Como David Júlio ludibriou a PIDE em 1961

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(Testemunho vivo da retaliação colonial ao início da luta armada de libertação)

Como David Júlio ludibriou a PIDE em 1961
O professor David Júlio por altura dos acontecimentos Fotografia: Jornal Cultura

O ABCESSO
Lembro-me que, a uma certa hora, escutávamos o programa “Angola Combatente” na rádio. O meu marido era professor e tinha muitos colegas, mas era apenas com o Sr. Domingos de Freitas (enfermeiro), que escutava o programa. Nós, mulheres, nem sempre participávamos, pois advertiam-nos do perigo que corríamos.
Um dia, o meu marido fica muito doente com um abcesso entre o pescoço e a orelha. Tinha tanta febre e tivemos de levá-lo ao hospital. A família ficou preocupada. A minha tia Luísa tomou conhecimento da situação e veio visitar-nos de Malange. Nós vivíamos em Cacuso, 75 km antes de Malange. Já estávamos há uns dias no hospital quando o médico, Dr. David Resende, chega e dá alta ao meu marido dizendo rispidamente: “Podes ir-te embora para casa!”. E o meu marido respondeu, estupefacto: “Doutor, então disse-me que iria lancetar-me o abcesso... Agora vou para casa, como, se ainda não estou melhor? O doutor prometeume...”. O médico interrompeu o meu marido, não o deixando concluir a frase, e tornou a gritar-lhe: “Vai embora!”. Ficámos chocados com a sua reacção. Eu queria reclamar e ele voltou a interromper-me: “Calada! Vão-se embora!”. O Sr. Freitas não estava presente na enfermaria na altura, foi avisado, e veio ao nosso encontro. Chegou e disse: “Ó David Júlio, o que é que aconteceu? Porque é que ele te está a correr?”. O meu marido respondeu aborrecido: “Tu é que deverias saber. Tu é que trabalhas com ele. Quando eu dei entrada no hospital, ele recebeu-me bem, e agora que nos expulsa nem parece o mesmo médico.” O meu marido não sabia o que se estava a passar. O Sr. Freitas concorda que, de facto, o meu marido tinha razão e que ele próprio estava a achar o médico muito estranho. O meu marido vestiu-se, arrumámos as nossas coisas e saiu assim mesmo do hospital, com dores e a bochecha tão inflamada que brilhava. Mais tarde, o Sr. Freitas levou-nos uns comprimidos para as dores e mais pomada.

