Música do coração [Prémio Literário Jardim do Livro Infantil]

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Prémio Literário Jardim do Livro Infantil

Música do coração [Prémio Literário Jardim do Livro Infantil
Música do coração [Prémio Literário Jardim do Livro Infantil]

- Mana, sabes como é que bate o coração?
- Sei!

- Conheces a música?
- Conheço. Há muito tempo. É bem bonita.

- Como é que é? Sabes cantar?
- Mais ou menos. É uma música que faz sorrir, dançar, limpa as lágrimas quando estás triste e também faz dormir!

- É estranho! Uma música que faz dançar mas que também faz dormir. E eu mana? Também já ouvi?
- Sim. Todo o mundo já ouviu a música do coração.

- Ai é?
- Sim!

- E onde foi que ouvimos?
- Lá dentro. Na barriga das mamãs.

- Não te cansavas de ouvir sempre a mesma música?
- Não. Acho até que gostava.

- Durante 9 meses? Eu acho que me cansei. Por isso é que não me lembro.
- Não te cansaste nada. Senão não amarias a mamã!

- Mamã, conheces a música do teu coração?
- Conheço. Bum-bum-bum

- Não! Não é essa. Aquela música bonita, que faz sorrir e dormir, como a do coração da avó.
- Acho que não conheço.

- Oh! (beicinho)
- Estás triste, mano?

- Não, um pouco chateado só.
- E porquê?

- Porque perguntei à mamã se conhecia a música do coração da avó e ela disse que não! Como é que ela pode não conhecer?!
- Se calhar já não se lembra.

- Mas ela já é grande, teve tempo de lembrar!
- Não sabes que quanto mais cresces mais esqueces?

- Sério? Ahãn, é por isso que os avós nunca se lembram de nada, não é? (risos grandes e altos)
- É!

- Coitados!... Mas então só as crianças é que se lembram das coisas?
- Lembram-se mais rápido.

- Então, daqui a pouco vou-me lembrar e depois canto, a ver se ela se lembra da música da avó também. Esses adultos, dão tanto trabalho!
- O que é que estás a fazer?

- À procura da música na rádio.
- Mas, oh mano, essa música não passa na rádio!

- Ai não? Mas porquê?
- Olha, porque é um segredo. Ninguém conseguiu gravá-la.

- Mas tu disseste que faz dançar, então eles deviam passar na rádio e na televisão e fazer concertos também.
- Já imaginaste o coração de todas as mamãs num concerto? Não caberia nem na Cidadela!

- Sabes mana, quando crescer vou ser cantor. Assim gravo a música do coração da mamã e nunca mais me vou esquecer.
- Mas não precisas. É só encostares a cabeça no peito da mamã.

- Mas… E quando ela não estiver, como é que faço, se eu quiser dançar ou dormir?
- Lembras-te do sorriso dela. Também tem som! E imaginas a tua coisa preferida nela e depois lembras-te do melhor momento que passaste com ela.

- E depois vou ouvir?
- Sim. Vais!

- Tu já fizeste isso, mana?
- Já. E funciona sempre!

- Afinal!... Já sei porquê que te lembras da música e eu não!
- Agora, que já sei o truque, já vou poder cantar a música de todas a mamãs.
- Mas não podes, mano. Nunca ouviste a música das outras mamãs.

- Não faz mal! Vou falar com os filhos delas e eles vão cantar-me. Assim eu gravo e, aqueles que, como eu, já não se lembram, nunca mais a vão esquecer e deixa de ser segredo!
- Mana, sabias que o dia faz barulho quando acorda?
- Ai faz?

- Pois faz! Esta noite eu não conseguia dormir, estava a tentar lembrar-me da música. Tentei tanto, tanto, que os meus olhos perderam o sono. Então, pus-me à janela e, de repente, vi o dia acordar.
- Ai é? E como foi?

- Acordou azul. Azul-turquesa. E tinha também alguns pedaços de nuvens laranja.
- Nuvens laranja?!

- Sim! Acho que o Sol estava a esconder-se atrás delas. Ainda era muito cedo para ele aparecer.
- Que horas eram?

- Não sei. Era cedinho. Quase claro já.
- E ouvia-se barulho, já tão cedo?

- Sim. O dia também faz barulho quando acorda. Ouves a voz dos passarinhos, o salto das rãs, o voo das folhas das árvores, e até os gafanhotos fazem barulho! E se prestares bem atenção, também ouves o assobio do vento.
- Estranho. Eu nunca ouvi esses barulhos!

- Já. Só que não te lembras. Acho que é a música do coração de Deus.
- Se os pássaros vêm do céu, então devem conhecer o segredo
- Estás a falar sozinho, mano?

- Não. Estava a pensar em voz alta.
- E que segredo é esse?

- Tu disseste que ninguém gravou a música por ser um segredo. E a mamã disse que os anjinhos que vêm do céu, para guardar-nos durante a noite, quando dormimos, conhecem todos os segredos. Então, os passarinhos também devem conhecer o segredo, já que também vêm do céu.
"Deus no céu, mãe na terra". Hmm, porque será que os mais velhos dizem isso?
- Mana, porquê que as pessoas mais velhas dizem “Deus no céu e mãe na terra”?

