Baía do Mbinga

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Entre o céu e o mar, sem perigo de vida, mas com perigo de amar, o Mar.

Baía do Mbinga
Vista geral da Baía do Mbinga

Entre o fundo do rio e a corrente do próprio rio, com perigo de ir e não mais voltar.
Abraços, para quem já se conhecia, apresentações, para quem pela primeira vez, se via. A partir desse momento e durante quatro escassos dias iríamos ser uma só família. Animava-nos o mesmo espírito de irmandade, solidariedade, e aventura.
Caravana completa, uma dezena de Jipes transportando três dezenas de amantes do ” Turismo Rural e Aventura” , liderados por
um aficionado de locais:
Míticos como o Dombe Grande, onde o fel da bexiga do Jacaré, usado para o mal como o envenenamento de pessoas, poderá ser proveitoso
para o bem, tratamento do cancro.
Inóspitos, como o princípio do Deserto do Namibe, onde não chegamos a ser engolidos pelas finas areias soltas e o azul do Celeste.
Infernais como o efémero rio Tchimo (Cimo) ou Equiminha, que no nosso local de passagem, só é rio quando chove, e só chove de anos a anos. E como não demos antecipadamente de comer à Ulunga, divindade dos Rios, ou Dikunji como lhe chamam os Kimbundos, a chuva deu o ar
da sua graça, este ano e nestes dias, restando-nos transformar os nossos popós, em anfíbios de aventura e coragem.
Houve quem tivesse mais coragem, e, contra a corrente, atravessasse o rio Tchimo nadando para além do mimo.
Lembro-me agora, de um ditado Lunda, que diz: “Quando a corrente do rio é forte, resta ao caranguejo baixar a cabeça”. Como
erámos da área Kimbundo, avançamos, transpondo a barreira natural, maravilhados com tudo o que já tínhamos visto, cheirado e saboreado.
No desvio da Meva, o guia aliciava-nos com mais doces, e, como felizmente ninguém era diabético, aguçamos as papilas gustativas, para o que de melhor houvesse para deliciar.
Constatados os escombros da açucareira do Dombe Grande, que para trás ficaram, logo o doce não era açúcar mascavo.
Afinal o doce era o mel, das águas cristalinas do mar, nas brancas e finas areias que suportavam a serenidade da água, no silêncio do vento, que sem se mexer formava enseadas, resguardadas por mestiças falésias, que eram tão doces, tão lindas, tão fortes quanto as nossas gentes.
Ao anoitecer, quando entramos no mar, a Corrente Fria de Benguela fluindo de Sul par a Norte com os seus nutrientes, enriqueceu-nos os corpos, tornando-nos de novo adolescentes.
Ninguém mais queria sair dali, eram águas nunca antes navegadas por nós, eram locais:
Paradisíacos, como a Baia da Mbinga, de águas calmas verde-esmeralda, areia fina exibindo a sua sílica, peixes vidrados, picando-
nos o corpo, por estarmos a ocupar o seu o habitat natural. Isolados, como a Ilha dos Pássaros, que não é a do Mussulo, mas a de Benguela, onde
tal como nas outras não há vida humana, mas há música, há orquestras sinfónicas, com uma panóplia de instrumentos, com gaivotas a lerem partituras, deliciando os nossos ouvidos, quebrando o nosso coração.
Incógnitos, como os mares por onde os também aventureiros portugueses navegaram, vindos do Norte do Reino do Kongo, do Rio Zaire, onde marcaram a sua presença ao que apelidaram Cabo de Santa Catarina, colocando na embocadura do Rio, o primeiro marco de pedra, o Padrão
de São Jorge, por volta de 1480, tendo sido este, mais tarde destruído, no fim do Seculo XIX por um navio de guerra Inglês.
Históricos como o Cabo de Santa Maria, primeiramente apelidado de Cabo Lobo, que dista cerca de 200 quilómetros do Sul de Benguela, e de 150 a Sul da Foz do Rio Coporolo, onde a 23 de Agosto de 1483, o Navegador Português Diogo Cão, enviado com a sua frota de Caravelas pelo então
Rei de Portugal, D. João II, atracou.
Tendo aí colocado no cimo do rochedo o Padrão de Santo Agostinho, em Angola o Segundo, trazido de Portugal, feito de uma só peça de calcário das pedreiras de Lisboa, onde ainda hoje, cinco Séculos depois não se imagina como homens lá tenham chegado, pois só o avistamos cá de baixo,
com bom esforço da lente da máquina fotográfica do Mané Santana.
Este Padrão, encontra-se em Portugal, na Sociedade de Geografia, para onde foi levado no fim do Século XIX, permanecendo
no local só a base.
Do Primeiro Padrão, da Foz do Rio Zaire, restam-nos também os destroços no fundo do Rio, pois os marinheiros de um navio Inglês decidiram fazer “Tiro ao Alvo”, destruindo-o. Para confirmação, vieram a terra numa barqueta, buscar os destroços como prova do crime. Diz a Lenda que o feitiço
foi tal, que o barco virou e os restos mortais do Primeiro Padrão colocado pelo Navegador dos Padrões Diogo Cão em Terras Konguesas, jazem no fundo do Rio.
Acerca do Padrão de Santo Agostinho, Fernando Pessoa escreveu:

