Homenagem ao Zeca

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 Zeca foi um excelente comunicador, um bom patriota.

Homenagem ao Zeca
José Machado Fotografia: Arquivo

Quando decidi escrever este pequeno texto de homenagem ao José Pinto da Silveira Machado, vulgo José “Zeca” Machado, (que, quando músico, foi também Paulo Machado), decorria em Lisboa, na Igreja do Campo Grande, uma missa de corpo presente, antes do seu definitivo embarque para Angola. José Machado, saiu do Lobito, sua terra natal, muito antes da Independência, para estudar no Seminário Maior de Carcavelos.
Quando, posteriormente, abandonou o Seminário, residia em casa do seu já falecido tio, André Tati Gomes, marítimo de Cabinda (onde, por sinal, também eu vivia com os meus pais e padrinhos de baptismo). A verdadeira vocação que teve pela música, fê-lo vocalista de, pelo menos, três agrupamentos de música moderna. Os “Keepers” e o “Octógono” foram dois dos conjuntos musicais, que, na década de 60, esteve envolvido, com actuações permanentes, principalmente, em bares e discotecas do Algarve. Cantar, em Luanda, em parceria com Percy Sledge, um “soulman” de referência nos EUA e no mundo, não foi por acaso. Tinha a tarimba e anos de estrada suficientes para o fazer e fê-lo com a necessária competência.
José Machado abandonou (possivelmente em finais da década de 60 ou início da década de 70) a sua carreira musical para ser comissário de bordo da TAP e, depois da Independência, foi comissário da TAAG, onde se distinguiu como bom profissional, o que, concomitantemente, fez dele também um bom formador daquele ramo de actividade. Foi também professor de inglês e de ética e bons costumes. Mas, maioritariamente, foi um excelente comunicador, um bom patriota, um bom cidadão… e um gentlemen de referência, como muito poucos existem até hoje na sociedade angolana, fruto da sua boa formação e dos valores inculcados que sempre soube cultivar.
Depois de ter saído do Seminário, o casaco castanho cor de mel foi, durante muitos anos, marca de estilo do Zeca, para além da sua paixão pelo futebol. Dele recebi algumas explicações no decurso dos meus estudos liceais, o gosto pela música (ao ouvirmos, em conjunto, os discos de 78, 45 e 33 rotações de música variada (maioritariamente latino-americana e brasileira) que tocavam no “pick up” automático de marca “Loewe Opta”, trazido da Alemanha pelo nosso tio André. Não raras vezes, este bom aparelho sonoro animou farras do Clube Marítimo Africano, em finais da década de 50.
Ao Zeca Machado, meu querido primo, devo, entre outras coisas, o gérmen motivador para me dedicar à música angolana. Dele ouvi, de forma entusiástica, as estórias que serviram de mote para às minhas primeiras composições: “Domingas Canhari” (Nha Kicoio) e “Velho Andjolo” (Tambula M’bolo), figuras emblemáticas do quotidiano lobitanga de outros tempos.
Há pouco mais de um ano a esta parte, prometi-lhe musicar a estória do “Xico Nkuma”, que também me havia sido contada pelo Zeca, na década de 60, quando, da última vez, estivemos juntos na festa do 10º aniversário da UnIA. Temo já não ser capaz de a fazer, porque, para mim, não tem sido nada fácil digerir, assim, de uma hora para a outra, a notícia da sua inesperada e prematura partida.
Segues, mais à noite, para a tua derradeira viagem, meu querido primo. Lamentavelmente, terei de aceitar que a vida foi, a vida é e será sempre algo que começa e um dia (independentemente das circunstâncias que vierem a ocorrer) ter fim, disse-me, por outras palavras e para me consolar, o Mito, seu irmão mais novo, que seguiu a profissão do Zeca como comissário de bordo da TAAG. Só me resta desejar, do fundo do meu coração, paz à sua alma e que a sua memória nunca se perca. Que se nos apresente como exemplo permanente de um verdadeiro homem, de um verdadeiro pai, cujos princípios e rigor viabilizaram sempre uma sã convivência com os seus próprios familiares e os demais.

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