Diáspora conto de Carmo Neto

Envie este artigo por email

Teórico era como a malta do bairro chamava o Fernando Kassule naquele tempo.

Dáspora: Conto de Carmo Neto
Carmo Neto

De boina afundada na farta cabeleira, voava num primeiro andar de socas, calças boca de sino, camisa cintada de pano cru desenhavam-lhe a elegância. Vibrava ao som dos merengues e sembas na moda, nas farras de largos construídos de bambús.
De regresso ao futuro presente, lá estava depois de cumprir o serviço militar obrigatório, inflamado de juventude, o neto cristal da avó Catarina Mande, velha crestada pelo tempo e sulcada de velhice. Trémula de bengala em setas corria com os miúdos pelos carreiros do seu pomar, farto de bananeiras e grandes abacateiros, pralémde mangas superiormente adocicadas dos mangueirais do Quéssua.
O ranger do portão anunciou novamente a presença do Manuel Kassule, figura seca castigada pela guerra, na velha casa de adobe da cor do céu e rodapé lilás. Vieram assobios de contentamento e o mesmo grupo de outrora se refizera com a banca de jogo de damas e xadrez, no aconchego da larga varanda sombreada, onde borboleteava a fumaça dos últimos “acés”.
Resplandecia. As recordações viajaram desde os tempos das reuniões políticas sobre filósofos da moda, aos momentos das marchas ritmadas em delírio compassado por canções patriotas, soltas por vezes em digestão livresca que muito se absorvia na época. Ali reencontrou a Nina Leona, menina com sinais de mãe angolana e pai português no cabelo – a surpresa e a alegria daquele dia – diante das mães postadas ali com filhos ao colo e os jovens de pupilas dilatadas fixavam o olhar ao recém chegado. Mesmo com a senhora escuridão a mandar no espaço, mostrou a todos o recorte de um grande jornal estrangeiro em que o jornalista curioso quis saber do Manuel Kassule, naquele momento habitante de uma trincheira de guerra, o que faria em tempo de paz. Imperturbável e pensativo respondeu:
–Dedicar-me-ia à floricultura. Quero também criar um jardim botânico. Surpreendido e enjaulado no seu preconceito, deu por terminada a entrevista.
Todo o quintalsoltou gargalhadas.
Outras lembranças emergiram. Veio à tona o musculado instrutor militar João Ferramenta. Soltava náuseasno discurso, porque Manuel Kassule vivia matrimonialmente ligado à moda e quase era escravo no trato do cabelo. Não gostava do cabelo curto. E contra ele o instrutor disparava pares de galhetas. Transformou os insultos para anedotas. Era um gozo a trovejar o espaço.
O som da música do cantor Barceló de Carvalho agitou o clima e convocou para a dança.
Manuel Kassule, abraçado a Nina Leona, nas passadas bem desenhadas, vibrava o corpo todo e assim matavam saudades. Novamente à voltada mesa, continuaram a conversa. Eram jovens. Alguns deles, nomes que preencheram a lista do quadro de honra do antigo liceu da capital distrital. Topo cerebral era Manuel Kassule, filho de antigo funcionário público bem-sucedido, cujo sonho era vê-lo formado em medicina, no Ocidente. Ninguém dele imaginaria tanta turbulência criativa sobre o projecto de um jardim botânico.
Moído pelo cansaço decidiram descansar. A caminho da casa da Nina, sob o manto da noite em passos curtos e ligeiros, ela confidenciou-lhe que já havia conseguido a marcação da audiência com o administrador da cidade, para o resgate legal do terreno, herança familiar. Antes daria entrevista à imprensa. Adormeceu leve. Dia seguinte à conferência de imprensa,vestido com cuidado, sempre na moda, dirigiu-se ao encontro.
Durante minutos olhou pensativo à volta da sala de audiência, indicada pela secretária. Sentou-se e, para ocupar o tempo, lia tranquilamente uma revista até o senhor administrador da cidade fazer-se presente, patrulhado por um funcionário de óculos escuros.
De pé, diante dele, esboçou reverência com voz pausada, cumprimentou e sentou-se acedendo ao convite. Acto contínuo expôs os factos:
– Ilustre dirigente, conforme exposição da senhora Nina Leona, a minha pretensão é a legalização de um projecto para um jardim botânico no terreno do meu falecido avô, aqui bem próximo da administração.
– Não– protestou o alto funcionário, de pé elevando num gesto de oratória a mão no ar. –Hoje, todos são donos dos espaços. Você andou comigo na tropa!
– Sou herdeiro, – contrariou, olhando para a figura que deixava transparecer alguém conhecido e acrescentou: – é o instrutor Galheta?
– Sou o doutor Fernando Ferramenta. Galhetas é lá na recruta. O senhor não veio cá dar lições! Exponha o seu assunto!
– Pretendo edificar um jardim botânico com plantas de todas as espécies de Angola, frondosas árvores floridas. E um largo acolheria peixes. Incluiria pássaros multicolores. Seriam um espaço atraente e elegante.
– É viável. Aguarde.–Respondeu secamente e encerrou o diálogo.
Todos de pé. Fernando Kassule deu um passo em frente. Baixou a cabeça e apertou a mão do Administrador. Abandonaram a sala de audiências. Parecia mais animado.
Surpreendeu-se fora do edifício com os ardinas a convidar a compra dos jornais. Letras garrafais titulavam a sua entrevista: “A cidade teria um jardim botânico”. As rádios e os canais de televisão também abriram com a notícia. Mas à noite, numa mesa de bar, relatou o clima da audiência ao lado da Nina Leona vestida de uma blusa que deixavam os seios demasiadamente suspensos e os lábios carnudos pedindo beijo. O amigo Barnabé aconselhou prudência e consulta a um bom quimbanda para o sucesso.
Mau olhado podia interromper o projecto. Era demais, João Ferramenta, aliás,Galhetas na tropa, e agora doutor administrador para decidir!
–As melhores combinações de abundância de plantas do tamanho do país – deixava a frase sair leve entre os lábios para replicar o amigo.
Na verdade, a sua alma explodira de sonhos durante meses, costurara ideias sobre o futuro jardim botânico, com flores das bermas dos caminhos anónimos de todo o país até que numa tarde Barnabé ao entrar para o quintal do Manuel Kassule a gaguejar, disse:
– Estão a vedar o terreno para o jardim.
E o indicador direccionava o local onde se viam chineses, angolanos e portugueses.
– Calma, conta bem essa história, vamos lá ver o que se passa.– Aconselhou a Nina Leona.
Consolidados estavam já os alicerce prestes a arranhar os céus.
–O quê? O que se está mesmo a erguer? – Indagou Manuel Kassule.
Foi respondido com um seco “ordens superiores”. E se fossem à administração?Foi para lá que se dirigiu com um reluzente cartão de vista de um prestigiado deputado, mas a secretária resumiu a fundamentação no interesse público.
Evadiu-se Manuel Kassule da cidade para uma recôndita ilha despovoada abraçada pelo rio Kwanza, antes que a fábrica de arranha-céus lá decidisse instalar a partilha da abundância e da carência com a Nina Leona. Para consolar a desilusão, escuta com frequência a música ”Eu vou voltar”, do cantor Teta Lando.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos