(cidades sem poros)

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Mas, tão tarde que é, tão tarde já, a pele sobre o peito e o escuro vazio lá fora, tarde, será sempre tarde, ainda que os olhos vejam quão longe se viaja, tarde é acordar cedo pela manhã escurecida ainda, ai que vontade que não tenho, alertando o cansaço, descobrir após os primeiros passos que a dor de caminhar está perto, tão perto, sobre a pele do peito.

(cidades sem poros)
Obra de Guiezf

A cidade sem poros caminha em direcção às trincheiras do resto oculto dos vapores do sono, vergados cambaleiam o sabor suado como o dum fado que me preenche de vago e choro, vergam as estribas e os dedos não esticam, não, não apontam, ai como é feio indicar esticando o dedo ao fútil do silêncio sem poros, rasgando como nuvem a ribeira dum quarto, o casal que repousa sob a orla divina um amor só seu, não se aponta a nada e tudo que assim for é cortado desta rua onde se vive sem vida, uma vida estriba, fútil, de garrafas vazias dum serão preenchido enchendo a alma de fogo, e tarde já, como sempre aliás.
Entre caules que me trepam a vida surge, as ondas são visões que me albergam no silêncio, diante os nadas do horizonte, um espelho rasgado com arrogância enche a áurea díspar do caminho e eu sigo, resma de lágrimas há vida que acontece. Deito-me por desplante, reconfortaria a noite como rugidos emergidos e eu não sei sequer falar, a minha vida é a sucessão destes caminhos que se perdem nostalgicamente inventados, na algibeira o salitre recto dum balcão que me envolve nas circunstâncias efusivas como qualquer outro, bebo e não sei sequer sentir como perco a vida. Estiolam como tábuas as visões que não existem, raro e sei, a margem que me empunha, uma arma me matará, basta para isso detonar o gatilho da impaciência e ouvir como um eco o grito da noite perder-se como gânglios de frio, arremessados para fora dos olhos. Busco sem requinte o requinte opaco das janelas abertas, vagos os vários sentidos que me associam às constantes essências e rogo apelos e perco, a substancia é algo deste vazio e vernáculo insensível de capas onde moramos, baixamos o rosto e fingimos com despudor o resto que são os outros, uns, filhos do acaso e nós nem casa de nada, algum dia tudo isto há-de rebentar e nem sequer olhamos à nossa volta. Cansa-me esta vida de tédio, este nefasto fingimento da existência, a vida é uma sobranceria de todos os momentos e por eles, passo a mão do desprendimento, libertando como um jardim, o oásis da alegria. Solto de mim a arma que há-de liquidar de mim esta saudade sem rumo. Há fumo demasiado e nem consigo sequer vislumbrar o cárcere do meu fígado. Faz-se de sonho esta bebedeira e apenas desejo acordar mais tarde, ou quando estiver já nas têmporas opacas deste céu cobrindo o meu caminho, nasci numa hora em que o sol já derretia a sanidade, e vim prostrado como o poster colorido deste salão cru de festas onde desejo estar nunca.
Há um casulo sóbrio a percorrer-me os instantes, e eu fecho os olhos para não adormecer. Encho de cores o tempo que me escorre ao acaso, as portas curtas são presságio do silêncio, do momento, as portas cruzam-se na alma e cerro o meu corpo nas entranhas do além, como a cálida viagem me sorri, talvez sinta um dia. Pelo canto, onde só as palavras me sossegam, há palavras onde? Pousar na colher do tempo como discípulo do vento, onde o olhar repousa. Gestos de cadafalso Teresa, mares por passos, sigamos, ouçamos de longe este lado a lado como a falésia brilhante, descobre um céu coberto e nada escurecido, seremos disfarce do momento desta vida que deslumbra, falsos ruídos, farsas curas, a mente dorida que nada necessita, ou que baile ao vento a ideia serena dos nossos pensamentos. Aproximarem-se dos meus instintos num regalo ostensivo de flutuações nómadas, num recurso atípico somar o desgaste do tempo, devolver às inconstâncias um mundo nefasto ou emparedado, liguem as antenas do sonho e subam as ondas deste vulgar natural, roguem a verdade da vida, reguem as maresias, releguem que importa, o sonho da minha vida é Marte adormecido, é vento desaparecido, ou dor do momento antes que apareças, de semblantes e cânticos seguirei a arte vaga do meu desplante por ti, amando o simples mais vulgar dos meus presságios. Como cada instante me preencherá, da vida, o absoluto fede os rescaldos matinais, agente levanta o corpo e o peso incomoda, o balastro de cada passo a seguir nos leva a lavar o rosto e mesmo assim, névoas ainda a incomodarem a visão. E por aí se segue, ligo um som perturbante a incomodar o silêncio, há momentos em que até silêncio demasiado perturba, preparo alguns condimentos para o desencanto e saio, refresco com um ar velho desta rua ou que importa onde for, os meus passos cansados rumam a cada passo um lugar mais adiante e será nele o que entretanto conquistar, como dizia dona Rita a vida perde-se por desplante e nem por isso acredito, a vida seca a cada dia, agente sem se aperceber, vamos num fulgor alicerçado nas inconstâncias de cada sonho, e sonhar, alimentando cada indiferença por nós mesmos. Se ao menos me esperasses por tempo indeterminado, ate que consiga eu chegar, encostar em ti a distancia do que perco, a vida regela-me.
