IN MEMORIAM

Envie este artigo por email

A exigir a união de toda a comunidade internacional para combater este atentado às liberdades, aos valores da humanidade e da civilização.

Os murmúrios desvaneceram-se num ápice quando se ouviu o pigarrear da directora garganta acabada de entrar em cena, que, revelando profunda dor e consternação, pediu antes de mais nada um minuto de silêncio em memória do jornalista ocidental barbaramente massacrado no dia anterior numa emboscada desparasitante, quando tirava fotografias a duas dezenas de civis afegãos cirurgicamente1 mortos num bombardeamento executado pelo exército dos ESA.
Esta inocultável degradação da qualidade dos serviços de saúde nos EUA levou mesmo uma velha senhora com operação cirúrgica já marcada para Nova Iorque, a transferi-la para Paris... com tanto Afegão, Iraquiano e Sírio a morrer às mãos dos cirurgiões estadunidenses, como repetidamente ouvira nos noticiários, não lhe haviam de pôr nem a vista em cima – fez saber junto à família e amigos!
“Uma autêntica chacina”, sublinhou, entretanto, o dirigente, inconsolado, referindo-se ao jornalista, claro. A exigir a união de toda a comunidade internacional para combater este atentado às liberdades, aos valores da humanidade e da civilização. “Inadmissível”, concluiu, inconformado e solidário com os mais elementares valores universais, tão descaradamente violados neste assassinato atroz. E perfilou-se, hirto, em pose de fazer inveja ao mais tenebroso nazi, em sentida homenagem. O silêncio na sala era de cortar à catanada.
Mas não é que um daqueles salafrários que já vem para a reunião a destilar emanações que tresandam a inebriantes odores, mal se rompeu o silêncio imposto, e numa atitude desrespeitosa sem precedentes, pede a palavra?
De ar entre o atónito e o contrariado, cenho convenientemente franzido, o dirigente sentiu-se, porém, coagido a anuir. A tropeçar na própria voz, deixando à sua passagem um rastro de vapores que despertaram agradáveis lembranças a todos os presentes, o sujeito dirigiu-se ao presidium. Passou um olhar nebuloso pela assembleia e declarou então por entre dois soluços:
-Eu também quero propor um minuto.
Perante esta inesperada manifestação de sensibilidade, a atmosfera na sala amenizou-se. Afinal, por certo o participante teria acabado de perder alguém que lhe era muito querido, mas, devotado que era às liberdades humanas e às causas sociais, apesar disso, não faltara a esta reunião de homenagem. O rosto do chefe ostentou um ar compadecido o suficiente, ainda que algo enfadado, como cabia a um dirigente.
-Eu li ontem num jornal… - a voz arrastava-se-lhe penosa e não se percebia bem se o que lhe humedecia os olhos eram lágrimas mal contidas ou a condensação brusca dos vapores que se evadiam das suas entranhas de cada vez que entreabria os lábios.
O tom de enfado no rosto do chefe talhou-se mais fundo, afastando a comiseração: afinal, se leu no jornal, era porque não era nada que o tocasse pessoalmente não se justificando, assim, que interrompesse a solenidade daquela reunião!
-… numa estatística do PMA, que ontem morreram 24.000(*) pessoas no mundo, por causa da fome. Eu quero propor um minuto para cada uma dessas pessoas, também!
Os participantes entreolharam-se boquiabertos. Primeiro ficaram chocados, depois incrédulos. Estupefactos olharam para os relógios e espalhou-se um burburinho pela sala, todos a fazer contas – ora, 24.000 minutos são… são… vejamos, uma hora tem 60 minutos; 24.000 a dividir por 60 dá 400 horas! 400 horas? Mas isso são 16 dias!! “Está maluco ou quê”? “Nós temos assuntos importantes para tratar aqui”. A coisa piorou, porque a alguns o resultado dava 5 semanas, e de lá dos lados da mesa, onde o nível académico era universitário, veio mesmo um resultado tido como absolutamente fidedigno, que falava de cerca de 3 meses.