A FUGA
No dia seguinte, ficámos a saber a razão do comportamento do médico. A cidade toda estava cercada de tropas, chamados de Magalas, de farda verde escura e preta. Os mujimbos espalhados pelos colonos portugueses eram de que os pretos eram terroristas e que queriam matar os brancos. Alguns familiares que vieram visitar o doente, avisaram-nos do que estava a acontecer. No entanto, já sabíamos. Tínhamos acompanhado tudo pelo programa “Angola Combatente”. A minha tia Luísa disse assustada: “Vocês não podem mais ficar aqui! E depois, assim, com este tumor? Vamos imediatamente para Malanje!”. O meu marido, relutante, respondeu: “Ó tia, também não exagera. Vamos esperar mais uns dias até que esta agitação passe.” E ela retorquiu contrariada: “Não vai passar, vai piorar! Tu estás aqui dentro doente, não estás a ver o que é que está a se passar. Pergunta à tua mulher!” Eu respondi: “É verdade o que a tia está a dizer.” Fui apoiada pelo Sr. Freitas e os restantes membros da família presentes, entre eles os meus pais. “A roupa que saiu do hospital está na água. Temos de lavá-la primeiro, para levarmos roupa limpa. Vamos ficar mais um dia até a roupa secar.” Contudo, a minha tia ordenou-me que tirasse a roupa da água, espremesse e a colocasse em sacos de plástico para partirmos imediatamente. Ela própria ajudou-me a espremer a roupa dizendo para a minha mãe: “Nós vamos sair daqui hoje! Tu ficas com a tua neta. Vai a Madalena, o doente e o Quim.” O meu filho Quim tinha meses na altura.
Eu pergunto: “Mas como vamos passar com esta tropa toda?” A minha tia respondeu: “O teu marido, vamos vesti-lo de mulher. Eles não fazem mal às mulheres, só aos homens.” Pusémos as roupas molhadas em sacos plásticos amarrados, de seguida abrimos uma mala forrada com sacos e uma toalha para enxugar a humidade, onde colocámos os sacos com a roupa molhada. E fizemos outra mala com roupa limpa. Levámos o doente de bicicleta. Comprámos os bilhetes à hora em que o comboio estava a chegar. Um miúdo levou de volta a bicicleta. Os tropas invadiram o comboio e viram três mulheres e uma criança na nossa carruagem. Não fizeram caso e avançaram para a carruagem seguinte. Antes que o comboio pudesse partir, apareceu o Sr. Freitas para despedir-se do amigo. Viu-nos da janela, sentados. Assim que se aproxima da janela, um jipe militar com Magalas estaciona na estação, próximo do comboio e os militares avançaram em nossa direcção. Imediatamente o alertamos, pois se encontrava de costas voltadas para os tropas: “Olha vêm aí uns militares.” O Sr. Freitas disse-nos logo: “Ó David, eu já estou...”. Neste preciso momento, o comboio apita e arranca. Ainda vimos o Sr. Freitas ser escoltado para o jipe com um militar de cada lado e, no jipe, seguiu acompanhado de mais cinco ou seis militares. Do jipe, o Sr. Freitas acenou-nos um último adeus. Nós ficámos trémulos e cheios de medo e toda viagem com o coração apertado, muito tristes, inquietos com a incerteza que agora pairava sobre o destino deste nosso querido amigo. Passámos por Matete, Zanga, Cacolo, Lombe e, finalmente, Malange. Quando chegámos ao destino, encontrámos a tropa, mas não nos fizeram mal pois mais uma vez éramos todas mulheres e apenas prendiam quando os alvos fossem denunciados. O Sr. Freitas e o meu marido ambos estavam na lista. Porém, o meu marido não foi reconhecido. Nesta mesma noite foram à nossa casa em Cacuso, onde partiram tudo, rasgaram inclusive colchões. Foram à casa do meu pai e às casas dos meus irmãos, de onde foram todos levados. Foram também presos outros colegas do meu marido. Se nós tivéssemos passado a noite em Cacuso, o meu marido também teria sido preso. Todos foram mortos. O meu pai foi posteriormente solto e a sua vida poupada, apenas por ser velho. A experiência causou-lhe um forte trauma psicológico e esgotamento emocional. A minha mãe contou-nos que ele, após a soltura, depois de ter testemunhado a morte dos filhos, apenas pedia para ser morto também.
Em Malange tínhamos os nossos taxistas de confiança, dois senhores mestiços: o Sr. Cândido e o Sr. Lima. Eram boa gente. Pedimos ao Sr. Cândido que nos levasse a Maxinde que era um bairro próximo da cidade. Durou apenas uma corrida. Pelo caminho, o taxista manteve-se calado e ninguém fez um único comentário. Não nos perguntou o que vínhamos fazer como era de costume. E nós não dissemos nada, cheios de medo. Ficámos na casa da tia do meu marido onde dormimos todos. No dia seguinte, a minha tia Luísa, voltou para a casa dela e disse-nos que iria arranjar-nos um enfermeiro ou alguém que pudesse lancetar o abcesso, já que os médicos eram, na maioria, brancos. As coisas começaram a piorar. A tia Luísa foi à casa da filha, Maria da Conceição Baptista, mais conhecida por Maria Kamunguemba, que era enfermeira-parteira. Explicou-lhe a situação e esta prontificou-se a tratar do doente. Fomos levados imediatamente de volta à sua casa e lá ficámos hospedados, sendo que era de conhecimento público que Mariazinha estava sozinha com os três filhos e o marido ausente. Lancetaram o abcesso do meu marido, aliviando-o das dores. Entretanto, a guerra rebentou.

