Luís Itiel: O Pai Natal Africano

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Conto de Manuel de Sousa.

Luís Itiel: O Pai Natal Africano
Tchilésio Fotografia: Santinho

O Pai Natal, em alguns países conhecido como Santa Claus ou Papai Noel (ou Papá Noel), em virtude do crescendo de pedidos, decidiu alargar a sua zona de acção e de entrega de prendas para crianças um pouco mais para a zona Sul do Globo Terrestre, nomeadamente, em África.
Na ocasião, estendeu os seus serviços de entrega até países como África do Sul e países limítrofes, os quais incluíam Angola, também e onde a tradição natalina continua sendo forte e em crescendo. Contudo, punha-selhe o problema de que as suas renas, habituadas aos climas frios e de neve, não teriam condições para puxar o trenó aéreo num clima tropical, usualmente quente e húmido.
Assim, falou com alguns dos seus amigos em África e solicitou a estes que investigassem nas matas, chanas e nas florestas e selvas Africanas, a ver se haveria um animal que tivesse características físicas adequadas, ordeiro e de fácil adestramento, para substituir com êxito as Renas.
Aos poucos, começaram chegando à sua caixa electrónica de correio, várias informações sobre os animais eventualmente candidatos para a substituição das renas. Dentre eles, vieram indicações para a utilização de antílopes de compleição física maior, e até houve sugestões para o uso de bois-cavalo e búfalos africanos e mesmo, até, elefantes, etc.
Para poder escolher os animais mais apropriados, o Pai Natal veio ele próprio à África testar os vários animais indicados. Chegou contudo ao fim dos testes, tendo montado e experimentado o trenó em vários tipos de antílopes, incluindo zebras, dromedários, bois-cavalo, elefantes, concluindo que nenhum destes lhe servia os propósitos, em virtude do grau de dificuldade de aprendizagem que todos demonstraram quanto aos gestos de coordenação, etc.
Encontrava-se a viajar de carro entre a República Democrática do Congo, a Zâmbia, o Zimbabwe e o Botswana, e já em desânimo e prestes a desistir da ideia, muito cansado, quando adormeceu pesadamente, e eis que teve um sonho.
Sem o saber, no sonho, veio parar a Angola, onde nunca antes havia estado.
Certo era que enviava para lá brinquedos a pedido de algumas crianças que de lá lhe escreviam, já desde há muitos anos, mas sempre encarregara os seus emissários ou assistentes locais e regionais de fazê-lo, os quais se vestiam com trajes semelhantes ao seu. Mesmo esses haviam usado elefantes voadores carregados com cestos e sacos, onde colocavam as prendas, mas nunca haviam feito recurso a trenós, em virtude destes animais serem demasiado grandes e desajeitados para tal.
Caindo em sono profundo, o tal sonho pareceu-lhe ser deveras tão real, que lhe deu a impressão de estar acordado. Nisso, viu muito claramente um pequeno e lindo bebé de tez africana. O bebé parecia pairar em pleno ar, contudo, como se se encontrasse deitado em algo invisível. Tão logo se aproximou, reparou que o bebé olhava para ele com olhos muito vivazes e de quem estava consciente do que via e do que ali estava fazendo. Quase de imediato, viu nítido em sua mente o nome do bebé, Luís Itiel. Achou estranho, mas, acabou não ligando muito, achando que poderia ser mera coincidência. Nisso, ouviu uma melodiosa vozinha de criancinha tenra, que mais parecia saída de um boneco falante ou de uma fada: “Meu nome tu já sabes. Agora, gostaria de te sugerir uma ideia sobre o tipo de animais que poderão ser-te úteis aqui em África, para que possas levar avante teus planos de distribuição de brinquedos aqui nesta região.” O Pai Natal estava de boca completamente aberta, quando tentou recompor-se:
“E o que será que um bebé de aparentemente algumas poucas semanas me poderá dar como ideia, quando há pouco tempo nasceu para este Mundo? Afinal quem és tu, pequeno bebé Luís Itiel?
