Mbaku do Trinta

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Conto de António Quino.

bonita foto Fotografia: tiago

Mbaku do Trinta, homem mais ou menos bem casado, sempre desejou ter um herdeiro. Um varão. Mas, mesmo com a substituição de sucessivos atos amorosos por excessivas atividades sexuais intensas, não havia meio de alvejar o rico óvulo da esposa com algum sémen produtivo. Ou o contrário. E os filhos nunca chegavam naquele lar.

Fruto da demora dos rebentos que não queriam existir, a confusão em casa não havia meio de caducar. Casal cristão bem educado e requintado, até grosseiros palavreados já passaram a ser recorrentes nas suas orações. Viraram motivo de chacota e, na briga desse casal, quase todos os vizinhos da Precol passaram a meter a sua colher, muitas vezes para amargar mais o agitado molho.

Da boca da dona Madalena Cozida, ouviu-se pela primeira vez rumores de que Mbaku do Trinta herdara a mbakice do seu falecido pai, o mais velho Zé Pinto do Katepa, que manteve com a mana Ngonguita do bairro Saiote. É evidente que Mbaku do Trinta não poderia acreditar. Aliás, quem não sabe que a mbakice não é hereditária?

Sua esposa convocou uma reunião familiar. Marcaram para daí a três meses. Antes do encontro, Mbaku queria encontrar um argumento que provasse a sua possibilidade de ser pai. Aconselhado por pérfidos amigos, decidiu enrolar-se com outra mulher e provar a si mesmo que não era trinta. Muito menos mbaku! Na lotaria, calhou-lhe uma volumosa senhora da Sapú, casada, muito gostada pelos seus atributos peitorais e nadegais.

A senhora Martucha parecia um enchido caseiro do Lubango; apetecível pelo seu exotismo e aparência. E terá sido isso a atrair o bom do Mbaku do Trinta, que papeou e driblou no verbo a senhora, deixando-a deliciar-se com as doces palavras, reservando para si a também necessidade carnal mas ciente de que, em off-shore por 28 dias, o seu maridão não carecia de conhecer o apoio prestado pelo Mbaku. Sorria satisfeita porque o próprio Mbaku não sabia que o conquistado era ele.

Depois de alguns consentidos dias de excessivas atividades sexuais intensas com a roliça mulher alheia, Mbaku recebeu a boa nova:
- `Morzinho! Tenho duas notícias para te dar. Uma boa e outra má. Qual é a que queres ouvir primeiro?
 - Sei lá. Olha, a primeira
 ­ respondeu despreocupado, mais ansioso em voltar ao recinto do prazer carnal.
- Me engravidaste ­ anunciou a Martucha ao Mbaku - E qual é a má?
­ perguntou depois de centenas de pulos de alegria.
- Tu és casado e eu também, portanto era impensável continuar com a gravidez. Para ti não deve ser bom saber que abortei e que o ainda feto deitei num contentor de lixo mesmo aqui do bairro. Cá entre nós, nunca tivemos nada, não nos conhecemos e eu sou feliz com o meu maridão. Foi bom enquanto durou.  Adianta descrever a reação do Mbaku do Trinta?

Aqueles pérfidos da Precol que aconselharam o Mbaku a ir tentar fazer filho na mulher alheia afirmam que ele nunca mais foi o mesmo. Anda mais amuado e algumas bocas afirmam que ele às vezes finge ser maluco, viajando pelos contentores de lixo do Rangel na esperança de encontrar sabe-se lá o quê. Quem lhe terá visto ninguém sabe, mas o povo não fala em vão.

A dona Do Trinta, sua esposa, reclamou em reunião familiar que nem mais aos sucessivos atos amorosos ele correspondia, perante o silêncio sepulcral do Mbaku. A mulher insistia que o esposo não fazia filho.

Mesmo querendo refutar tamanha calúnia, o silêncio engolia a sua voz. Queriam ouvi-lo, mas desconseguia de soltar o verbo. Parecia possuído pelo Satanás. Chamaram então um assumido fiel representante de Deus na Precol, que chegou sem contemplações e, em transe, pôs-se em orações antes de se retomar a conversa.

Irritada com a atitude do seu homem, dona Do Trinta pediu separação por motivo de o Mbaku não cumprir com as suas obrigações de homem. A família Do Trinta desgostou desse atrevimento e culpou a senhora pelo estado psíquico do Mbaku. E foi aconselhada a manter o compromisso assumido na altura do pedido. Instigada pelo pastor Suzano Mbinge Carioca, líder local da Igreja Planetária Alegria dos Céus, a família dela foi forçada a concordar: não se abandona um homem quando ele está possuído pelo demónio da infertilidade.

Arriscavam-se a provocar a disseminação da seiva do demónio no seio das duas famílias, e os filhos tornar-se-iam inférteis. Dito assim, com mais ou menos palavras, o medo imperou e todos concordaram em afastar o demónio que morava naquele lar.

Segundo afiançou o pastor Suzano Mbinge Carioca, o bom mesmo seria levar o coitado e a esposa à santa sala de recuperação espiritual da igreja, não sem antes se atualizar e reforçar o pagamento dos dízimos, seguindo-se o pagamento de uma caução ao santo milagreiro que traria de volta o espírito do Mbaku do Trinta e a sua competente fertilidade. Houve um Aleluia em Nome do Senhor que ecoou naquela casa.

Enquanto decorria a contribuição financeira das duas famílias para afastar o demónio do seu seio, Mbaku do Trinta continuava em silêncio. Na verdade, depois do que lhe aconteceu, Mbaku jurou a si mesmo nunca mais plantar mangueira em quintal alheio.

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