Estranho de mim mesmo

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Após décadas vagueando por aí, cheguei no meu velho bairro para me visitar.Estacionei-me na ombreira da porta do prédio com um ar de príncipetriunfador.

Após décadas vagueando por aí, cheguei no meu velho bairro para me visitar.Estacionei-me na ombreira da porta do prédio com um ar de príncipetriunfador.
Gesticulando ruidosamente os braços para deixar o ar conquistar os pulmões em liberdade, tomei conta da porta sob o olhar de alguns curiosos. O ar entrava.
Com o mapa antropológico do meu velho bairro ardendo na minha cabeça, olhei demoradamente aquele ambiente arrebatador e o meu coração rendeu-se numa surda oração de comoção fixa no meu imo.De imediato, invadiu-me uma desmedida e inexplicável saudade da minha infância. Apeteceu-me beijar o chão. Mas não o fiz. Poderiam os curiosos confundir-me com algum demente. Só foi por isso que evitei. Porque, naquele chão…! Quantos meus heróis o terão honrado? Quantos meus vilões o terão violado? Quanto, desuor e sangue, aquele chãonão terá tragado? E, então, os muitos romances que testemunhou?!
Suspirando com prazer, aquelabrisa me pareceu muito familiar. No fedor e no odor. O cheiro do meu velho bairro tinha o sabor de vida. Sabia à vida. Sábia vida!
Naqueles infinitos instantes, partículas inteiras de nostalgia afagavam os pulmões das minhas vistas, respirando suspiros e lamentos da alma. Cada rua. Cada morador. Cada calçada. Cada buraco. Cada muro. Cada janela. Cada persiana. Cada árvore. Encantos que em tudo me cegavam.
As lágrimas acariciavam a vontade e resguardavam-se nos freios da felicidade que ali vivi. E então se cristalizavam na dor da saudade daqueles que já cá não mais estão. Que hoje são astros no céu egoisticamente retardando a nossa indesejada partida.
Viajando no tempo, vejo amigos correrem de calções em sofrimento e colando planta dos pés nosolo, empurrando jantes ou pneus, brincadeiras sem ordem, cuja regra respeitava a irmandade entranhada de casa em casa, de muro em muro, de passeio em passeio; carros no asfalto circulando na urbanidade da vida em infância, mas sem se atreverem a atropelar o mundo que só a meninice sabe edificar. Brincando na areia, brincando com areia.
Tudovagueando na minha saudosista memória, porque as ruas, modificadas pelo tempo e pelos homens, já não tinham a mesma simbologia, das folganças, das acaloradas discussões entre amigos, dos dias de aulas, dos futebóis, das jornadas desportivas sem mesura temporal. Enfim, só recordações de tudo que caracterizou os incontáveis e inesquecíveis anos ali vividos, no meu velho bairro.
Lembrei-me dos aliados, entre amigos e adversários dos tempestivos instantes de infância. Já ali não estavam mais. Muitos teriam viajado para a eternidade. Outros deveriam estar ainda num limbo qualquer. Outros na bonança. Outros sobrevivendo. Mas, ali nenhum. Amigos e adversários que me fazem falta.
Da ombreira da porta do prédio, os meus olhos passeavam pelo horizonte do bairro, muito movimentado, de gente circulando. Carros barulhando no desrespeito do tal pardal que enamorava a louca pardaloca num fadado galho diabolicamente engravidado por velhas folhas maçadas. Meninos brincavam, adolescentes iam a escola. Adolescentes saiam da escola. Jovens musculados dialogavam em tons musculados.No entanto, eu não via ninguém. Apenas sentia o silêncio. Sem os meus amigos e adversários, que seguiram outros mundos.