O bebé Luís Itiel, olhou ainda como maior incisão para o Pai Natal e vai de dizer: “Eu sou um bebé recém-nascido sim, mas, também sou um bebé mágico e precoce, com poderes equivalentes ao das lendárias fadas das estórias infantis!
Apesar de tudo, estou aqui para te ajudar, pois, na vida real, sou um aparente mero bebé e nunca ninguém iria suspeitar que eu poderia até falar e, muito mais ainda, com uma figura tão importante e mágica, como tu, Prezado Pai Natal!
Se te virares um pouco para a tua esquerda, poderás ver seis animais, cuja designação mais comum é a de Palanca Negra Gigante. Elas são também da classe dos Antílopes, e são hoje animais muito raros, tendo estado mesmo às portas da extinção em Angola, em virtude da caça desenfreada e dos tempos atrozes de guerra. Estas aqui nasceram praticamente ao mesmo tempo e cresceram e andaram juntas, quase o tempo todo da sua sobrevivência. Foram mesmo treinadas e preparadas mentalmente, desde pequenas, para este momento e para te servirem aqui em África, como animais de elevada inteligência e senso de missão, podendo ter os mesmos atributos que as tuas renas, lá no frio Hemisfério Norte. E, além disso, estes animais estão bem adaptados climaticamente e poderão puxar muito bem o teu mágico trenó voador pelos ares da África e enfrentando tempestades e chuvas mais severas, habituais nesta ocasião do ano aqui no nosso Continente. Elas podem até voar, quando necessário, sem que se assustem de forma alguma com quase nenhuma situação adversa”.
Mais espantado do que seria de esperar, o Pai Natal virou-se e perguntou em tom de admiração profunda: “Mas nunca ouvi falar de Palancas Negras Gigantes e nem sequer sabia que tal animal existia e de onde elas são mesmo?”
“Das chanas do Leste de Angola, exclusivas da Província de Malange, de uma reserva natural chamada Kagandala, junto ao Rio Kuanza, que nasce algures no Centro-Leste de Angola e desagua a 60 quilómetros a Sul de Luanda, capital de Angola, país onde eu nasci recentemente”, disse muito naturalmente o bebé Luís Itiel. Podes até aproximar-te delas, para que fiquem desde já familiarizadas contigo e afagá-las enquanto ainda aqui no sonho. Aliás, da mesma forma que as tuas renas, as palancas também têm o dom de falar mentalmente, pelo que estão preparadas também para falarem contigo e para receberem tua voz de comando. Todas têm um nome próprio, pelo qual as podes tratar. Por exemplo, a líder da manada, chama-se Sol. A sub-líder chama-se Terra. Chamandose as restantes, respectivamente, de Lua, Fogo, Água e Ar”.
Dito isso, e acto contínuo o Pai Natal foi afagando uma a uma as palancas, que o rodearam plenas de júbilo e felicidade, como se sempre tivessem estado na presença do Pai Natal. Este, olhando novamente para o bebé, vai e diz-lhe com uma certa propriedade: “Afinal, já sei quem tu és, meu lindo bebé! Tu és o meu substituto no futuro, ou seja, o próximo Pai Natal, o qual está destinado a ser oriundo de África e isso eu já previa em minha mente, há muito tempo. Só que, não me passou nunca pela cabeça que um dia me iria encontrar com o bebé que viria a ser o Pai Natal seguinte!”. Aí, fez uma pequena pausa, e adiantou: “Hoje é um dos dias mais felizes da minha vida, e não faltam muitos anos e poderei finalmente arrumar as botas e reformar-me, pois já sei quem me vai substituir.
