Não chora mana, a morte não é o fim

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CONTO de Arijuane Japone

Não chora mana, a morte não é o fim
Obra do artista plástico angolano Guizef

Quando as azinhagas mais estreitas se abriam no interior do dia, bicicletas sem travões seguiam com uma mensagem camuflada em sua veracidade inacabada.
PrimaZena, morreu mano Filomeno! – Foram essas as primeiras e únicas palavras que o Zeferino dissera, posto em casa da Zena – sua prima e irmã, como se chamavam. Filomeno era o nome do irmão mais velho da Zena, também do mesmo nome o seu neto, um recém-nascido; primeiro filho do filho do Filomeno, seu sobrinho.
Estes viviam separados a tantas léguas e já não se viam a sensivelmente duas semanas. Até o dia em que o Zeferino trouxera a triste notícia! Triste, a Zena,não questionara as razões da morte, visto que nos tempos em viviam a morte deixara de ser novidade. Na verdade, num ápice qualquer um poderia passar para o além.
Assim que ouviu a notícia, e, viu a cara exausta e desastrosa do mensageiro, os músculos rebentados na sucata, o peso da notícia que trazia nas costas a verter em suor, papando a camisa que já foi outrora de cor branca. Zena, em plenos choros, sugeriu que o seu filho perseguisse até encontrar o galo grande, o que nos ouvidos do Zeferino ressoou música fresca. Mas a enlutada fez o que era recorrente na povoação: confeccionar algo para o primo comer. Deveria servi-lo algo porque eraassim, e assim que ele comesse retornaria ao local da desgraça na companhia da dela.
Xima feita, o prato do emissário a transbordar de alegria, os melhores nacos do frango com aquele aroma característico de comida antiga: boa e saudável. Nem a própriaZena, muito menos os seus dois filhos comeram tanto quanto o anunciador; a notícia triste roubava-lhes o apetite. O que não aconteceu com Zeferino que varreu panela toda e dois litros de cachaça: um levava no organismo o outro na garrafa, que ia a bebericar enquanto dirigia a sua mudjinga marcaHero,que chorava de tanto peso.
Postos na estrada sem conversar, apenas se ouviam os gemidos e choros da Zena, que durante a viagem passou a imaginar os momentos felizes que passara com seu irmão. Imaginou no dia em que este veio defendê-la de uma agressão matrimonial, quando ainda seu marido estava em vida. Neste dia seu irmão quase deu murroErnesto – o seu marido… imaginou também nos dias em que esses faziam mathanga , festa alusiva aos perecidos a tanto tempo, festas da igreja… chegou a imaginar a infância, as lágrimas não paravam de fazer das suas a limpeza do rosto.
Chorava enquanto imaginava… cada imaginação uma lágrima aterrava nos seus lábios. Foi pensando e pensando… como seriam os seus dias sem o seu mais velho, figura que representava a sua paternidade e a dos seus filhos.
Nunca ficou tão longe a viagem da sua casa à casa do seu irmão, a bicicleta parecia uma caminhada de burro ferido. Como se não bastasse, quando estavam a três quilómetros um pico, maldito pico, furou as duas rodas da bicicleta, para concertar duas horas foram perdidas. A Zena iacondenando-se a si mesma, que não deveria ter dado tanta comida ao Zeferino, que a demora era por causa do peso que na bicicleta havia triplicara e, a bebida, pese embora concordasse com os hábitos e costumes dos seus ancestrais.
Quando o crepúsculo ia à espreita, o manto da noite cobrindo as entranhas dos atalhos, a Zena com pensamentos em locais onde não existisse morte e nem doenças, foi desperta com a campainha do transporte de duas rodas. E, o Zeferino disse:
– Nifiya, mbwana!
A Zena não disse absolutamente nada, apenas intensificou os seus gritos. Quando fitou a casa, ainda na bicicleta, viu algumas pessoas que não descodificara a prior. Zeferino pôs os pés no pneu, mas dessa vez não conseguiu travar, atirou ao chão sua prima, acometido de duplo chorros, duas senhoras de igual idade correram para ela e, com capulas à mão, cobrir as partes do corpo que ficaramexpostas, embalaram-na.
A casa fica no fim do atalho, antes dela uma casinha a do seu sobrinho, uma espécie de anexo, nos povoados do interior nenhum jovem de idade superior a quinze anos deveria viver sob mesmo tecto com seus progenitores, isso era falta de moral e era considerada tremenda sem-vergonhice para a família toda.Por isso, os jovens tão cedo vivia sozinhos, pelo menos no sentido parcial, e, nessas casinhas eles tinham a autonomialiteral de fazer e desfazer a vida ao seu bel-prazer.
Acolhida na varanda da casinha do seu sobrinho foi então que sessou vagamente os choros.Puxou uma parte da capulana e limpou o rosto, viu outras mulheres e alguns senhores em melancolia fúnebre, mas, ao contrário dela, ninguém ali, de sensibilidade acurada como é tida a das mulheres, chorava; apenas aparentavam uma tristeza facial e nada mais.
Foi nesse mesmo momento, de inserção emocional que Zena viu teu irmão mais velho e viu que só ela estava admirada. Ele aproximou-se da irmã e disse:
– Não chora mana, a morte não é o fim.
Ela até que queria perguntar, como é que morreste, mas viu tremenda incoerência no seu pensamento e um sorrisinho ia-se deslumbrando no rosto humedecido pelas lágrimas.
Ficou no silêncio e em silêncio, não disse a ninguém sobre a informação que obtivera do Zeferino. Foi dai que viu a nora acompanhada de duas ânsias. Descobriu que a final o Filomeno que morreu não se tratava do seu irmão, mas sim do seu neto, filho do seu sobrinho. Soltou internamente um outro sorriso. Disse para ela mesma: – Morte é morte, não idade nem forma! E, foi questionar o Zeferino o porque da contradição.
– PrimaZena… se eu disse que era o Filomeninho, essa criancinha que nem um ano tinha, você pensa que iria matar o galo grande e me servir a nipa !?

Xima: feita de farinha de milho.
mudjinga: Bicicleta
mathanga: que marca a um ou mais anos de alguém já perecido .
mbwana!: Em chuabo, centro de Moçambique, essa expressão significa que então chegamos.
capulas: Pano que as mulheres usam para cobrir o corpo.
nipa: O mesmo que cachaça, bebida de elevado teor alcoólico, fabricado de forma caseira.

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