A coisa estava tão feia que teve mesmo que se fazer um escrutínio ali à pressa, tendo a maioria votado em que tal quantidade de horas representava 3 semanas e meia, pronto!
-Bom, o companheiro está a ver, isso é muito tempo! Nós temos uma Agenda a cumprir, não nos podemos desviar dos nossos objectivos. E temos que regressar aos nossso postos, às nossa famílias... – era o chefe, cuidadoso, porque ao ver que algumas cabeças da assembleia balançavam e desta vez, excepcionalmente, sem ser de sono, mas sim em assentimento, temia ferir susceptibilidades.
-Não. As vossas contas estão todas erradas porque em cada um desses minutos, estão a morrer mais 16 pessoas, por cada uma das quais teremos que acrescer 1 minuto. Assim, no fim dessas 400 horas teremos que continuar por mais 384.000 minutos – a voz rouca, ferindo tímpanos, mas também conceitos e preconceitos.
-Companheiros, temos que ser razoáveis – proponho uma solução de compromisso: vamos também fazer um minuto de silêncio por todos eles em conjunto, e pronto (chefe é isso mesmo – autoridade, capaz de gerir conflitos, tomar as decisões certas no momento certo, nunca vacilar perante a assembleia - brilhava o chefe, cheio de si próprio!).
-Não, chefe! Eu não quero minutos de silêncio. “Quem cala consente”. O silêncio é criminoso. É cúmplice de todos estes homicídios. O que eu peço é um minuto de protestos bem ruidosos por cada um destes desditosos.
E, dando o exemplo, desencadeou, acto contínuo, o protesto em altos berros: -Isto não pode continuar! A culpa é nossa porque permitimos que os chefes vivam no luxo com o dinheiro destinado a salvar todas essas vidas! Isto tem que acabar! A culpa é dos chefes ladrões que engordam à custa destes cadáveres! Temos que por fim a isto! A culpa é dos doadores corruptos, que só valorizam as vidas dos deles e desprezam as milhares de outras... - uma a uma, pouco a pouco, uma e outra voz mais se foi juntando ao protesto, que se arritmava, cada vez mais forte, mais sonoro, mais vibrante:
- Isto não pode continuar! Isto tem que acabar! Temos que por fim a isto! Isto não pode continuar…
O frémito cresceu de tom, aumentando continuamente de intensidade, até mesmo os mais temerosos aderindo ao protesto em memória dos 24.000 mortos do dia anterior. A tal ponto que até o chefe, assustado, com medo de ser silenciado e contribuir prematuramente para tão nefanda estatística, e, assim, para prolongar ainda mais a estadia de todos ali, se pôs também a acusar-se a si próprio de ser corresponsável por toda aquela mortandade.
O protesto tornou-se ensurdecedor, tantas eram as mortes a homenagear e tão grande a raiva por isso nunca ter sido feito. A culpa não foi do tecto. Tinha sido desenhado para civilizados minutos de silêncio, não para prolongados bramidos selváticos. E por isso, não suportou. Primeiro largou o estuque, depois rachou, e por fim, impotente, ruiu sobre os participantes, impondo novamente o silêncio para que fora desenhado. O culpado fora o arquitecto. Mas tal facto seria imediatamente amordaçado pelo silêncio.
Os trabalhadores do hotel acorreram de imediato, solícitos como sempre, em socorro das vítimas, mas já nada havia a fazer. O silêncio era sepulcral. Horrorizados com tão tenebroso cenário, sob orientação do seu chefe compungido, observaram acto contínuo um minuto de silêncio.
Logo que o minuto se exauriu, o gerente mandou que procedessem rapidamente à remoção dos escombros e à limpeza das premissas, porque tinham outra homenagem agendada para o dia seguinte.
Lito dos Santos

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos