Bichota da velha baixa

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Bichota Xaxada sempre se pensou mulher já feita. Saía atirando intimidades pelos cantos, na luz e na sombra, da rua, da ruela e do beco em diante.

CONTO

Ainda na flor dos 17 anos e já a moçada de fífias lá do prédio conhecia aquelas esquinas do seu corpo que as roupas miúdas por vezes fingiam guardar.

Todos a queriam. Mas quase todos já a sabiam. Bichota sagabava por isso.

A sua mana, Ximita Xaxada, muito mais comedida e religiosa, media os palmos e, tal como a sua mamã Fefa, também aconselhava a sua irmã a ter cuidado com a vida. Avisava com sexo não se brinca.

Dizia diziam mana Chela lá da praça Maria da Fonte, primo Pedro da CADA, Teresuca da dona Amália, Avelino do Musseque Cabeça e Melinha do bairro Saneamento parece morreram dessas coisas do sexo. Mas pensa Bichota queria saber?

Nessa vida, Bichota andou por algum pouco tempo, pelos prédios da baixa luandense andando. Do Prédio Campeão ao Colorama, cruzando o cinema Império até chegar às portas do bairro Indígena. Andou andando, andou andando instruindo lares como alimento de sonhos alheios, alimentando esperanças, pesadelos e desejos, metendo engates e tirando manias. Bichota papava sem papas no corpo.

O seu fogo não se apagava. Mas o dos outros ela extinguia como um bombeiro voluntário bastante activo.

Na baixa luandense, poucos queriam dispensar uma chamazita quando a Bichota Xaxada estava por perto. Sempre disponível e acessível, com as suas exuberantes pernas e roliços peitos cheios, com os lábios fingindo serem flor de erva daninha cujas pétalas se abrem gulosamente bastando nascer o dia.

Mas foi efémera a sua mangonha. Hoje, todos lembram Bichota Xaxada, a menina do Largo Almirante Baptista de Andrade, amada até pelo afamado major do prédio Carvalho & Freitas. Menina frequentadora da geladaria e cervejaria Baleizão, ao Largo Infante D. Henrique.

Menina que no Liceu passeou charme e repetidas ausências nas aulas. Até antigos professores sentem a falta dos seus engates e atrevimentos.

Contam mesmo mulheres casadas se lembram dela com nostalgia, porque homem alheio sempre devolvia quase inteiro poucas horas depois.

Não como outras que queriam tudo e estacionavam já como segundas. Mesmo quem viveu na Calçada do Município já deve ter ouvido falar dela.

Ainda hoje o seu nome passeia pinchado com o morto castanho morto do avô abacate, em paredes encardidas de vivos prédios mortos já cansados e maturados pela história, que maltrapilha por desreconhecer neles passos do passado.

Quem a conheceu sabe que Bichota ficou nessa vida eternamente, embora, dizem que por doença no sexo, tenha existido entre nós numa vida bastante curta.

Em Luanda, aos 25 de Janeiro de 1999



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