A PRISÃO DE MOISÉS KAMABAIA
Uns dias depois, de madrugada, apercebemo-nos de um carro a parar em frente à nossa porta. A luz forte dos faróis iluminou todo o interior da casa. Era um jipe militar dos Magalas com presos amarrados que gritavam de dor ao serem brutalmente espancados por militares. Um destes presos era Moisés Kamabaia. Apercebemo-nos disso porque ele gritava com todas as suas forças pedindo socorro, identificando-se e pedindo para que os familiares fossem avisados da sua captura, prevendo morrer. O meu tio Alfredo Piedade e o meu marido conheciam-no. O meu marido tremia de medo e, desesperado, quis instintivamente abrir a porta para se entregar. Seguiu-se uma breve briga entre o mesmo, eu, o meu tio Alfredo e a Maria, impedindo-o de sair. Às tantas, o meu tio quis acender um cigarro para o meu marido, a fim de acalmálo. Maria recebe o cigarro ao pai, gesticulando para não o fazer. Depois dos militares terem amarrado devidamente os presos, o jipe manobrou e partiu.

A DENÚNCIA
No dia seguinte, o meu marido e o meu tio Alfredo, não quiseram dormir em casa de Mariazinha. Passaram a noite, vestidos de panos, perto do rio Malange, cercados de pântanos e mosquitos. Impossibilitados de conseguir adormecer nestas condições, permaneceram junto ao rio, porém, apanharam um resfriado. Em casa também não conseguimos dormir, preocupadas. De manhã, os dois regressaram doentes e já não voltaram para lá. O meu tio disse: “Já não volto a ir dormir lá no rio. Vou ficar aqui em casa. Se me prenderem, pronto! Deus é que sabe. Já estou velho para estar a dormir em pântanos, à beira do rio.” A minha prima diz-lhe então: “Pai, tu já estás velho, a ti não te vão prender. Tu estás a ir porque estás a acompanhar o David. É o medo que tu tens. Que possam lhe fazer mal. Tu ficas aqui e o mano David e a Madalena vão para a casa da Ana.” Ana era irmã de Maria. A casa estava do outro lado da estrada, a uns 50 ou 100 metros, da nossa. A casa estava alugada, tinha dois quartos e sala, dos quais um deles estava vago. O outro quarto e sala estava alugado a um casal recém-casado sem filhos. O marido era motorista da Dra. Hortência, madrinha de casamento de Maria. Deste modo, o casal era de confiança e a sua casa estava fora do alcance dos Magalas. Como as rusgas eram
feitas apenas de noite, a partir das onze ou onze e meia, meia-noite, até às quatro da manhã, e de dia estava tudo calmo, levámos o colchão e as mantas discretamente acompanhados pela mana Maria que explicou ao casal que o meu marido esteve hospitalizado em Malange, omitindo a fuga de Cacuso. O meu filho Quim ficou com a minha prima Maria e com a minha mãe que entretanto tinha chegado de Cacuso com a minha outra filha, Mena. Passámos duas noites na casa de Ana e de dia íamos para a casa da mana Maria. Nestas duas noites, o marido chegava sempre depois de nós estarmos dentro de casa. Na terceira noite, quando chegámos para dormir, como era habitual, já encontrámos o marido em casa. Chamava-se Sr. Sibinda. Ao entrarmos no nosso quarto, o Sr. Sibinda convida-nos a sentar. Diz-nos prontamente: “Ouvi uma conversa lá no meu serviço. De um terrorista que fugiu de Cacuso. Eh, ele é perigoso! Queriam matar os brancos. Eram dois, ele e mais um tal Domingos de Freitas. Huh! Mas foram descobertos! Eles tinham até armas! Meu Deus! Agora estão à caça deles. Armas para matar os brancos! Já viram?! Pensam que, só porque estudaram, já querem ser brancos, querem matar os brancos?! Armados em calcinhas. Meteram-se com estes movimentos e agora estão perdidos!