Sou sonho que naufraga ao acordar, um repente brusco na pele dissipada da vontade, enquanto isso, um precursor dos instantes alojados no momento, reflicto o vazio e nele transporto as minhas essências como num pedestal a noiva ferida. À janela, noite fria, nos espectros uma vontade viajante, dispersiva, como sórdidos desejos enclausurados na vida, o apelo incipiente roga-me longe, e eu não mais que nem sequer ouvi-lo me devoro num tempo retorcido, vou-me ensaboando na jangada voluptuosa dos sonhos, e de ti que persigo nem o odor das mágoas, a memória atraiçoa qualquer silêncio e nós, bebemos deles restos que devoram o cálice dos teus rugidos. Impunemente Paula esquece, a vida rege nela o sabor displicente, certo, que fazer ao que na certeza está bem? Outro caminho invulnerável abrir-se-á e serás após, o glorioso disfarce dos tempos onde em guerra se vivia judeu, numa déspota Alemanha a alma esquecerá que fui resto num futuro de brancos tempos, templos surdos, como Auschwitz caluniante reabre portas à vida entretanto ida, como Platz ressurge e eu nem mais lá, sumindo-me na esfera súbita deste impregnado desejo. Saudosas as memórias de néné paulie, a arma arremessante como voluntário contra mim mesmo, explano-me ainda vendo o vento, bebo ainda sentindo a bebedeira desses dias em que ingeri saudades, e mal dormi, e não sonhei, reelegi-me contra mim num dom sôfrego pedido de inutilidades absorvidas pela verdade, em que seres ónus da religião que esqueço somos num passado a alma embarcada nesta viagem de surdos poetas, numa esfera de pseudónimos inventando quem seria, que eu me inventaria até que me esquecessem as manchas rochas, não na pele e nem sequer na vontade, como se voasses diariamente contra mim nesta cidade que nada de nós sabe. Recordo a frequente ausência, o ilustre vazio, lembro a sagaz displicência, não esqueço a relutante beleza das ancas que fazias espantar a noite, não esqueço o meu sorriso seco, o meu grito adormecido, não perco o medo, a coragem, não esqueço quanta viagem envolvi e aglutinei a este resto de futuro, que a morte sagaz comeu, bebeu e vomitou. Um dia a vida há-de trazer novamente a nós o que seriamos, um devolver de instantes que por força da fome se perdeu, a vida faz-nos membros de si mesma e nela vivenciaremos como discípulos do futuro, como não tocares sequer numa chávena de café, degustavas o odor voando pela tarde, mergulhando a falésia dos sonhos construídos numa tarde esquecida, sabes, aquelas amedrontadas picadelas de alma que faziam tremer o tempo, odor horrível do diesel naquela galp, daquela arte envenenada numa discórdia de vantagens, esperaria mais tempo se acaso nada mais fizesse neste cardápio volátil do amor, sem ti.
