Dedé Dedinho do Marçal

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Conto de António Quino: Ilustração de Marcela Costa

Dedé Dedinho do Marçal

Partilhando sol e lua com os antigos balneários do bairro Marçal, ali bem ao lado da loja do sô Tavares do gás, vagabundeava com frequência um mizangala. Dedé Dedinho de sua graça. Horas. Dias. Semanas. Meses.
Ao contrário dos ngulos, Dedinho não marava senão para o céu, mesmo fossando na terra com a gana de matar as lombrigas que se amotinavam no seu bucho, embora sem luxo, mas com fome de humano.
Caminhava tal qual um rafeiro com o rabo entre as pernas, encostado às paredes. Depois, sempre que se deparasse com um vazio de casas, por menos curva que fosse, ele parava e desorbitava-se em preces ao tecto do solo. Olhava parado. Parado, ele olhava. O dedo indicador da mão canhota erguia para apontar o infinito. Naqueles instantes, que não chegavam a ser minuto, ninguém o conseguia demover. Nem mesmo as pedras dos meninos arremessadas contra o seu corpo frágil e maltrapilhado. Nem mesmo as gargalhadas da moçada ingénua do Coronel à Jacó. Nem até os resmungos das mamãs no chafariz que o queriam longe dali, grunhindo ameaças, por temerem alguma maldição que julgavam estar ele a evocar. Se sua graça se conhece, mal se conhece a sua desgraça. Bocas sumarentas no Marçal juram de pés juntos que Dedé Dedinho tinha sido gravemente atingido por onda das fortes, não diferente daquela do Ndombe Grande ou do Kuroca. Do tamanho daquela do Gulungo Alto. Um feitiço que a grandeza de braços somados por naturais do Marçal não conseguiria kandandar. Tal parecia o tamanho do feitiço que ninguém se oferecia para salvar aquele pobre jovem assenhorado nas desditas da vida.
Como vivia encardido, lavando-se em todo o charco de água que encontrasse, acrescentaram à fofoca que, quando novo, Dedé Dedinho engravidara uma linda moça na rua da Brigada. Linda afamada por trocar de companheiro ao sabor do seu ciclo menstrual. Sem tempo para abortar, foi encostada a parede pelos pais e depois de apontar o dedo indicador da mão canhota, as famílias no loando sentaram.
Quando questionado pelo avô da menina Linda, Dedé Dedinho terá insultado a família:
- Eu, engravidar essa aí? Eu não durmo com sujas, que cheiram xixi e andam com todos! Portanto, a gravidez jamais poderia ser sua, ajuntou sem muitos entretantos.
Seguindo-se aos burburinhos e torpedos que marcaram as relações entre os grupos contendores, veio a grave reacção da família da engravidada na voz do ancião:
- Silêncio e respeitem a minha idade! – pediu, para a seguir disparar: – Antão, o minino falô que não dorme com chuja! A minha neta já é que é a chuja? Nós na família não lh’ensinamo a tomar banho e a se limpar quando saí da retrete na casa de banho? – fez uma pausa para deixar as suas palavras entranharem no coração dos presentes – Só se o minino é nocente e só se a minha neta mêmo é chuja, porque como o minino não dorme com as chuja, você vais passar o resto dos teu dia a se lavar pra nunca que nunca fica chujo na frente das pessoa!
Do outro lado houve uma reacção virulenta, defendendo-se da praga lançada ao seu menino. Mas Ti’mbuku, avô materno da rapariga alvejada com um sémen de proveniência até aí não identificado, nas calmas que só com muita idade se consegue ter, despachou-os:
- Antão, o vosso filho não falô que não dorme com chuja que cheira xixi? Tão cu’medo através de quê? Possam sair, que nós queremo chora a nossa vergonha sem estranho na casa.
As suculentas bocas do Marçal que contam isso, não param de jurar e garantir, com um sinal da cruz pelo meio, que realmente é verdade a versão sobre o encardido do Marçal.
Fora as fofocas, Dedé Dedinho vivia olhando para o céu, apalpando as paredes e pronunciando monossílabos que só ele entendia. Presumia-se.
Os putos jogavam dardos sobre o pobre homem. As mamãs, receando que o acto se pudesse reflectir sobre os seus meninos, resgatavam e fechavam os petizes em casa, repreendendo-os com volumosas intimidações e impropérios na devida medida.
Sempre a partilhar sol e lua com os arredores dos antigos balneários do Marçal, Dedé Dedinho continuava a frequência. Meio cambaleante, fartos cabelos espicaçados em espirais, barba acastanhada como uma cerrada mata desamparada, ventre proeminente de grávida em tempo de parto eminente. No seu corpo, fios de roupa que algum estilista mais ousado teria feito fortuna se nele apostasse.
Dedé Dedinho aparecia e desaparecia do bairro Valódia para lá da rua da Brigada. Um homem com aspecto repugnante, mal cheiroso, que se banhava até nas águas das fossas, lavando o canastro preenchido por farrapos e escoriações diversas, algumas parecendo feridas crónicas e outras provocadas por dardos arremessados pelos seus adoráveis apreciadores. Os mesmos meninos que sabiam inclusive a sua hora e esperavam-no para, carinhosamente, apedrejarem aquele brinquedo humano.
As mamãs, distraídas e entretidas nas conversas do chafariz dos antigos balneários, não se desligavam das traquinices dos seus rebentos. O olhar policial estava sempre neles. Mas a eficácia da infância superava quase candidamente a vigilância maternal.
Até que chegou um dia diferente.
Tal como havia aparecido, de repente Dedé Dedinho deixou de aparecer. Os meninos, tristes, cansaram-se de esperar com pedrinhas nas mãos. Desmoralizaram-se, mas não se desmobilizaram. Conquistaram o hábito de apedrejar vizinhos charcos de água.
As mamãs estranharam a tristeza dos seus filhos, mas também elas preocupadas com o desaparecimento de Dedinho. Sujo ou encardido, mesmo as mais respeitáveis figuras do Marçal perguntam por Dedé Dedinho.
Numa estratégica parede da rua da Gigi, alguém pinchou uma lembrança. Falava mal do Dedé Dedinho, além de lançar um procura de paradeiro meio jocoso. Reunidos na praça da Chapada, desgostaram daquela brincadeira contra tão preciosa desfigura. E um kimbombeiro foi mandado apagar aqueles dizeres.
Nas conversas, a busca continuava. Com aquele andar de robocop não poderia ter ido longe. Ninguém o iria raptar. Sobrevivido ao feitiço do Ti’mbuku, morto era impensável estar. Quem sabe no avô Kitoko poderia ser descoberto acorrentado. Também não. Havia firmeza na resposta.
Assim, de repente, Dedé Dedinho desapareceu do Marçal. E ninguém mesmo sabia dizer que destino terá tomado o Dedé Dedinho.
Quem sabe onde estará o Dedé Dedinho, o encardido do Marçal?

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