Continuei parado na ombreira da porta do prédio, contemplando os transeuntes. Estátuapermaneci. Olhando. Vendo. Recordando. Recuando décadas para saborear dias vividos naquele chão. As quedas. Os golos marcados. Os golos sofridos. As fintas caçumbuladas.As paixões mal declaradas. Os amores mal curados. Os ódios mal tragados.As virgindades arrastadas. As vigarices incompreendidas. As discotecas. Os dancing’s. Os discotequeiros. Os recolheres obrigatórios. As rusgas. E as saudades dos momentos não vividos.
O tempo tinha sido um aliado velho das memórias reencarnadas naquele reencontro com o prédio da fama, que fez de mim o produto do presente. Diria mesmo: sou o que sou graças também ao meu velho bairro. Graças ao meu prédio.
No quintal do prédio, várias vezes tropecei. Corri. Magoei-me. Muitos carimbos dos muitos cacimbos ainda os carrego no corpo e outros no coração. Dos jogos sem preguiça e sem hora de finalizar. Das casmurrices e das desobediências convidando surras. Das cambalhotas e saltos mortais impulsionados por pneus carecados. Tudo fotado no meu peito.
Olhei para a velha árvore, que nunca conheci sequer o seu nome artístico. Nem o científico. Na sua robusta elegância, parecia a mesma. As folhas pareciam as mesmas. O caule parecia o mesmo. O Louva-a-deus nem caducado estava. A Joaninha da vaidade reinava nas flores brotando idade. Pássaros engolindo poluição resistiam ao lado de sardões. Pareceu-me que só eu tinha mudado. Crescido. Quase envelhecido. Mas também a ferida que eu tinha feito com um canivete sobre o dorso da árvore não estava mais lá. Teria curado? Sobrepuseram-se-lhe outras fendas?
Nas paredes do prédio, no rés-do-chão, havia eu deixado as marcas da minha meninice, do punho girando o pincel para escrever o meu nome com tinta preta sobre o creme do muro. Do punho girando o avô abacate para marcar a gigante alcunha no alto da parede. Todos conheciam aquela marca. Aquele nome. A pessoa do nome. A pessoa da marca.
Horas a fio de pé, deixando o passado correr pelas veias com o oxigénio da vida. Como estátua a porta do prédio vi chegar e sair os meninos. Em grupo, conversavam. Sorriam alegres passando por mim. E não me conheciam.
Do prédio, alguns moradores desciam e subiam, na pose de condómino que paga renda. Com a etiqueta de quem contribui para a manutenção do prédio. E não me conheciam.
Triste, vi os moradores passando por mim, e não me conheciam.
Triste, reparei nas paredes do prédio, com outros nomes agigantando-se sobre a minha defunta marca. Até a árvore, inerte, que parecia conhecer os movimentos criança dos meus passos, me ignorou redondamente.
Cumprimentavam-se: vizinho praqui e vizinho prali. O pai está bom? A mãe está lá? E para mim veio um bom dia, meu senhor!
Eu olhando aquilo como se num mastro superior me encontrasse sem poder intervir naquele mundo fugidio, que eu queria que fosse ainda meu. Queria também me apresentar. Falar que a minha fama está nos anais daquele prédio. Daquele bairro.Impossível não me conhecerem. Entretanto, continuavam a passar por mim, olhando-me como a um estranho. Será que alguém estaria a perguntar quem eu seria?
Permaneci parado. No umbral da porta do prédio. Porta que tantas vezes viu chegar e partir, partir e chegar os meus. Pai. Mãe. Irmã. Irmão. Amigos. Colegas.A porta observando. Comendo com os olhos cada detalhe daquele paraíso preservado no horizonte da minha memória.
Convidando toda essa real realidade do meu velho bairro, cheguei a verdade dura: De estranho eu não passava. E, nesse tempo das desconfianças, já teriam mandado trancar as portas e janelas nos apartamentos do prédio, porque naquele exacto momento, no meu velho bairro; no prédio que me viu nascer e crescer, eu era um completo suspeito. Um estranho!
Enfim, senti-me um desconhecido; um estranho de mim mesmo.

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