas pessoas já terá ela enganado com o mesmo truque?
Perguntou-se.
– Bolas! E eu a pensar que ninguém nos enganava, caí que nem patinho, besta duma Miga – ainda resmungou quando contou o sucedido ao Tonho.
– Possa! Aquela gente é mesmo craque, como foi possível sermos enganados daquele jeito, nós estávamos a vê-la arrumar frasco por frasco na caixa, cachorra, se eu a tivesse apanhado...
– Ias fazer o quê? Já te esqueceste das impunidades? A última visita foi ao Jardim Majorelle e saíram de lá maravilhados coma beleza e a tranquilidade. Recantos repletos das mais variadas espécies de plantas e árvores, muita cor, muita água em repuxos e laguinhos, um museu sobre a cultura berbere e outras curiosidades.
Andaram, andaram e ninguém se queixou de cansaço, nem uma única vez se sentaram nos bancos.
– Nem sinto cansaço, acho que ninguém se cansa de estar num sítio tão belo, tão tranquilo. Não admira que Yves Saint Laurent se refugiasse aqui para buscar inspiração para os modelos que fez desfilar pelaspasserelles do mundo – disse a dado momento o Roldão, o homem de poucas palavras.
– Sem dúvida, meu kamba, isto é inigualável, vou recomendar! – falou o Luís Maria enquanto se encaminhavam para a galeria onde se encontra a coma exposição dos cartões que o estilista desenhava para enviar aos amigos por altura das festas de fim de ano, todos sob o lema do LOVE.
– Uau! C’est vriament beau,,, – e quando se preparavam para fotografar, foram rapidamente interditos pelo zeloso vigilante.

Entraram no museu da cultura berbere, quanta coisa para aprender…, e andando em direcção à saída desembocaram no memorial erigido em homenagem àYves Saint Laurent. Ficaram algum tempo a contemplá-lo, respeitando o silêncio inscrito no epitáfio.
As férias chegaram ao fim. Belas férias! Deu para recarregar as baterias, não se cansavam de dizer.

Apanharam o comboio de volta a Rabat, onde deveriam passar para apanhar a bagagem que ficara à guarda do hotel. A viagem de regresso foi tranquila, entre cochilos e conversas animadas. Bastava o humorista Tonho estar acordado para os outros não conseguirem pregar o olho, fazia anedotas de tudo o que via.

Quando o comboio parou na penúltima paragem, Luís Maria foi para o corredor e ficou a contemplar a azáfama da entrada e saída de passageiros. Entretanto, o comboio apitou, as portas fecharam-se e as carruagens começaram a movimentar-se. De repente, o Roldão e o Tonho ouviram o companheiro falar tão alto que saíram apressados da carruagem.
– É ela, é ela! – dizia fora de si.
– Ela quem, piraste ou quê?
– A Aini, a Aini..
– Onde está?
– Desceu, desceu, vai ali, era ela de certeza.
Se não fossem os companheiros era capaz de forçar a porta para se arremessar.
– Estás com alucinações, homem. Dentro daquelas vestes como podias reconhecê-la? – espantaram-se quando viram a mulher de costas, para a qual ele apontava.
– O olhar, o olhar, ela estava a olhar para aqui.
Os amigos empurraram-no à força para o assento da carruagem de 1ª classe onde viajavam.

E perdido, olhando para o vazio se manteve Luís Maria até a estação terminal. Pela aparente perturbação, os companheiros concluíram que ele regressava a buala com o fantasma da Aini vivificado...

Maria Celestina Fernandes, Assistente Social e Licenciada em Direito, membro da União Dos Escritores Angolanos, iniciou a carreira literária no início da década de oitenta, coma publicação de contos em páginas de jornais. É autora de diversos contos infantis, romances e poemas. Em 2008 foi-lhe outorgado pelo Ministério da Cultura o Diploma de Mérito “pelo seu contributo persistente na valorização, promoção e divulgação de contos infantis e da prosa Angolana”. Em2009 foi-lhe outorgado o diploma “Altamente Recomendável” pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil do Brasil pela obra ‘A árvore dos gingongos’.Em2010 ganhou o prémio de literatura infanto-juvenil “Jardim do Livro” como conto ‘As amigas em Kalandula’.Três vezes nomeada para o prémio sueco Astrid Lindgren.

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