O esforço é grande e o homem é pequeno
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.
A alma é divina e a obra imperfeita.
Este padrão assinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.
E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.
E a cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.
(Fernando Pessoa, Mensagem)

Sui generis, como a Baía do Conoco, aquário natural de águas salgadíssimas, de sobrevivência humana impensável para nós, mas natural para cerca de uma dezena pessoas entre homens pescadores, duas mulheres e várias crianças, que comem simplesmente peixe seco e fresco, e saciam a sede com o pingo escasso no tempo, da “árvore da água” que se encontra encrostada na rocha.
Os homens da família habitante desta Baía, sobem a falésia com destreza, habilidade e agilidade, como se estivessem a andar em plano numa avenida, para ir ao outro lado da rocha, em direcção a vizinha Meva.
Temos por hábito dizer que os cães não comem peixe, ora por causa das espinhas, ora porque cão não se adapta a este alimento. Na Baia do Conoco, só há peixe seco ou fresco para comer e, quem não pesca, não come. No dia 7 de Março de 2016, em que visitamos este inóspito local, os pescadores disseram-me que, na véspera os cães tinham pescado um peixe com bico comprido de aproximadamente 8 metros de comprimento,
ao qual eles chamaram “Prego”, ( Marlin ) e que, segundo eles, foi empurrado para a Baia fugindo de outros peixes maiores e, tão logo detectado, os rafeiros atiraram-se à água, cercando-o, não o largando enquanto os seus donos não viessem, não fosse ele fugir, o que tornou fácil
a pesca ou melhor a apanha do mesmo, dado os seus instrumentos de pesca serem rudimentares.
Uma rede de pesca, permanentemente colocada para reter e conservar o peixe vivo dentro da água, é retirada para recolha todos os dias às 13 horas, e colocada de novo.
Barquitos (mini-chatas) parqueados em linha, ligados uns aos outros por uma corda, de tal jeito que, quando necessário basta puxar em terra a corda e soltar só o barco que for preciso, que poderá ser o do meio, não desamarrando os outros, que se mantêm no seu lugar na linha.
As crianças, quando a família decide que já estão em idade escolar, vão para casa de algum parente ou amigo em O’Mbaka (Benguela)
para estudar, não mais voltando.
O hospital mais próximo é o de Benguela, demorando horas a chegar de barco até onde podem.
Navegando pelas enseadas do Litoral Sul de Benguela, pelas Praias da Limagem, da Juliana, do Galo, Baía e Pirâmides da Meva, a natureza contempla-nos com de tudo um pouco, sol brilhante, pouco vento, mar azul cristalino, falésias de cor morena decoradas ao de cimo com um manto branco leitoso como se de neve se tratasse, eram apenas minas de rochas ornamentais, e de cristais de quartzo transparente.
A fantasia do mar e a do nosso guia, não foram suficientes para nos levar a escorregar Atlântico abaixo pela rota de Diogo Cão, quando este, achou ter descoberto o caminho marítimo para a India, ao direcionar-se para Leste, e ter inclusive escrito para Lisboa, dizendo ao Rei João II, que
a India seria Portuguesa.
O brilhar dos olhos do Descobridor, foi sol de pouca dura, pois as Caravelas ao virarem para Leste, entraram numa grande enseada, a da Lucira Grande, denominada de João Lisboa, em homenagem ao Rei Português.