Agora, continuaremos em comunicação sempre, sobretudo por intermédio de sonhos. Entretanto, vou deixar-te crescer como um Bebé normal e só voltarei a ver-te, mas, dessa vez, fisicamente, quando tu estiveres crescido e maduro e consciente o suficiente, para te passar então o testemunho de tão gigantesca e responsável tarefa de seres o Pai Natal do Mundo. Agora, vou acordar, pois já tenho a solução para os animais que irão puxar o meu trenó aqui em África, a fim de me poder dirigir a Angola e lá poder encontrar-me fisicamente e de facto, com estas tão lindas, elegantes e valiosas palancas negras, que, além de gigantes e raras, passarão a serem mágicas também, a partir de então…”.
Despediram-se entretanto, com o Pai Natal a agarrar as mãozinhas delicadas e suaves do bebé e a beijá-las em tom terno, emocionado e em agradecimento.
Acorda já como que motivado a mover-se com certa pressa. De imediato, virase para o seu colaborador que conduzia o carro e disse: “Pára aí algures para comermos uma bucha, e após isso, fazemos meia volta, indo, de seguida e sem demoras, directos à fronteira com o Leste de Angola, para dali, nos dirigirmos à Reserva Nacional de Kangandala, na Província de Malange. Ali iremos encontrar os animais que tanto procuro aqui nesta região de África”.
O colaborador, com certo espanto, mas simplesmente ouvindo as directivas do Pai Natal, assentiu com a cabeça e parou num local apropriado para comerem. Depois, como previsto, dirigiu o carro na direcção de Angola, onde entraram já à noitinha. Dormiram algures numa pequena aldeia, e mal o Sol raiou, puseram-se em direcção de Kangandala, onde finalmente, não muito longe da entrada da Reserva de Kangandala, à sua espera estavam os imponentes, viçosos e elegantes vultos das seis palancas negras, que tinham algumas fêmeas e algumas crias em sua companhia. Receberam o Pai Natal com correrias alegres e altos saltos de comoção. Então, quase como num coro perfeito, o Pai Natal ouviu as vozes das Palancas em uníssono pela primeira em sua mente: “Olá, querido Pai Natal, aqui estamos nós prontas para puxar o teu trenó mágico pelos céus incandescentes e doirados de África.”. Tão logo acabaram de falar, apareceu do nada, por artes mágicas, um lindo, sumptuoso, radiante e luzidio trenó doirado, todo ele a raiar brilho em todas as direcções, deixando por algum tempo os animais semiencadeados e tontos. Tão logo se refizeram e se habituaram e, em posição perfeita, com duas linhas paralelas de três palancas formadas em fila, ordeiramente, com umas atrás das outras, aquelas viram-se emparelhadas ao trenó…
O Pai Natal, sem delongas, pulou para o trenó e disse em seu tom tradicional:
“Oi, oi, oi! Aqui vamos nós pelos ares de Angola e de África, em nosso primeiríssimo ensaio inicial”. Voou, voou, até estarem ele e as palancas, exaustíssimos.
Depois de ter tornado o trenó novamente invisível e ter soltado as Palancas, passou a noite na aldeia do Soba Maior da região e no dia seguinte, e antes de se despedir das palancas, dirigiu-lhes a voz: “Minhas amadas palancas Sol, Terra, Lua, Água, Fogo e Ar, eis que vos deixo tão-somente por uma semana, para que se refaçam, pastem os melhores pastos e se preparem para executar nossa árdua e intensa missão, a qual se aproxima a passos largos. Iremos, então, distribuir brinquedos e outras prendas de Natal nesta região do Continente Africano, de forma assaz intensa e em tão-somente um dia e tal, entre 24 e 25 de Dezembro, este último, o dia de Natal. Os brinquedos e outros presentes de Natal serão entregues, sobretudo, em regiões onde as crianças e as pessoas adultas ainda observam a verdadeira mágica tradição de Natal…”
“Agora, minhas honrosas amigas Palancas, irei agradecer mentalmente ao bebé Luís Itiel por me ter guiado até vós e deixo a lembrança que, num futuro não muito longínquo, irão servir a ele, como futuro Pai Natal e o primeiro oriundo da África, mais precisamente de Angola…”, arrematou o Pai Natal…

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