Galgo o sono a dentro e sinto como se despedaçam num rol de fios os destinos, esta alma afoga as ânsias e nada poderei fazer, gelam nos pés estoirados os cansaços porque me perco, um sonâmbulo de iras antigas e velhas e não ouço o teu sorriso, a estrada é infinita e ter de continuar é um compromisso com este sonho que há-de matar-me, se por ventura não morrer antes, bebi tudo antes de o alvorecer e sequei em mim esta saudade que me rasga a cada passo. O desplante viaja por dentro deste escuro que me busca, esta marca infinita que me apela e sem saber o seu nome, sou um binóculo do seu desejo que mergulha as águas tépidas da madrugada, e como caminho ainda, como sinto sempre e mais, antes que me evite e não consiga, a vida é parda e não reconhece o meu silêncio. Os dedos gotejam esta garganta amargurada e as memórias estoiram a cada momento, ate sentir o sal da vida escorrer por mim a dentro horas desafiadas em amores constipados, com espirros e destinos que em nada me incomodam. Caminho num vértice paralelo a esta estrada que existirá um dia, nela os restos de uma noite de chamas que a alma me apelara, um mugido frequente estereotipa o meu fígado cansado de viver.
Fumo quando penso nos teus olhos. Quando vejo a cor do tempo. Quando vejo que há tempo. Ah… Nat King Cole na nostalgia dispersiva, inebriante, ah… a poesia dispersiva neste instante em que me envolvo com um nada aquém este estar calmo, cheiro-me cantando o poema que me varre de silêncios.
Ninhadas bárbaras de coisa nenhuma, espalha pelo ausente o figo seco da alma díspar nos beijos, a areia perdida neste mar sem vento, a silhueta do pensamento. Brancos dentes descarnam evasivamente um deleitar de cremes secos a despirem de tempos em tempos como o desejo impregnado na almofada do meu pensamento. A comporta desta alma há-de abrir-se, este sujo sobrevoa a idade, abate por horas como a vida, como quem esquece um nascer precoce.
Ainda assim, como que a reflexão num sonho, um eco do vazio, encho-me na constelação etérea do horizonte, transformando a maresia das minhas exéquias que me preencherão o caminho. Degustam-se tardes sombrias e sem desplante, ou que o despudor me avassale as incertezas e eu a cânfora nesta madrugada, que a sorte rouba por desleixo. Alojas-me a sonhos perdidos, idos num sótão do instante, resgatado dum frio sem pão onde a sacola esmera o resquício do caminho, a palavra ambulante é espaço e sem tempo, seguir que importa, este dormir silencioso irá despertar-me, hei-de beber ânsias e nada impede a verdade, a mão esplanada entre a rua e o vento e sinto assim, algo dispersor, funesto, o coração avassala-me e bebo resquícios sem ânsia, com ânsias, e um dia destes bebo em ti a noite perdida.
Como na parede longe derreta a fantasia, escorre como vento o relógio da margem, do instante, esta alucinação fugaz de sombras que dormem, corrupio de nada, um nada ainda existente, premente e constante a carne certa, existe e longe, sem perdão, sem me perdoar contra nada, que dizer depois, que inventar a seguir, comunicar, falar, dançar, escutar, dançar sobre a pele do ombro do teu ombro, ombro do teu mar, ombro, que não há, não, sem escuridão, não, sem caluniar, e porque esquecer, se não entender, que o amor é rei, o amor é lei, o amor, sim, será sol. Ou resgatar da noite a sede, Ne me quite pás… um vulcão atroz ranger por detrás do tempo sumo da voz sem ti, caminhante de ti, vai de ti, segue por ti em ti, o muro do lado à sonhada réstia, vai, como fora eu antes de mim, sonhar resquícios deste amor lá, Ne me quites pás, para instantes o silêncio tu, descobrir no mar a viagem absorta desta voz que não vem, que não virá, canto, um olhar sumir, um andar rasgar e romper sei lá o quê, sempre que puder eu irei sem puder, eu irei sem puder, a um ar que será mar, mar que te inventei, mar, mar que descobri, ar, que jamais perdi, este teu aqui, esse tu jamais, neste céu que ouvi, vem, escutar quem fui, vem, recordar aqui, vem, amar sobre o mar. Frio avassalador rompendo a areia, o ar núncio deste relento areado, de ti, onde estejas, de pedras vadias encontradas num acaso perdido, pinta-as Teresa, decora-as Teresa, na subtileza das mãos com uma voz árida, com um resquício de fundo, longo, largo, sabor de vento esta manhã despida que te busca. Decora o tempo com as cores da solidão, enquanto fazes rugir o belo eco do tempo.