Estão perdidos!!! O outro então já foi morto! Já lhe bondaram. Bem feitos! Eles estavam mbora bem. Os brancos lhes tratavam bem!” Apanhados de surpresa, nada dissemos. Pedimos licença ao casal e, calmamente, nos dirigimos para o quarto e fechámos a porta. Eles continuaram a falar baixinho na sala. Eu e o meu marido estávamos a tremer, mudos. Só depois é que o meu marido disse: “Lena, ele sabe que sou eu o fugitivo. Ele estava a falar para mim.” Suspirou e disse: “Não adianta mais fugir. Já chegou a minha vez.” Logo que ele me disse isso, ordeno-lhe baixinho: “Ficas aqui! Eu volto já.” Ele perguntoume: “Aonde é que vais?” Eu respondi: “Vou à mana.” Ele perguntou-me, preocupado: “Mas vais fazer o quê?” Eu respondi: “Vou lhe dizer o que ouvimos.” O meu marido advertiu-me: “Está a escurecer. Não vale a pena. Amanhã você conta.” Eu teimei: “Você não diz mais nada. Eu volto já!” Abri a janela do quarto devagarinho e pulei, pois a casa era térrea e a distância não era elevada. Pedi ao meu marido que não fechasse a janela, que deixasse uma frincha. Como era perto, fui a correr e entrei em casa da mana Maria. Logo que ela me viu, pensou o pior: “O que é que foi, Madalena?! Aconteceu alguma coisa?” Eu contei-lhe o que ouvimos do Sr. Sibinda e comecei a chorar. Ela ordenou-me logo: “Vai buscar o teu marido e não deixem nada lá! Vestígios nenhuns! Tirem tudo! Ainda bem que é só o colchão e as mantas.” Eram dezoito e trinta. A mana Maria chamou a miúda que tinha em casa, muito prestável, fazia tudo, tinha por volta de catorze anos e chamava-se Conceição. Nós tratávamo-la por São. Acompanhada da São, voltei para o nosso quarto trepando pela janela com a ajuda da mesma. Instruída pela mana, silenciosamente eu sinalizei ao meu marido para arrumarmos as coisas. Dobrar o colchão e as mantas. Passámos as coisas para a São que estava do lado de fora e justo quando me preparava para sair de novo pela janela, o meu marido travou-me. Disse-me: “Não vamos sair pela janela. Vamos sair pela porta porque eles já foram dormir.” O meu marido fechou a janela com o trinco. Devagar, abrimos a porta do quarto e, pé ante pé, dirigimo-nos para a sala onde não estava ninguém. Eu estava em pulgas, cheia de medo. Saímos sem atrair suspeitas. Demos a volta à casa para encontrar a São mas ela já tinha levado as coisas. Fomos depressa para a casa da mana Maria. Assim que chegámos, a mana disse: “Olha, se aparecerem aqui os Magalas vamos dizer que já lhe levaram.” Não foi necessário, porque apareceu o tio José Soares que pertencia à Milícia. Não sei se foi a minha prima ou a minha mãe que mandou avisar este tio.
Como nós, as mulheres, tínhamos livre circulação, o meu tio dizia às pessoas que em nossa casa só havia mulheres. Quase não dormíamos e, nesta mesma noite, aconteceu algo terrível. Eram duas horas da manhã, quando ouvimos carros a chegarem. Seguiram-se gritos, muitos gritos, e depois uma mulher atrás dos carros a gritar pelo marido: “Ai, meu marido! Deixem o meu marido!” Mas ninguém podia sair. De manhãzinha, eram já cinco e meia da manhã, fomos com outras vizinhas saber quem havia sido levado. O Sr. Sibinda tinha sido preso! Eram cerca de seis horas da manhã quando alguém apanhou a mão do Sr. Sibinda, reconhecendo-a, pois era um homem de grande porte e na mão, cortada no pulso, permanecia a sua aliança. A mulher, quando viu a mão do marido com a aliança, desmaiou. Ficámos a saber que o levaram porque foi ele que nos tinha denunciado. Os Magalas chegados ao quarto onde supostamente estaríamos a dormir não encontraram nada nem ninguém, o quarto estava completamente vazio. O Sr. Sibinda tentou explicar-se mas, revoltados, os Magalas levaram-no com eles. Foi morto na mesma madrugada, daí a mão caída na estrada, não muito longe das nossas casas.