- Onde foi que ouviste isto?
- Ouvi um senhor dizer, na televisão. O que é que significa?

- Significa que a mãe é na terra o que Deus é no céu.
- Ahãan, está bem (...) Não entendi nada!

- Então, sabes que Deus é superpoderoso e que ama muito os seus filhos. Então, é como as mães. Elas gostam muito, muito dos seus filhos, e fazem tudo por eles, e têm superpoderes também, e quando somos obedientes dão-nos aquilo que queremos.
- Isso é verdade! Já entendi!

- Mas não entendi uma coisa mana. Quais são os superpoderes das mães?
- Olha, alguns deles são: cozinhar pratos bem bons,
Adivinhar o que queremos,
Adormecer-nos muito rápido,
Aparecer nos nossos pensamentos a toda a hora,
Sorrir mesmo quando estão muito tristes e zangadas…

- Mana, mana!
- O que foi?!

- O meu amigo Henrique não tem mamã!
- Como assim, não tem mamã?!

- Sim!... O coração da mamã dele parou de tocar e ela foi. Voou lá para o céu. É triste, não é?
- É sim. Por isso tens que cuidar bem da mamã.

- Senão ela também vai voar?
- Não. Senão, quando ela voar, tu vais ficar duas, três, quatro vezes mais triste por não teres sido um bom menino.
- Então já sei! Todos os dias vou dar-lhe muitos beijinhos e abraços bem apertados para ela não voar. De manhã, à tarde e à noite!
- Eu também vou fazer isso!

- Mana?!
- Sim?

- Posso dizer ao Henrique para dar também muitos beijinhos e abraços bem apertados à nossa mamã, para ele ficar zero vezes triste?
- Podes sim.

- Quero a minha mamã!
- Não chores mano. Já já ela está de volta!
- Este “já” demora quantas horas? Está a demorar muito!
- Demora algumas noites e alguns dias.

- Isto é muito tempo, vês!
- Pensa nas coisas boas que ela vai trazer para nós. Nem vais sentir que o tempo não está a passar.

- Estou com muitas saudades dela!
- Eu sei. Também eu! Olha, vou contar-te um segredo. Sabias que a palavra Saudade só existe na língua portuguesa?

- A sério?!
- Sim. A minha professora é que disse.

- Então os Chineses não sentem saudades?
- Sentem! Mas tem outro nome. “Saudade” é só mesmo daqueles que falam português.

- E o que quer dizer, saudade?
- Quer dizer querer e não poder.

- Mas, não é quando alguém não está?
- Sim. É querer alguém, mas não poder ter, porque não está; ou querer voltar a um lugar para onde não se pode naquele momento.

- Tem cor?

- Tem! É de todas as cores do arco-íris. Mas também pode ser a preto e branco, quando é triste.

- E cheiro, tem?
- Tem. Cheira a antigo ou a flores. Depende...

- Mamã, senti muitas saudades tuas! Ainda bem que já voltaste de viagem.
- Sentiste muitas, muitas saudades, ou muitas só?

- Muitas, muitas mesmo. Em português!
- Em português?

- Sim. Não sabes que só quem fala português sente a palavra saudade? Os outros também sentem, mas a palavra deles tem outro nome.
- E sabes como é que se dá um abraço em todas as línguas?

- Não. Como?
- Assim!... Bem apertado e com todas as forças!

- Mamã
- Diz, filha.

- Um dia quando eu for grande, como tu, tu ainda vais existir?
- Claro, filha. Se Deus quiser…

- Vais existir para ensinar-me a cozinhar, não é?
- Sim. Mas já vou estar como a avó e depois como a bisa(avó).

- Não, mamã! Eu não quero que fiques avó! Tu és a melhor mãe do mundo e eu quero que fiques comigo para sempre!
- Mamã, sabias que a música do coração é um segredo?
- Não, é um segredo! Porquê?

- Porque não passa na rádio, ninguém gravou e ninguém consegue gravar! Só os meninos que estiveram na barriga das mamãs é que conhecem. Tu já não te lembras da música do coração da avó não é? Tu disseste!
- Pois não, já passaram muitos anos, esqueci-me!

- Vocês adultos! Quanto mais velhos mais esquecidos! Eu não te posso cantar a música do coração da avó mas posso contar-te o meu segredo.
- Contar o teu segredo? Tu tens um segredo para me contar? Então conta lá.

- Conto sim. Mas tens que fechar os olhos e prestar muita atenção.
O segredo:
Sabes mamã,
Tu és o melhor presente que já recebi. Melhor que todos os brinquedos que tenho. Porque dás-me abraços e beijinhos e coisas de que eu gosto e não estragas, mesmo depois de muito tempo.
Tu és bonita, gosto do teu cheiro a sabão, e sabes sempre tudo o que quero. Prometo que, quando for grande, vou comprar-te muitos vestidos e sandálias, para não ficares triste… Mas só se me deixares ouvir a música do teu coração para sempre. Para que eu nunca mais me esqueça.
E quero que saibas que, quando eu te chamo a toda a hora, não é para te chatear. Quando te chamo, é porque te amo! Mais do que todo o Universo!
Música é amor. E a do coração das mamãs, toca para sempre.

CONTO de Cynthia Perez

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