Pela caminhada azul acre da tarde, entre pedras cruzadas no tempo, na moradia onde moras ou moravas, sei lá, quanto tempo tenho já que não te vejo sequer o sorriso? Estaria eu ainda longe, como as marcas dum céu entre teus cabelos ripados ao vento, teus passos rasgados no tempo, e tu, na estradada avulsa da tarde levando na cabeça o pensamento ausente da verdade, tudo assim e sempre roubado ou resgatado pelo intemporal vulgar de rasgos subtis que te inebriem de mim, salvo seja, um pedaço ausente do nosso eterno momento. Papelada esvoaçada, amarga num silêncio de passos que me entram janela adentro, num invulgar e avulso silêncio, descubro, restos de mar na carta devolvida, na voz perdida num horizonte sem nome, sem destino, falo como papel esbugalhado na boca amarga, escrevo apenas o discurso que ainda invento. A casa que vivias, por detrás do tempo, onde havia sentido nada que saiba, um percurso esquecido na vontade que se perde e tu, segues sei lá como, bebes café na tarde, rua abaixo, desces o sorriso escondido por debaixo das árvores e eu, na Alemanha escondida na distância. Abre a janela até mim, abre. A noite segrega o éter e a erosão o fuzilamento cinzento desta esfinge que adormece o tempo, o segredo amordaça e a verdade perde tempo, parte em viagem desconhecendo se há sequer, a morder este grito de testa quente que derrama no lençol o silêncio engolido pelo sorriso pardacento e louco. Hei-de fingir-me oco e seco, um nada nesta mata da vida onde moram os resquícios e os vícios, ou abalroar-me-ei entretanto, ao toque leve do pensamento esmagando com esgana este cheiro que busco nos cabelos loiros da vida deste sonho que beijo.
Quando partiste Teresa, não partas, hei-de morar-te comigo no sótão côncavo da floresta, a unhar a pele do silêncio quando o teu sorriso me despertar um desejo. Pela noite encantas-me, sem que beije o olfacto da distância. Ou por entre a cânfora turva deste tempo. Pedaços de manhã estilhaçam ânsias. Retoques neste semblante vazio quase preenchem o horizonte das mãos, amantes do meu silêncio. Dar confidências promíscuas ou o badalo azul do sino, de mais passos até que me largue do vento alojado na mente, este temporal fingido, como se fossem rugas castanhas gritando gemidos para uma refeição mais, aglutinada no verde espaço da minha vontade.
Esfrego latejantes os pés sob a mesa enquanto se esvazia o absinto na alma, um estrebuchar entre o que na viagem se retorquir envenenando pelo doce sabor da memória, que se invente num certo espaço de tempo, o eco na sala invade invariáveis vozes esta concentração que evito ter. É nos riscos obtusos e oblíquos deste silêncio que risco o navio que há-de levar o interior de mim mesmo por esse mar de saudades que se apagam a cada rascunho, com saudades, os golfinhos, cruzam-se peixinhos (ou peixões), à mesma hora que eu aqui, lugar talvez nenhum, ou que esteja numa meditação refrescada a ventos e cálices vazios a cada gole, chocalhe no estômago a saudade dos beijos nocturnos ou taciturnos de noites desfolhadas sem ti, sem vinho, num horizonte perdido ao olhar displicente e vazio por entre a folhagem escurecida pelo breu da noite, e piscam ao badalo do vento os iluminados candeeiros das ruas solitárias da cidade do meu sono ainda por chegar.
Verdes rasgados no quintal já longe, durmo nele sóbria saudade, memória recente e velha na antiga cidade de nome diferente.
Nasci um dia sem querer.
Numa breve tarde, de calor a invadir a ansiedade por uma alegria natural. Caminhei depois e cresci lentamente. Corri o arvoredo e hoje a saudade. Jamais se fará tarde e sentirei hoje nela, as mesmas horas que penso ter já esquecido. Que importa a passagem distante? Ser hoje um passado pintado na memória, o lugar suado desta vida cortejada nos resquícios da lembrança, das vozes e notícias trazidas por ventos que encontro, mensagens aglutinadas ainda nesta memória por relê-las, enquadra-las no instante que me refresque um desejo ébrio, galopante, que faça renascer a força que a vida negou. Anabela, nos bancos duros da escola, loiros e longos os cabelos, corriam ao sabor do tempo, escadeando o dia, a tarde, entre sorrisos de meninos, sabes, escondidos, à sombra ténue da árvore dos fundos, ninguém nos via. Éramos pequenos.
