Narrativa de um suicídio anunciado

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Conto de Litos dos Santos:Pintura de Paulo Kussy

Narrativa de um suicídio anunciado
Fotografia: Arquivo

O homem estava sitiado pelo mais completo silêncio. Dir-se-ia mesmo que estava encurralado. Fechado a sós, na penumbra do seu gabinete, garatujava sem descanso um bloco pousado na secretária ao seu lado. A decisão estava tomada. Há muito que a temia, há muito que lhe fugia, mas agora era chegada a hora. Folha atrás de folha, redigia tudo o que lhe ia no mais fundo da alma. Agora não tinha mais escolha.
Entretanto, o Chefe de Gabinete cumpria, diligente, as instruções que recebera do seu dirigente e os telefones retiniam, estridentes, nas repartições e nas redacções das rádios, dos jornais e das televisões.
Àquela hora nenhum jornalista se encontrava nas redacções – uns andavam ocupados a cobrirem seminários, “talkshops” e reuniões pelos inúmeros hotéis e pensões, nos quais se faz consecutiva e ininterruptamente, a planificação, o balanço e a revisão de abordagens loucas e estratégias ocas, sem que no meio tenha havido qualquer acção e sem nunca terem chegado a sair da sala de reunião!
Outros estavam espalhados a cobrirem campanhas de consciencialização, corridas de tchovas1 e provas de natação, marchas e jogos de futebol nas vias de maior circulação, de denúncia ou de promoção, de apoio ou de combate, de tratamento ou de prevenção, de um qualquer tema-chavão, de um qualquer disparate. Enfim, só dependia da imaginação do doador internacional e da “inteligência”2 do parceiro nacional.
Alguns tinham sido enviados a acompanharem inaugurações: uma, de três postes de iluminação, em cuja aquisição e instalação se despendeu nem metade do que custou a faustosa recepção de celebração; e outra, de uma escola de pau-a-pique com duas salas, na Ilha de Moçambique, que custou menos de um terço do preço que custou a viagem de avião para toda a delegação.
Outros, ainda, andavam atarefados a divulgarem as doações feitas por algumas das infinitas Organizações sem mandato nem função, que nos infestaram a nação para nos virem espezinhar a cultura e impor a sua visão, e que gastam mais em salários e em condições de acomodação nas suas deslocações do que em benefícios à população, que não chega a ver nem um tostão, e que se tornaram a maior fonte das nossas preocupações em vez de serem parte das soluções.
E havia ainda outros que andavam por aí a dar conta da criação de Altas Autoridades e Comissões nomeadas para realizarem estudos, pesquisas e investigações sobre as razões porque não funcionam as instituições, mas que padecem à nascença das mesmas disfunções, porque são constituídas pelos mesmos ladrões, perdão, pelos mesmos padrões.
E todos estes eventos, por onde se escoam os dólares aos milhões, com que nos estão a empenhar o futuro das novas gerações, decorriam sempre sob o alto patrocínio e autorização, discurso de abertura e orientação dos mais altos dignitários da governação.
Os celulares começaram a retinir e a vibrar nos bolsos de alguns jornalistas, que para se manterem ocupados entre os vazios discursos de abertura e as repletas recepções de encerramento, andavam por ali à mistura a simular entrevistas, para desfazerem tempo.
E de imediato a informação se começou a propagar: estavam todos os media, nacionais e estrangeiros, instituições do Estado e parceiros, dirigentes dos partidos ou seus representantes, convocados para uma conferência de imprensa dentro de instantes; uma comunicação da maior relevância se anunciava no edifício em que o Primeiro-Ministro trabalhava.
Aquilo é que foi uma correria – todos os jornalistas, sem excepção, se precipitaram naquela direcção. Uma comunicação feita assim em cima da hora, sem antecipação, só se podia tratar de uma grande revelação.
Os que tinham carros, atiraram-se para dentro deles de rompante, os que não tinham, penduraram-se nalgum chapa3 que passasse nesse instante. Os que não couberam, desataram mesmo a correr de qualquer maneira, uns a fazerem corta-mato, outros a fazerem corta-feira4 . Ninguém queria era perder uma manchete daquelas de primeira.
A turba de jornalistas chegou ao local em grande tropelia. No exacto momento em que o Primeiro-Ministro na balaustrada surgia. Os gravadores foram artilhados, as câmaras de filmar estrategicamente plantadas, as máquinas fotográficas desataram a disparar em rajadas entrecortadas.
A expectativa era galopante entre as hordas de profissionais da informação, pois em todos eles palpitava a mesma questão: que revelação seria aquela para a qual aquele sujeito, que toda a vida fora dirigente, e, como tal, passara a sua extensa carreira a acobertar e a mascarar as máfias da classe governante e a justificar a má governação reinante, os convocara de forma desavisada, agora que o seu mandato terminava?
Com a voz embargada, o cenho franzido, o Primeiro-Ministro cessante, começara a falar e dizia agora que não se admitia que aquela situação prevalecesse nem por mais um dia, que se impunha pôr termo imediato a tamanha desgovernação, que tinha que se acabar com tanta pilhagem e subtracção, que era preciso denunciar tanto o cúmplice como o ladrão.
E numa derradeira tentativa de desviar a atenção dos cidadãos, declarou com simulada emoção que no que dependesse da sua gestão, “não ficaria por remover uma única pedra, grão de areia ou pedaço de chão” - como se fosse debaixo deles que a corrupção se ocultasse e não fosse bem à vista de todos que ela andasse, nas salas de inúteis reuniões, nos luxuosos carros protocolares e nas mansões de patológicas dimensões, com a descarada conivência das missões diplomáticas, dos doadores e das Organizações, que este despautério todo têm sustentando e que, por qualquer estranha razão, e voluntariamente e de bom grado, até emprestam mais do que o montante que é solicitado!
E que, portanto, concluía com a mais descarada encenação, ele ali acorrera para anunciar à nação, com solene determinação, que o seu governo iria a partir daquele instante desencadear uma guerra sem quartel, contra essa maldição que é a corrupção. E, asseverou, desta vez não iria ser atacada a arraia-miúda, não, desta vez ia ser pesca ao tubarão.
Fez uma pausa, para criar suspense e ouvir um aplauso, e, acto contínuo, caiu para o lado, fulminado, com o nariz a crescer-lhe, desgovernado.
Afinal, daquela vez fora a sério: o combate anunciado, tinha mesmo começado.

1- Pequenos veículos de duas rodas, que são empurrados ou puxados por tracção humana, significando o termo precisamente “empurrar” em línguas do sul de Moçambique, particularmente em Changana.
2- Referência às designadas “Parcerias Inteligentes”.
3- Nome dado aos meios de transporte de 25 pessoas que foram o meio de transporte público predominante em Maputo desde 1990 até à data, e que custavam, inicialmente, 100,00Mt (daí ficarem conhecidos como “Chapa 100”).
4- O gabinete do Primeiro-Ministro situa-se por detrás de um recinto recreativo chamado “Feira Popular de Maputo”.

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