DOM MANUEL NUNES GABRIEL
O bispo de Malange, na altura, era Sua Eminência Dom Manuel Nunes Gabriel. Este soube do acontecido pelo Sr. Sibinda, aquando da denúncia feita
contra o meu marido, e mandou-nos chamar por intermédio de um catequista que nos foi buscar para ir ter com ele. Assim, o meu marido ficou finalmente em segurança. Eu voltei para casa da mana Maria onde estávamos hospedados. Ela tinha “visitas”. Qual não foi o meu espanto, encontro a minha irmã espiritual Lucinda (afilhada da minha mãe) com o seu amante, um senhor branco. A minha mãe sinalizava para não falar absolutamente nada. Às tantas, esta pergunta: “Aonde é que está o espiritual David?” Apercebemo-nos que ela veio trazer o branco “colono”, incumbido de espiar-nos. Não era usual os brancos irem às aldeias, muito menos no clima de instabilidade que se instalara com as confusões e tensões raciais em ebulição. Vinha mostrar a este senhor aonde o meu marido estava escondido. A minha prima, mana Maria, responde em tom desafiador: “Se vieram à procura do David, podem vistoriar a casa toda! Não tenho nada para esconder!” Estávamos todos no quintal da
casa e ela convida os “visitantes” a entrar, dizendo: “Entrem, entrem! Estejam à vontade.” O casal permaneceu de pé. A minha mãe adianta-se dizendo, num tom de falsa lamentação: “A ele, já o levaram. Não sabemos se já foi morto ou se não”, conclui com uma clara mentira. E Lucinda diz: “Não, já nos vamos embora, já vamos sair.” A minha mãe instrui-me a acompanhar o casal até a porta. Ainda incrédula, a minha irmã espiritual perguntou-me: “Mas o espiritual David foi mesmo morto?! Quando é que foi morto?” Eu respondi aparentando estar extremamente triste: “Não sei quando é que o mataram... foi a semana passada que o levaram... um senhor, o senhor Sibinda foi-nos queixar... e vieram buscar o meu marido...”. Basicamente, invertemos os factos com base na captura e morte do Sr. Sibinda. As perguntas pouco depois cessaram e o casal foi-se embora.
O meu marido estava seguro. Dom Manuel Nunes Gabriel era um senhor branco, arcebispo de Malange. Um homem muito bom, humano e sincero. Era protector dos oprimidos e justo. Por consequência dos seus actos de humanidade, tornou-se inimigo da PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado). Dirigia-se frequentemente às instituições da PIDE, pedindo clemência para as pessoas que estava a proteger em local clandestino. Certa vez, foi descalço até à PIDE onde, ameaçado pela polícia, foi alcunhado de ser “pai dos terroristas”. Assim, foi para Luanda para uma audiência com a entidade máxima da PIDE. Foi recebido e entregou a este um relatório sobre o que sucedera em Malange. Este por certo já sabia destes acontecimentos. A influência e poder da Igreja Católica torna-se aqui evidente, fazendo com que o pedido do bispo fosse atendido. Foi mandado exonerar o representante máximo da PIDE em Malange. Dizia o povo por meio de boatos que circulavam na altura que este sujeito fora metido num barco de volta a Portugal, morrendo no caminho, atirado ao mar e devorado pelos peixes.
Durante o período em que o meu marido esteve escondido eu recebia o salário mensal a que tinha direito, embora não estivesse a trabalhar. Todos os meses, sem falha, até que acabou a guerra. No final da guerra, o bispo pediu-lhe que voltasse para o trabalho. O meu marido teve medo. Mas o bispo insistiu, dizendo: “Vai sem medo! Ninguém vai te tocar. Todos já sabem que estás vivo, o administrador [de Cacuso] e o seu séquito [referindo-se à PIDE e todos os outros colaboradores]. Vai e leva a tua família e ficas por enquanto na Missão [Católica]. Depois vais para a tua casa, perto dos teus sogros.”
O bispo tinha razão. O próprio administrador veio dar as boas vindas ao meu marido aquando do seu regresso à vida social em Cacuso. Não encontrou nenhum dos seus amigos, nem colegas de antes. Estava rodeado de pessoas estranhas: professores novos vindos de outras partes e outras pessoas novas. Sentindo-se inseguro, com um pé atrás, o meu marido pede transferência, argumentando que queria prosseguir os estudos em Luanda, que a mulher estava doente e ele próprio não se encontrava bem de saúde, preferindo uma mudança. A transferência foi aceite e viemos para Luanda.
Em 1964/65 já em Luanda, decidimos homenagear o bispo, que na altura também já se encontrava em Luanda. Convidámos Sua Eminência Dom Manuel Nunes Gabriel e mais alguns colegas ex-seminaristas. Na homenagem escrita, o meu marido agradeceu tudo o que Sua Eminência tinha feito por nós e por todos os outros que ele ajudou. Todos os presentes enalteceram o gesto e o bispo ficou muito emocionado, agradecendo também. Este relato escrito deve estar no Paço em Luanda e em Portugal, pois assim nos foi prometido pelo bispo, por ser um documento histórico. O bispo foi um Pai, um amigo, um conselheiro. Nós temos imenso apreço por ele, gostávamos muito dele. Em Luanda, estiveram sempre juntos. Agora que estão lá os dois, que Deus os tenha à direita do Pai em Sua glória. Que as suas almas descansem em paz.