Debelam-se em torrentes cobertas na sombra, levam no vento o ventre do tempo, pedaços de vácuo e gestos salgados no mar a distância sôfrega, predicados sonham-se beijos na tela marítima da vida, ou os olhos da ausência. O rosto infantil nestes campos esquecidos dos dias, quase deixam a memoria na eternidade da saudade, ainda nesta curva plena da vida os teus sorrisos Anabela, ainda e na mesma a esperança dos compridos cabelos a sobrevoarem os ombros plantados na tarde soterrados na saudade, Queria de novo ver aquele sorriso, que tempos antigos, ambíguos, recíprocos, intensos, rasgados e indomáveis. Como toques assimétricos. Guardo-me nas areias insípidas e esta vontade, gelados díspares avançam um refresco na ânsia, querela sóbria de sois a sóis, rompem que importa.
Entre garrafas de Walker, Chivas, Grant's, evaporando bares sem honras como absintos, o peito em explosão exposto, como alvos displicentes nesta guerra de leste a leste, outras Ásias, defraudando como sempre o essencial, onde as linhas delimitam e riscam com saudades, ou se saúdam mártires pela manhã. Ou de novo o repentino vulcão da terra, regresse intempestivo como um vagabundo sob este soldado intrépido abominando-se ao calor, como recados se queiram deixar esquecer, sem mais.
De passadas largas contra cálices de pedra, sobre a voz derretida na compaixão, vozes diluídas na esfera metálica do vazio, passadas, apenas passadas inventam caminho e sigo contra rumos encobertos no espaço férreo do meu ser abalroado por mim adentro. Como me pensaria ainda encostado às almofadas de declínio, tenra e dura a noite, poli com os ossos da saudade tanta vontade de nada, voltas dormidas na viagem esquecida entretanto, uma insónia vadia invade um corpo prostrado nas inconstâncias, rasgam-se pensando-se sobre os muros da vida, vidas e vidas espalhadas nos cobertores do ermo.
Ruídos sicilianos devastam a avenida calada. Árvores robustas na sombra que se dorme. Cantam perdidamente uma ópera e era da voz inventada de Pavarotti que a noite sorrirá. É definitivamente o mesmo destino, enrolarem-me em mim os cafés ensopados, enxotados os momentos vandalizam a minha inconstância, quero por dormir, um pouco mais descansar na berra ou na crista da onda.
Desempenam-se distantes, os eixos do tempo rogam as ruas e passos inventam rumo, como apelar fumo e sonho, como sentir a alma extasiada num sorriso forçado, entre preâmbulos avulsos a sentença indigesta num arrufar interior do estômago resfriado nesta cerveja ambulante do café escuro desta rua da Rosa ou que definhe sozinho, num bairro alto repleto e sem silêncio. Regresso titubeante, na azáfama crua do tempo o olhar resigna, vence, perdura, esta alma voraz leva a minha ânsia, eleva a minha inconstância e sou na mesma eu, subindo devagar os degraus do vazio, os resquícios escurecidos da vontade, eu na mesma, degustando a fantasia, a heresia, ainda assim o funesto presente quando esvazio do peito o torpor que me há-de deitar sozinho. O jantar ali, ripostara sorvê-lo, sobre a mesa o metal dos instantes, das estantes submersas no beiral da sala, decorando a sóbria distância de cada vontade, rimando cada cântico por mim sorvido, como se a noite de novo me enchesse de ar, os pulmões encantam a solidão depurada nesta caneca de vontades, de verdades, enchendo em mim o sorriso pardacento que há-de levar-me às entranhas de cada vontade, como se estivesses na mesma sala entre mim e o escuro.
Regresso devastado, pleno nos sabores da noite de onde os sorrisos cheiram antigas saudades. E como seriam as saias? Onde param as ânsias? Defuntos na maresia rebolam ausências prematuras, desejos esquecidos após morrerem como sonhos, ao fundo, enclausurados os horizontes, rasgam entre o céu e fim do mar, como se de repente, mergulhasse falésias adormecidas num brusco adormecer.
Rangem sepulcros neste fundo de mim, entre mim a aurora díspar, vontade baforada por entre os resquícios quentes dum lençol que me cobre, na pele, entre os dedos que rasgam estalidos na pele seca, vendida ao instante de costas para tudo, numa sequência sem dormir esbugalham-se os olhos contra a parede escurecida pela vontade de findar, como finda a noite.

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