Como se vai chamar o nome dele?

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De todos os presentes da natureza para a raça humana, o que é mais doce para o homem do que as crianças?

Ernest Hemingway

CONTO de Octaviano Corrreia
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-Sua imaginação está a fantasiar absolvências, mas não adianta motivar razões para desurgenciar o caso. Mais velho Geraldo rabujava com o neto desencaracolando as palavras e ferindo o ar com os nós da bengala.O motivo que motivou o descomedimento de Geraldo foi um quase nada. O neto levou a namorada à festa. À festa dos oitenta anos do avô.
­- É festa de família. Namorada não é família, ainda de menos antes de ser presentada.
­- Mas avô eu lhe ia apresentar na festa...
- Na minha festa? Na festa que tua mãe e teus tios lhe pensaram na cabeça deles para me surpresar? Surpresa fica onde mais, quando estranhos lhe entradam também?
­- Mas avô, a surpresa era para si, não era para a Mariana.
­- Mariana, Mariana é quem, então?
­- A minha namorada, avô…
­- Namorada? Eu lhe conheço? Já lhe vi?
­- Viu na festa, avô.
- Lhe olhei, lhe olhei mas não lhe vi. Desconvidados a gente não conhece, desvê.
­- Tudo bem, avô Geraldo, no fim de semana eu lhe trago aqui...
­- Os pai dela sabem?
­- Sabem o quê, avô, que a gente namora ou que ela vem cá no fim de semana?
­- Moça direita se pede na presença.
­- O avô está velho, isso já não é de uso.
­- Eu não sou velho, tenho experimentagem da vida. No meu tempo...
­- O tempo do avô é do passado...
­- Passado não é velhice e o meu tempo era de respeito com as raparigas...
­- Já sei avô, me contaram a estória…
- Qual estória ainda é essa que te contaldrabaram, meu neto Juca?

A estória do tornozelo da sua primeira namorada, diz que o avô lhe mexeu no comprimento da saia para lhe ver o tornozelo e apanhou um tapa.
­- Te mal contaram o acontecido real. Ela nem que falou...
­- Pois não, avô Geraldo, bateu só ­ e o neto desprendeu uma gargalhada que desapaziguou de vez o avô.
­- Não desvia conversa, namorada aqui não é a minha de tempo de mais de outro passado, namorada aqui é de agora sua, a tal de Mariana. Veio na minha festa desconvidada pelos festejantes e nem que boa noite se deu.
 - Vergonha, avô, estava com a vergonha dela de primeira vez.
­ - Vergonha? Vergonha ainda que nem tem rapariga que namora sem acordamento dos pais, que sai de noite com o namorado na festa dos outros, vergonha está ficar aonde?
­ Outros tempos, avô. Seu tempo já se destempou há muito, mas fica assim, um dia destes vou trazer aqui a Mariana...
­ Mas avisa com antestempo e vem com o pai e a mãe dela, senão não vai tresentrar aquela porta.
­- Fixe, avô, na boa! O tempo se distraiu a passar devagaroso, os meses cairam um por de cada vez das folhas do calendário e de namorada nem mostras nem falas. Avô Geraldo, de perto em perto confrontava as de justificações do neto que desassuntava o caso sempre que ele o demandava.

Uma manhã, bem cedo do dia quando a campainha da casa tirrintou, avô Geraldo estava ainda calçado de chinelas e o pijama guardava o morno da cama. Naquele primeiro instante avô Geraldo se admirou.

Naquele cedo da hora nem quase dia era ainda, lhe aparecer na porta uma rapariga de bebé nos braços só podia ser em morada enganada. O bom dia que lhe adentrou os ouvidos antecedeu a frase que espantemudeceu avô Geraldo.
- Eu sou a Mariana, este é o seu bisneto. Geraldo regalou os olhos, depois fechou a cara vincando as rugas do assombro e desarticulou a voz numa pergunta quase um grito «bisneto? de que neto?»
­- Do Juca. Ninguém mais na família sabe que ele já nasceu. O Juca me pediu para trazer ele aqui, no antes de todos e de qualquer um para pedir a sua bênção e mostrar os olhos dele iguais que os seus. ­ Avô Geraldo olhou paradamente o bisneto, deixou escapar um rio pequenino do canto dos olhos e falou num soluço... ...como se vai chamar o nome dele?
­- Geraldo, como o senhor...
­- Senhor, senhor está onde? Não lhe vejo... me trata só por avô, Mariana.




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