OBS.: Moisés Kamabaia referido neste relato como um dos presos capturados na madrugada amarrado a um dos jipes dos Magalas, sobreviveu.
Anos mais tarde, o meu marido (ainda em vida, já enfermo da doença que o viria a levar) e o mesmo, tendo vindo visitá-lo com mais um ex-seminarista, recordaram estes acontecimentos. O meu marido relatou a sua experiência e o Moisés o tivera, na altura, aconselhado a escrever a sua história. Quis o destino que tal não viesse a materializar-se. Portanto, onde quer que se encontre o senhor Moisés, quero desde já agradecer-lhe e dedicar-lhe também este singelo relato.

UM AMANHÃ MELHOR
Infelizmente este não foi o único episódio trágico e sangrento na história do nosso país. Em 1974, após o 25 de Abril em Portugal, conhecido como a Revolução dos Cravos, nós, angolanos, satisfeitos com a queda do governo fascista de Salazar vimos mais palpável o sonho da nossa dipanda. Então, começaram os acontecimentos por consequência da “abertura” e “livre expressão” que então passamos a ter. Houve a expulsão dos colonos pelos nacionalistas angolanos. Os movimentos pró-independência que se encontravam nas matas começaram a regressar ao país. Aí começou a guerra dos movimentos. Nesta guerra, o meu irmão, do MPLA, morreu envenenado na Lunda. Com as minhas mãos cozi à máquina bandeiras do MPLA e de Moçambique para serem distribuídas. Foi um pedido do meu primo como irmão, que vivia comigo, José Paulo Nicolau, que pertencia à JMPLA. Por vezes cozia toda a noite sem descanso, o mesmo fazendo-me companhia. Para nosso espanto, em menos de dois anos após a independência, em Maio de 1977, veio o malogrado 27 de Maio. Trouxe a dor e o luto para minha família mais uma vez e para milhares de outras famílias angolanas. Foi uma dor tão grande e indescritível. Isto para dizer que estes 40 anos de independência devem servir para um momento de reflexão profunda por parte desta geração que passou e que muito deu para este grande país. Os episódios acima descritos embora tristes e carregados de mágoa não devem ser esquecidos. É importante dialogarmos abertamente sobre o passado e retratá-lo de forma precisa e fiel para que os erros não se repitam. É nosso dever como pais, educadores, professores e dirigentes deixarmos a promessa de um amanhã melhor para a geração vindoura.

Madalena Júlio

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