Diogo Cão foi contemplado com o anonimato pelo Rei, por esse crasso engano. Essa baía como não se vê do mar, serviu de abrigo aos barcos portugueses, para não serem atacados pelos alemães, na segunda Guerra Mundial.
Nem todo o Mar tem saída, nem toda a terra tem porta.
Adrenalina, sem alegria, sem música e sem ritmo, seria um óbito.
Para nos revitalizarmos para o dia seguinte, a noite era cultural, o primeiro voluntário foi o nosso querido Artur Neves, que se junta ao grupo em qualquer ponto de Angola, com as suas mais que tudo: solidariedade, viola e voz segura.
E como músico puxa músico, o gostoso primo Tony Jackson, também, sempre muito bem acompanhado pela sua voz doce e serena, cantando em inglês, português, italiano, espanhol e brasileiro, deu o seu toque profissional. Deslumbrados ficamos, com o canto e a récita do Gégé Belo, acompanhado de sua bela e estimada ”Garota de Ipanema”, e da Infância, poema do livro “Canto do Martrindinde”.
E, a Ester Guedes, que se estreou perante nós, com um poema de Carlos Ary dos Santos, brilhante para quem não decora os seus próprios versos.
Desta vez, ainda não tive coragem de recitar um poema meu, hei-de lá chegar. Mas, mesmo com sono, cansaço, e rouquidão, não deixei de espantar os males da vida, presenteando-os com os poemas do poeta maior de Benguela, Ernesto Lara Filho, do livro “ o Canto do Martrindinde” e
poema do mesmo nome e outro do livro Picada de Marimbondo, do mesmo autor, o “Amor de Mulata”.
Por fim, as companheiras de longos quilómetros e rudes picadas, Maria Carneiro, Malena Novaes, e Júlia Monteiro, brilhantemente recitaram comigo, o poema do mesmo autor “ Nós iremos”, nós também”, verso que passou a acrescentar ao mote, “ Onde a Trevogel for”…, Hino da Operadora Turística. Com Gel ou sem Gel, viaje para fora cá dentro com a Trevogel, acrescentaria o Charlie-Charlie.
A música, não foi só na Mbinga. Os artistas, da caravana, decidiram dar um presente às MULHERES em véspera do 8 de Março, nosso dia Internacionalmente consagrado.
O silêncio vibrou, desvanecendo o cansaço dos corpos, metendo Benguela ao rubro desta vez não só pelas acácias, mas por nós mulheres que, cantando e dançando paramos toda a Zona e tudo o “+” quanto ao seu redor estava.
O dia seguinte, adivinhava-se grandioso como o Kikombo, quente como a brasa do carvão.
Os Kalundus que enterraram e desenterram os Jeeps no rio Tchimo, tinham de ficar nalgum lugar, não nos podendo acompanhar até ao destino. Decidimos então afundá-los “ indo a banhos”, na praia junto ao antigo Clube Naval, naquela que foi Aldeia de Kisonde, depois, em 1578 com a fixação portuguesa, Benguela-a-Velha e, desde 15 de Janeiro de 1974, Cidade de Porto Amboim.
Mergulhamos os carros no rio Tchimo, nadamos no Atlântico, cortamos picadas no Meva, conversamos, no Dombe Grande, com gente dos povos “Nhaneka” (de origem Mumwila) e “Mundombe” (mixegenação entre Nhanekas e Ovimbundos), caminhamos descalços sobre as pedras de
quartzo brilho vítreo, respiramos ar do mato, e já perto da Barra do Kwanza para que tudo fosse brilhante e límpido, no meio da estrada, sem ler nem escrever, a Bandeira Nacional parou, apaixonando-se pelo mais lindo Pôr-do-sol.

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